A estética do cigarro voltou? Entenda o risco do movimento para a beleza

“Cigarette girl” é uma tendência de comportamento que cobra o preço em saúde e aparência, alertam especialistas

Por
Camila Bucoff
, Marie Claire — São Paulo


Hailey Bieber apareceu fumando recentemente em um editorial para a Interview Magazine, publicado em abril de 2026. Reprodução / Interview Magazine

A volta da estética do cigarro é um fenômeno que pode ser percebido nas ruas. Uma pesquisa de 2025 do Ministério da Saúde aponta que, pela primeira vez em quase duas décadas, o número de fumantes no Brasil voltou a crescer, interrompendo uma tendência de queda. Nas redes sociais, isso aparece em trends como “cigarette girl”, que transformam o cigarro em acessório de moda e contrastam com a estética “clean girl”. O movimento também surge em séries e filmes. Mas apesar da glamourização, a ciência revela o que acontece por trás dessa moda retrô e como ela impacta diretamente a beleza e a longevidade.

Não é novidade que o cigarro é usado como potência estética pela indústria do entretenimento. Quando aparece no audiovisual ou em narrativas de moda, “ele deixa de ser apenas um produto e funciona como um acessório simbólico, que ajuda a construir uma imagem pessoal”, aponta Patrícia Diniz, professora da ESPM nas pós-graduações de “Negócios e Marketing de Luxo Contemporâneo” e “Negócios e Marketing Digital para Moda & Beleza”.

Segundo a especialista, “séries e editoriais frequentemente exploram o visual heroin chic ou indie sleaze, onde o cigarro é usado para reforçar uma imagem de desleixo planejado”. Sex and the City, High Fidelity e Love Story são exemplos de produções que apresentam personagens estilizados e culturalmente influentes, em alguns casos associando o cigarro à construção de uma identidade cool e sofisticada. Esse tipo de representação contribui para a presença simbólica do hábito no imaginário cultural.

Personagem Rob interpretada por Zoë Kravitz em High Fidelity. — Foto: Reprodução / Hulu

O mesmo acontece no mundo da moda. Para a edição Outono de 2026 da Vanity Fair, Kylie Jenner posou segurando um cigarro na capa. De acordo com Diniz, às vezes o elemento pode surgir no styling, na atmosfera da campanha, na fotografia, na pose, na iluminação ou no ar de decadência sofisticada. “A moda sabe trabalhar muito bem com símbolos, e o cigarro tem uma carga imagética forte”.

Edição Outono de 2026 da Vanity Fair — Foto: Reprodução/ Instagram @sohonewsinternational_186

“Essa apropriação indireta tenta transformar um agente de envelhecimento precoce em um item de estilo, mas o preço que a pele paga, com rugas profundas, perda de viço e senescência celular, é real e irreversível”, aponta Silvana Scheffel, coordenadora da Pós-Graduação em Gestão de Negócios e Inovação em beleza na ESPM.

Ela explica que o resgate do fumo traz consequências biológicas imediatas que destroem a aparência jovem da pele. “O tabagismo aumenta a enzima MMP-9, que dissolve a estrutura da pele, levando à flacidez e rugas profundas. A fumaça e o vapor induzem a senescência, um estado onde as células da pele param de se renovar, resultando em um aspecto opaco e envelhecido”.

Por que a estética volta a ganhar espaço

Uma das razões levantadas pelas especialistas para esse retorno é um ciclo geracional que resgata elementos antes considerados ultrapassados. “O que volta, em geral, não é o contexto original inteiro, mas a sua força visual. Esse movimento acontece porque referências antigas ajudam a criar contraste e identidade em uma cultura que está muito rápida e saturada de imagens. Quando uma geração resgata algo que parecia datado, ela não está repetindo o passado, está dando um novo significado a esse repertório”, explica Diniz.

Brigitte Bardot fotografada por Terry O'Neill em 1971. — Foto: Reprodução/ X @TheCinesthetic

Para ela, o retorno está ligado à uma provocação social, “embalada” pela nostalgia. “A nostalgia oferece o repertório visual e a provocação dá potência cultural. O cigarro aparece como um gesto para desafiar a lógica do bem-estar e da disciplina. Por isso ele volta como símbolo de atitude, mais do que como uma simples saudade do passado”.

Elas apontam para as redes sociais como principal responsável pela volta da estética. Scheffel se baseia no estudo de Hanke et al. (2026), publicado na Frontiers in Public Health, que demonstra como a exposição à conteúdos de tabaco e vape em redes sociais está diretamente associada ao aumento da intenção de consumo de jovens entre 18 e 30 anos.“O fenômeno visual cria uma norma social onde o comportamento nocivo é aceito e desejado”.

No caso dos vapes, a nostalgia é substituída por um design futurista. “Diferente do cigarro antigo, o vape é desenhado para o Instagram”, diz a coordenadora.

Felizmente, o retorno da estética como fenômeno visual não significa aumento real no consumo. “Ainda é cedo para tratar isso como uma volta automática do cigarro tradicional. O cenário é mais complexo. O que os dados mostram aqui no Brasil é o avanço do cigarro eletrônico entre adolescentes. Então, talvez o principal risco não seja exatamente o retorno do velho cigarro como antes, e sim a revalorização do universo simbólico da nicotina em novas formas de consumo”, indica Diniz.

Scheffel acredita que, para desconstruir essa onda, “precisamos parar de olhar para a fumaça e olhar para a célula”. “A verdadeira sofisticação hoje é o domínio sobre a própria longevidade e a preservação do DNA”.

Campanha antifumo por Ziraldo na década de 80. — Foto: Reprodução/ Instagram @acervocampbr

Já Diniz acredita que a estratégia mais inteligente não é moralizar demais nem repetir a imagem glamourosa para depois condená-la. “O melhor caminho é mudar o foco e desmascarar a lógica de manipulação: mostrar que esse apelo foi desenhado para parecer desejável”.

No campo da beleza e da saúde, é útil traduzir os efeitos concretos do tabaco e da nicotina sobre pele, boca, envelhecimento e bem-estar, de forma clara, sem cair em tom ‘militante”, completa.

Quais são os efeitos do cigarro para a beleza

A dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia Regional São Paulo (SBD-RESP), Beatriz Raia Bottura, pontua como o cigarro afeta a saúde e, com isso, pode diminuir a autoestima.

Acelera o envelhecimento

Ao reduzir a oxigenação e aumentar o estresse oxidativo, o cigarro acelera o envelhecimento da pele. “Na prática, isso significa menos nutrientes chegando às células e mais danos acumulados, contribuindo para o envelhecimento precoce”.

Aumenta a flacidez

O tabagismo destrói colágeno e elastina, responsáveis pela firmeza da pele. Além disso, “o movimento repetitivo ao fumar (como contrair os lábios) favorece o surgimento de rugas periorais”.

Causa manchas ou deixa a pele com aspecto opaco

A pele do fumante costuma ter um aspecto mais opaco, acinzentado e sem viço. “Isso acontece pela má circulação e pela menor oxigenação. O estresse oxidativo pode estimular alterações na pigmentação, favorecendo manchas e um tom de pele irregular”.

Enfraquece cabelos e unhas

“Pode prejudicar a microcirculação [parte da circulação sanguínea que acontece nos vasos mais pequenos do corpo] no couro cabeludo, contribuindo para fios mais frágeis. Nas unhas, pode haver maior fragilidade, crescimento lento e até manchas amareladas devido ao contato com a nicotina”.

Provoca manchas nos dentes e mau hálito

A nicotina e o alcatrão se acumulam nos dentes, o que causa escurecimento. “Já o mau hálito está ligado ao ressecamento da boca e ao aumento de bactérias, além de inflamações gengivais”.

O que muda para quem decide parar de fumar

Glauce Eiko, médica dermatologista e membro da SBD-RESP, observa que muitos desses danos são parcialmente reversíveis após a interrupção do hábito. “Em poucas semanas ou meses, a microcirculação e a oxigenação da pele começam a se normalizar, o que devolve parte do viço e reduz o aspecto opaco. Embora rugas profundas geralmente não desapareçam sozinhas. Além disso, a velocidade de degradação do colágeno diminui, fazendo com que a pele volte a envelhecer em um ritmo próximo ao de um não fumante”.

Ela explica que na saúde bucal, a interrupção do fumo melhora a resposta aos tratamentos odontológicos. Nos lábios, há uma diminuição do ressecamento e das fissuras constantes. Os cabelos se tornam menos quebradiços e o mau hálito tende a diminuir.

Além disso, existem diversos tratamentos que podem acelerar a recuperação da pele daqueles que abandonaram o cigarro. “No cuidado tópico diário, o uso de retinóides combinados com antioxidantes e o uso rigoroso de protetor solar, ajuda a renovar a pele”. “No consultório, procedimentos como laser fracionado, luz intensa pulsada, microagulhamento e peelings químicos são eficazes para melhorar a textura e as manchas”.

A médica conclui que, para potencializar esses efeitos, “é fundamental manter um suporte de hidratação, nutrição balanceada e bons hábitos de sono”.

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