Por Elaine de Oliveira

Sommelière carioca, louca por vinhos e outros shots. Colunis... ver mais

Espumante: taça flute ou taça de bojo grande?

Por
Elaine de Oliveira
— do Rio de Janeiro (RJ)


Melhor taça para espumante Acervo Pessoal

Verão no Brasil tem cheiro de mar, mesa leve, conversa solta e, quase sempre, uma garrafa de espumante bem gelada esperando o momento certo de ser aberta. Não é coincidência. Poucos vinhos combinam tanto com o nosso clima quanto o espumante. Fresco, vibrante, gastronômico, ele acompanha do almoço despretensioso ao brinde da noite sem pedir cerimônia.

Mas no meio desse ritual tão comum existe um detalhe que quase sempre passa despercebido e que muda completamente a experiência: a taça.

Durante muito tempo, aprendemos que espumante bom se serve em taça flute. Aquela taça alta, fina, elegante, que mantém as bolinhas subindo por mais tempo e fica linda na foto. E ela cumpre esse papel muito bem. O perlage, essas bolhinhas que fazem parte do encanto do espumante, aparecem mais visíveis, mais intenso, quase hipnótico.

Só que o mundo do vinho muda, evolui e começa a questionar algumas verdades antigas. Hoje, cada vez mais, sommeliers, produtores e especialistas defendem servir espumantes em taças de vinho, com bojo maior.

O motivo é simples: espumante é vinho.

E vinho vive de aroma, textura, volume e complexidade.

Na flute, o perlage se destaca, mas todo o resto fica comprimido. Os aromas não se abrem como poderiam, não se espalham, não chegam ao nariz com clareza. É como tentar entender um vinho incrível olhando só para um detalhe, sem enxergar o conjunto.

Quando você serve um espumante numa taça de bojo grande, pode ser uma taça Bordeaux ou mesmo uma taça de espumante com haste alta e bojo mais largo, o vinho finalmente ganha espaço. As bolinhas continuam ali, presentes e elegantes, mas agora dividem a cena com os aromas. Frutas frescas, notas cítricas, flores, maçã, pera, pão, brioche, às vezes um toque de frutas secas ou amêndoas começam a aparecer com muito mais clareza.

A textura na boca também muda. O vinho fica mais amplo, mais envolvente, mais interessante. Você entende melhor o que está bebendo.

Taças: qual escolher? — Foto: Criada com IA

E não, o espumante não morre na taça de bojo grande. O perlage pode até parecer um pouco menos exuberante visualmente, mas continua presente, vivo, cumprindo seu papel. Na prática, essa perda é bem menor do que se imagina. O ganho, esse sim, é enorme.

No fim das contas, é uma escolha.

Se a ideia é só brindar, levantar a taça, sorrir e seguir a festa, a flute cumpre sua função perfeitamente. Mas se a proposta é beber espumante como vinho, com atenção, prazer e curiosidade, a taça de bojo maior transforma completamente a experiência.

Vale lembrar que o Brasil hoje é considerado um dos grandes produtores de espumantes do mundo. Nossos rótulos são premiados, respeitados internacionalmente e simplesmente extraordinários. Quando a gente muda a taça, muda também a forma de enxergar e valorizar a qualidade do que está sendo feito por aqui.

Trocar o formato da taça não é regra. É convite, é provocação. Um convite para instigar a sair do automático, prestar mais atenção e dar espaço para o vinho se mostrar. Porque quando o espumante tem espaço, ele fala. E fala bonito.

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