Ebony: ‘Todo meu conhecimento sobre maquiagem veio das drag queens’

Nos bastidores do lançamento de seu primeiro merch, a rapper fala sobre autocuidado, música e, claro, revela seus melhores segredos de beleza na estreia do quadro ‘Sessão de Beleza’

Por
Luiza Vezzá
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)


Ebony Divulgação/Fernando Mendes

“Eu tenho o rosto, tenho o corpo e eu tenho a rima.” O verso de “Espero Que Entendam” funciona como síntese da artista que Milena Pinto de Oliveira construiu. Nascida em Queimados, no Rio de Janeiro, Ebony se firmou como uma das vozes mais marcantes do rap nacional — tanto pela estética quanto pelo discurso.

De tranças loiras e repertório afiado, ela sabe exatamente o que quer comunicar. É desse lugar que, nos bastidores do ensaio de sua primeira linha de merch — uma coleção autoral de roupas —, estreia o quadro “Sessão de Beleza” de Marie Claire.

Aos 25 anos, diz viver um momento de reconciliação com a própria imagem. “Meu mantra de beleza é só ficar me olhando, linda e pronto. Mas já briguei muito com a minha imagem, não gostava do que via”, conta. Hoje, antes de qualquer produto, sua rotina começa no básico: “Para mim, uma pele bonita é uma pele saudável, então a alimentação é o primeiro passo”. O ritual segue com banho gelado, que, segundo ela, ajuda a “fechar os poros”.

A maquiagem da “Baddie”

Ebony — Foto: Divulgação/Fernando Mendes

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Quando assume os pincéis para fazer sua própria maquiagem, Ebony recorre a referências pouco convencionais. “Todo meu conhecimento sobre maquiagem veio das drag queens. Eu amo brincar com luz e sombra”, diz. Diante da penteadeira, reúne nécessaires com variações de lápis, bases, corretivos e iluminadores.

O processo começa pelos lábios — foco central de sua maquiagem. Ali, aplica um truque que virou assinatura: marca discretamente o canto interno da boca para criar a ilusão de um sorriso sutil. Em seguida, usa um corretivo mais claro rente ao contorno inferior para ampliar o lábio superior.

A lógica é simples: maquiagem como ferramenta de percepção. “Faça qualquer coisa que te fizer se sentir confiável”, resume. Entre os recursos que mais gosta de explorar está a suavização do espaço entre os olhos, buscando um efeito que associa a traços recorrentes em mulheres negras e africanas. “Acho lindo.”

Autoimagem antes e depois da fama

Se hoje os lábios são motivo de orgulho, nem sempre foi assim. “Já refleti muito sobre o que a sociedade pensava sobre meninas como eu”, afirma. A percepção, construída ainda na infância, afetou diretamente sua relação com a própria imagem.

Ebony reconhece o impacto do racismo nesse processo. “Assim como todas as pretinhas, já tive vontade de fazer procedimentos estéticos.” A virada veio com a carreira e com o aprofundamento em referências de negritude. “Quando comecei a me ver em outras mulheres negras, passei por um processo de cura.”

Embora cante desde os 17 anos, a projeção nacional é recente. Com quase dois milhões de ouvintes mensais no Spotify, tornou-se a primeira rapper brasileira a gravar para o From The Block, série conhecida por performances ao vivo. Também foi a primeira a estampar a capa da revista internacional Galore. “Jovem, bela, ficando rica”, define.

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Ebony — Foto: Divulgação/Fernando Mendes

Em seu álbum mais recente, KM2 (De Luxo), a faixa “Festas e Manequins” traduz esse deslocamento. A letra percorre o estranhamento diante dos olhares que recebe e observa, com ironia, mudanças de comportamento ao redor. “Eu vi a mesma menina que zoava o tamanho da minha boca colocando preenchimento labial. Isso diz muito sobre a nossa sociedade.”

Para além da aparência, Ebony diz que a beleza não é apenas sobre fisicalidade e associa beleza a disciplina. “Cuidar de mim é não procrastinar. É não negociar meus sonhos.” Nos dias difíceis, recorre ao corpo: dança por horas, ensaia, trabalha. “Não deixo isso me pegar.”

Imagem, cabelo e identidade

“Cropped, short, trança loira, piercing no umbigo.” O verso de “Parte do Mundo” (2025) descreve um visual que não é construção recente. “A vida toda fui loira”, afirma. Ao estruturar sua imagem pública, decidiu potencializar esse traço e buscar uma estética mais etérea.

Hoje, experimenta contrastes, como a raiz natural mais escura, mas ainda não considera abandonar o loiro. O cabelo, aliás, acompanha suas transformações: já passou pela cabeça raspada e encontrou nas tranças uma solução contínua desde a fase de comprimento médio.

A rotina de cuidados é técnica e disciplinada: inclui tônicos de fortalecimento, umectação, acidificação e pausas entre as tranças para evitar danos como a alopecia de tração. A experiência pessoal também revela uma lacuna estrutural. “Tem fotos importantes da vida de meninas negras em que a pele aparece acinzentada ou estourada”, observa. “Não é a pior violência, mas é uma forma de violência.”

Beleza como processo

O lançamento de sua primeira linha de merch — com camisetas e boné adaptado para diferentes volumes e texturas de cabelo — surge como extensão dessa visão. Pensar o produto, para Ebony, é também pensar em quem usa.

No fim, sua relação com a beleza passa menos por padrões e mais por reconstrução de olhar. “Precisei reaprender o que eu achava bonito”, diz. Hoje, filtra referências, prioriza identificação e relativiza tendências. “Estilo importa mais do que marca.”

Ao revisitar a própria trajetória, sintetiza o processo em um conselho simples, direcionado à versão mais jovem de si mesma: “Você é muito linda. Acredita nisso. Você vai entender”.

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