A angústia de estar cronicamente on-line

A era que prometia informação na palma da mão e mais liberdade tem nos deixado cada dia mais exaustos e angustiados. Logo, a pergunta é inevitável: por que ficamos o tempo todo on-line? Leia a coluna da psicanalista Maria Homem


Maria Homem: 'Estar cronicamente on-line é viver em suspensão. Nem dentro, nem fora' Ilustração: Hase

Talvez seja difícil imaginar, hoje, um mundo sem celulares ou telas. Elas se tornaram quase uma extensão do nosso corpo. Estamos sempre plugados, olhos colados na tela, dedos em movimento, mente capturada por uma sequência infinita de conteúdos, sons e notificações.

A era que prometia informação na palma da mão e mais liberdade tem nos deixado cada dia mais exaustos e angustiados. Logo, a pergunta é inevitável: por que ficamos o tempo todo on-line?

Há algo de muito íntimo nesse gesto aparentemente banal que é abrir o celular, rolar o feed, atualizar a página. Fazemos isso quase sem perceber, como quem abre a geladeira sem fome, acende um cigarro sem pensar ou liga a TV apenas para ouvir um ruído ao

fundo. É um pequeno ritual que tenta preencher algo que não sabemos nomear.

Na psicanálise, chamamos isso de adicção, quando o sujeito se cola a um objeto, uma substância, uma pessoa ou, hoje, uma tela, para tentar aplacar uma falta. Porque, no fundo, estar o tempo todo conectado é também confessar que não nos bastamos.

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Talvez seja esse o ponto mais revelador do nosso tempo: Buscamos na tela o mesmo amparo que, um dia, encontramos no outro. O bebê nasce ligado por um fio, dependente de quem o nutre e o ampara.

Crescer é aprender a cortar esse cordão e se sustentar sem esse outro sempre presente. Mas algo na cultura digital parece nos convidar de volta à simbiose, à tentativa de nunca mais ficar só.

Como bebês, passamos a buscar na tela um alimento simbólico que nunca sacia. Consumimos imagens como quem tenta se nutrir, mas o que recebemos, na maioria das vezes, é uma fome ainda maior, uma carência que se renova a cada scroll. É como acordar de madrugada e, sem pensar, abrir o celular: não para encontrar algo, mas para não sentir o vazio de não ter o que procurar.

A distração se tornou uma forma de anestesia, um modo de não pensar, de não sentir, de não se confrontar com o próprio desejo. É mais fácil rolar o feed do que se perguntar: o que eu quero, de fato? O que me move? O que posso criar?

Estar cronicamente on-line é viver em suspensão. Nem dentro, nem fora. Um limbo onde tudo acontece e, ao mesmo tempo, nada se realiza. A proposta não é demonizar a tecnologia, mas recolocar o fio no lugar certo. Cortar, ainda que um pouco, essa conexão que nos prende ao imaginário coletivo. Desligar o olhar do mundo dos outros para poder reencontrar o próprio.

Você nunca verá tudo, o todo não existe. Mas há algo que só você pode fazer: sua obra, seu gesto, seu modo singular de estar no mundo. Desconectar-se não é ausência. É presença. É o começo de uma vida que, finalmente, volta a pulsar.

+ Acompanhe a coluna de Maria Homem em Marie Claire.

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