Cleópatra, Maria Antonieta, Kylie Jenner: a peruca e suas adeptas através da história
Por Por Amandine Garcia, da Marie Claire França, Com Tradução de Jaquelini Cornachioni, da Marie Claire Brasil — São Paulo
Qual poderia ser o ponto comum entre Cleópatra e Kylie Jenner? E entre Maria Antonieta e Angela Davis? Cada uma em sua época, cada uma à sua maneira e cada uma por seus próprios motivos, todas deixaram sua marca na história da peruca.
Abaixo, um olhar retrospectivo entre os milênios sobre símbolos que revelam muito sobre as mulheres e sua relação com a aparência.
A peruca quadrada de Cleópatra: uma arma de sedução em massa
Há milênios, a peruca era um elemento-chave do guarda-roupa egípcio. Como não lembrar da rainha Cleópatra e seu famoso corte bob preto, adornado com tranças e jóias? Uma peruca icônica, feita de cabelos naturais, muitas vezes dos escravos.
Naquela época, todo mundo usava perucas e não era tanto o fato de usá-las que indicava status social (como seria mais tarde na história), mas sim o material em que eram feitas. De fato, as perucas de cabelo natural eram destinadas às pessoas abastadas, enquanto os modelos feitos de fibras vegetais adornavam as cabeças dos mais pobres.
O Egito antigo associava cabelos e pêlos à sujeira. A peruca então servia para proteger o couro cabeludo do sol escaldante... mas não apenas. "Textos e representações revelaram o caráter erótico desses adereços", aprendemos nos "Fun facts Histórias de Arte" do Grand Palais. Assim como joias e maquiagem, as egípcias faziam da peruca um recurso essencial para seduzir. O ato de se pentear seria, aliás, uma maneira para as egípcias indicarem o desejo de agradar e o desejo pelo eleito de seus corações".
A peruca ruiva de Elizabeth I: um símbolo de afirmação
Na Inglaterra, após a Idade Média ter rejeitado a peruca, a rainha Elizabeth I usa uma peruca ruiva que contrasta drasticamente com sua pele excessivamente branqueada por maquiagem. Por que uma cor tão peculiar, até então associada aos "bárbaros"?
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O jornal Le Monde oferece uma explicação em um artigo dedicado à soberana: "em primeiro lugar, [para ancorar] na mente a sua ligação com Henry VIII, de cabelos ruivos, cortando as acusações de 'bastarda ilegítima'. Além disso, ao se mostrar ruiva, em contraste com toda a convenção, ela reforça seu status excepcional e, assim, sua imagem de ‘rainha virgem'".
A extravagante cabeleira de Maria Antonieta: uma aparência de alto padrão
Na corte de Versalhes, a peruca é um sinal de prestígio. Ela marca a pertença a uma classe nobre e a funções elevadas na organização social. Mas também é uma bela maneira de disfarçar a calvície que afeta esses Senhores devido a várias doenças, já que a moda é ter cabelos longos.
Luís XIII, Luís XIV, Luís XV... A peruca adorna a aristocracia por um longo tempo, até Luís XVI, marido da coquete Maria Antonieta. Por sua vez, a princesa austríaca também usa perucas imponentes, que se elevam muito (muito!) alto na cabeça. Uma combinação de cabelos naturais (os dela) e enfeites de todos os tipos, cobertos de pó para um acabamento uniforme. Muitas vezes pesadas, as perucas obrigam a andar bem ereto: perfeito para manter uma postura elegante e uma aparência de "dama".
Depois, a Revolução Francesa chega, as cabeças rolam, e as perucas são consideradas símbolos do Antigo Regime…
O corte afro de Angela Davis: a peruca estilizada
Conectando-se à história, vamos mencionar a ativista dos direitos civis nos Estados Unidos, Angela Davis. No final dos anos 60, seu penteado afro se tornou um símbolo de luta contra a sociedade segregacionista e um convite para se libertar dos padrões de beleza ocidentais que estigmatizam injustamente os cabelos crespos, levando as mulheres negras e mestiças a alisar seus cabelos... ou a usar perucas.
Por muito tempo, a peruca fez parte das normas de beleza influenciadas pelo legado do colonialismo. Como lembra o meio de comunicação belga de cultura urbana Tarmac em um vídeo apresentado pela colunista Yveline Umuhoza: na época da escravidão, os proprietários exigiam que os escravos mantivessem seus cabelos impecáveis e arrumados sob pena de punição, considerando os cabelos crespos como sinônimo de desordem e sujeira.
Os cabelos afro eram frequentemente cortados ou escondidos sob lenços, e as pessoas acabaram internalizando o ódio por seus cabelos até transmiti-lo inconscientemente para suas descendências. Para tentar se adequar aos padrões de beleza da sociedade ocidental, usar perucas muitas vezes se mostrou mais prático do que passar horas alisando os cabelos.
Nos últimos anos, as mulheres negras e mestiças têm reafirmado sua identidade e a natureza de seus cabelos, incentivadas por movimentos como o cabelo "nappy" personificado por Angela Davis, e por tantas outras celebridades de hoje: Beyoncé, Zendaya, Alicia Keys... Um retorno ao natural, que não impede, no entanto, o uso de perucas, por simples vontade de mudar o visual e afirmar a personalidade.
A peruca rosa de Kylie Jenner: um acessório de moda por direito próprio
Nas redes sociais e nos tapetes vermelhos, a peruca está presente na cabeça de todas as garotas em alta. Começando por Kylie Jenner, adepta do acessório há vários anos, já que ela declarou em maio de 2016 à Marie Claire US: "Comecei a usar perucas e agora todo mundo está usando". É verdade, muitas personalidades seguiram seu exemplo, como sua própria irmã Kim Kardashian, ou ainda Emily Ratajkowski e Iris Mittenaere. Mas as perucas já haviam causado sensação no tapete vermelho antes de Kylie Jenner, especialmente graças a Lady Gaga e Katy Perry.
A vantagem das perucas? Poder se divertir e multiplicar os looks sem danificar os cabelos. Às vezes com cores chamativas que permitem ser vistas e se destacar, e às vezes com perucas surpreendentemente naturais que ninguém conseguiria detectar à primeira vista.
A peruca ruiva de Caroline Receveur: mantendo a cabeça erguida diante da doença
Para pessoas que perderam seus cabelos devido a tratamentos contra o câncer ou alopecia, é possível encontrar perucas de alta qualidade, indetectáveis e fáceis de manter.
Esta é uma excelente notícia - com um pequeno detalhe de que o preço ainda é bastante elevado - para aquelas que infelizmente enfrentam a doença e sofrem por se sentirem menos femininas após a quimioterapia.
É claro que é essencial destacar que algumas mulheres não sentem a necessidade de usar uma peruca, ou se recusam a fazê-lo por um ato militante, para quebrar tabus em torno da doença e não se submeterem ao que é considerado normal pela sociedade. É importante também mencionar que é possível alternar entre as duas opções, de ter o crânio nu ou usar uma peruca, como a influenciadora Caroline Receveur, que está lutando contra o câncer de mama há vários meses e que aparece às vezes com uma peruca ruiva deslumbrante, às vezes com a cabeça raspada.
Um grande agradecimento a Michel Messu, Professor Emérito de Sociologia e membro do Centro PHILéPOL (Filosofia, Epistemologia, Política) da Universidade de Paris, autor de "Um etnólogo no salão de cabeleireiro", publicado pela editora Fayard, por sua valiosa contribuição.
*Este artigo foi originalmente publicado em Marie Claire França, com contextualizações feitas por Marie Claire Brasil