Por Maria Bopp

Onde buscas um anjo, eu sou mulher

Por
Maria Bopp
— de São Paulo (SP)


'Onde buscas um anjo, eu sou mulher' Hase

Durante o tempo em que produzi os vídeos da Blogueirinha do Fim do Mundo, eu repe- tia que a raiva era meu principal combustível para fazer humor. Admiro quem consegue fazer uma comédia de observação, leve e descompromissada. Mas, na minha experiência, a inspiração para meus roteiros nasce necessariamente da frontalidade. Mais tarde aprendi que as redes sociais operam ex- plorando nossas emoções para prender nossa atenção.

Medo, indignação e ódio são as que mais nos mantêm engajados. Ao entender isso, veio-me a dú- vida: será que essa virulência é mesmo minha? Ou meus vídeos são apenas um subproduto da manipu- lação digital de Zuckerberg e companhia? Quando olho para minha vida pré-algoritmo, po- rém, nenhuma surpresa: eu sempre fui brava. Desde a puberdade, pelo menos. Talvez literalmente desde a primeira mens- truação. Lembro da minha mãe, paciente e carinhosa, tentando me ensinar a usar um absorvente enquanto eu me recusava, aos berros, acuada no canto do banheiro, numa reação até cômica de tão desproporcional.

Não tenho medo de confrontos. Pelo contrário. Já me meti em briga de casal bêbado em posto de gasolina. Já discuti em um set quando me senti desrespei- tada. Já até contei no programa Que História É Essa, Porchat? o barraco que vivi aos 15 anos com uma celebridade, porque não hesito em me defender. Lembro do meu tio dizendo à minha mãe: “Ainda bem que a Maria é mulher, porque ela é briguenta. Se fosse ho- mem, ela te daria muito trabalho”.

O documentário She’s Beautiful When She’s Angry, que revisita a segunda onda feminista nos Estados Unidos e em seu título ressignifica ironicamente uma frase sexista, mostra como a indignação combativa foi decisiva na luta por direitos reprodutivos, igualdade no mercado de trabalho e autonomia sobre nos- so próprio corpo. A raiva movimenta. Claro que ela também tem seu custo. Podemos ser vis- tas como histéricas, exageradas, difíceis, divas.

A raiva nos desautoriza aos olhos de quem nos prefere dóceis. Mas ela também nos torna menos inofensivas e há algo de profundamente protetor nisso. Ser vista como alguém que reage rompe com a expectativa da passividade, tão conveniente para quem se beneficia do nosso silêncio. Claro que também quero ser reconhecida como uma mulher educada e gentil, mas não vejo problema em ser intimidadora. E minha receita pra curar a ressaca moral após um episódio de fúria é ter a certeza que a complacência não protege ninguém.

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