Por Rachel Campello

Jornalista e nutricionista especializada em saúde da mulher

O canto da sereia das canetas emagrecedoras

Entenda os efeitos colaterais das canetas emagrecedoras e a importância do uso acompanhar a mudança de hábitos

Por
Rachel Campello
, Colunista Marie Claire — São Paulo (SP)


O canto da sereia das canetas emagrecedoras Hase

A conversa mudou. Antes, quando alguém falava sobre perda de peso, vinha aquela lista previsível de dieta da moda, academia seis vezes por semana, força de vontade e disciplina. Hoje, a resposta é mais direta: “Comecei a usar Ozempic”. E os resultados aparecem mesmo. Os quilos que resistiam há anos somem. A fome diminui de verdade. O controle sobre a comida finalmente chega. Essa nova geração de medicamentos, que inclui também Mounjaro e Wegovy, representa uma revolução no tratamento da obesidade. Mas, como toda revolução, traz questões que merecem atenção.

A primeira coisa a celebrar é o fato de a obesidade finalmente ser encarada pelo que sempre foi: uma doença crônica. Não é falta de caráter, preguiça ou ausência de força de vontade. É uma condição médica complexa que envolve hormônios, genética, metabolismo. Ninguém controla diabetes ou hipertensão com boa vontade. A obesidade segue a mesma lógica e merece o mesmo respeito científico.

Essas canetas agem nos hormônios que regulam a saciedade e o esvaziamento gástrico. O resultado é uma redução do apetite e uma saciedade que dura mais tempo. Para quem convive com a obesidade, os benefícios são evidentes, como perda de peso, melhora no controle glicêmico, redução da pressão arterial e diminuição do risco cardiovascular. Os estudos mostram resultados consistentes e seguros.

Há também um outro grupo que se beneficia desses medicamentos. São pessoas que não têm obesidade, não colecionam tentativas frustradas de emagrecimento, mas que querem perder peso e não conseguem. Algumas delas querem estar magras para uma ocasião específica. Outras desejam eliminar o peso acumulado na gravidez ou por conta do estresse. Muitas já treinam e comem bem, mas os resultados não vêm. Tipo a tenista americana Serena Williams, que divulgou recentemente fazer uso de análogos do GLP-1, a droga das canetinhas.

Independentemente de qual grupo estamos falando, há implicações no uso das medicações. Como qualquer droga, há efeitos colaterais. Três chamam atenção. O preço é o primeiro. Esses medicamentos custam caro e, para muitas pessoas, é impraticável. Depois, vêm os desconfortos gástricos. Os enjoos e a constipação levam muita gente a interromper o uso. E, por fim, o reganho de peso. Já está comprovado que a maioria das pessoas recupera quase todos os quilos ao suspender o uso. Este pode ser o ponto mais frustrante deles, afinal, a pessoa fez o investimento financeiro e encarou a náusea.

Então, surge a pergunta: para manter a perda de peso, é necessário tomar a medicação para sempre? Não vou criar ilusões. A verdade inconveniente é que a manutenção desse novo corpo depende de você. E aqui, sim, entra a importância da mudança de hábito e da vontade de fazer diferente. Sem isso, o peso vai voltar. Mais uma vez: não se trata de preguiça ou fraqueza. É biológico: o corpo luta para voltar ao maior peso em que esteve.

Para a saciedade, é preciso estratégias alimentares. Estudos já mostram que a saciedade dos análogos do GLP-1 pode ser substituída pela alimentação correta. O GLP-1 é um hormônio produzido no intestino e estimulado principalmente pelo consumo de proteína. Ele sinaliza ao cérebro que estamos saciadas. Assim, precisamos comer o quê? Proteína! Alguns estudos mostram que dietas lowcarb e ricas em proteína auxiliam na aterrissagem suave do desmame da medicação.

Com as canetas, a pessoa come menos e, como efeito indireto, perde músculos. Este é o grande pedágio que esse tratamento cobra. Menos músculo significa menor gasto energético e maior facilidade para recuperar o peso. Músculo, portanto, é o que garante o metabolismo acelerado e auxilia na fase de manutenção.

A conclusão é que essas medicações não operam milagres nem dispensam mudanças de comportamento. Elas apenas tornam essas mudanças viáveis e sustentáveis, enquanto você constrói uma transformação permanente. Sozinhas, elas oferecem resultados temporários.

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