'Perdemos muito tempo tentando nos provar’: Café da manhã com as CEOs debate os desafios de liderar sendo mulher

Sétima edição do evento reuniu executivas do setor privado em São Paulo, com a presença da psicanalista Maria Homem na mesa principal

Por
Izabel Gimenez


Valor Econômico e Marie Claire reúnem mulheres CEOs em evento em São Paulo Ana Paula Paiva/Valor

Nesta sexta-feira (10), o Valor Econômico e a Marie Claire reuniram executivas do setor privado em mais uma edição do Café com as CEOs, em São Paulo. Em sua 7ª edição, o encontro voltou os olhos para um tema que vem ganhando espaço dentro e fora das empresas, a liderança feminina e os caminhos ainda necessários para transformar discurso em prática.

A manhã começou com a apresentação do estudo Mulheres na Liderança 2025, realizado por Valor, O Globo, Época Negócios, PEGN e Marie Claire em parceria com a ONG Women in Leadership in Latin America (WILL). O levantamento ouviu 173 empresas de médio e grande porte, sendo 60% nacionais e 40% multinacionais.

Os resultados mostraram que a equidade de gênero vem avançando na agenda corporativa, ao menos no nível das políticas e estruturas formais. Hoje, 91% das empresas dizem monitorar a questão de gênero. Em 78% delas, o tema já conta com área específica e orçamento próprio. Outras 67% afirmam ter políticas formais de promoção da equidade e diversidade, enquanto 65% dizem que o assunto está entre as prioridades da agenda dos CEOs.

Fernanda Delmas e Daniela Toffoli — Foto: Mônica Bento/Valor

Os números mostram que a pauta tem deixado de ocupar um lugar periférico e passou a integrar, cada vez mais, a estratégia das organizações. Para Presidente da WILL, Silvia Fazio, no entanto, criar políticas é apenas parte do caminho.

A executiva chamou atenção para a distância que ainda existe entre intenção e resultado. Para ela, o momento é de reconhecer avanços, sem perder de vista a necessidade de medir impacto real. “Não vejo retrocesso. É uma agenda positiva. É importante reconhecer quem está se esforçando, mas também avaliar quem de fato atingiu resultados, porque muitas iniciativas ainda não são efetivas”.

Entre os sinais mais promissores apontados por ela está o aumento da presença de mulheres pretas e pardas em cargos de liderança, além do maior reconhecimento de mulheres com mais de 50 anos nesses espaços. Na avaliação de Fazio, esse movimento não acontece isoladamente dentro das empresas, mas reflete mudanças mais amplas na sociedade brasileira.

“As políticas estão crescendo, e a expectativa é que seus efeitos apareçam de forma mais consistente no médio prazo. Essa geração é pioneira, qualificada, independente. Ela é vista com outros olhos pela sociedade, e isso se reflete nas empresas”, disse.

A programação também abriu espaço para uma reflexão mais subjetiva sobre o significado de liderar. Convidada do evento, a psicanalista e escritora Maria Homem participou de um talk show mediado por Maria Fernanda Delmas, diretora de Redação do Valor Econômico, e Maria Rita Alonso, diretora de Redação da Marie Claire. No encontro, antecipou o seu próximo livro, Procura-se: uma nova liderança para um novo tempo, que será lançado em junho pela Editora Record.

Na obra, que não pretende propor fórmulas prontas ou servir como um manual de boas práticas, a autora defende a ideia de que a liderança, no mundo contemporâneo, exige mais do que competência técnica. Exige maturidade psíquica, sensibilidade ética e uma consciência mais profunda sobre o próprio papel.

Maria Homem foi uma das palestrantes do encontro — Foto: Mônica Bento/Valor

Ao longo da conversa, a autora retomou a forma como o poder foi historicamente construído. Segundo ela, durante muito tempo o lugar do líder esteve ligado a uma espécie de legitimação superior, quase sagrada. Com a modernidade, esse princípio se transforma, e a autoridade passa, ao menos em tese, a ser associada à competência, ao preparo e à experiência.

“Quem sabe fazer é quem se preparou, se formou, estudou, teve experiência. O poder, no seu melhor sentido, é justamente essa potência de fazer"

Quando a discussão chega às mulheres, a discussão ganha outra camada. Maria Homem destacou como, para muitas delas, a trajetória até posições de liderança continua atravessada por uma demanda constante de validação. “Tudo que a gente faz muitas vezes é um excesso de trabalho para provar que somos suficientes”, afirmou.

A fala aponta para um desgaste silencioso e profundo para aquelas que tentam corresponder, ao mesmo tempo, às exigências do poder e às expectativas impostas sobre o feminino. Aparência, comportamento, juventude, performance, tudo isso ainda funciona como uma espécie de ruído permanente.

“Poder ser quem somos, com nosso corpo e nossa trajetória, deveria ser suficiente. Nos fazer acreditar no contrário é mais uma estratégia da cultura patriarcal para nos distrair”, alertou.

Criado em dezembro de 2023, o Café com as CEOs se consolidou como um espaço seguro e exclusivo pensado para que grandes líderanças feminas do país debatam temas que atravessam a vida das mulheres, como políticas públicas, saúde, representatividade, empreendedorismo, entre outros.

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