Por que as mulheres brasileiras estão infelizes? Nível de satisfação com suas vidas é de apenas 30%, diz estudo
Novo levantamento realizado pela ONG Think Olga mapeia os impactos na saúde mental das mulheres brasileiras depois da pandemia e quais aspectos individuais e coletivos mais causam sofrimento. Mais de mil entrevistadas tiveram de avaliar as próprias vidas de 0 a 10, e a maior nota foi 3,2.
Por Camila Cetrone, redação Marie Claire — São Paulo
Se as brasileiras pudessem avaliar o quão satisfeitas estão com suas próprias vidas, o percentual seria de 30%. É o que aponta um novo levantamento divulgado nesta quarta-feira (30) pelo Laboratório de Inovação da Think Olga, ONG de inovação com foco em mulheres. Além de mostrar que as mulheres estão completamente insatisfeitas, a pesquisa mapeia a situação da saúde mental das mulheres no Brasil pós-pandemia.
O estudo Esgotadas busca entender porque o sofrimento psíquico é maior em mulheres, analisando quais aspectos individuais e coletivos são os que mais impactam na saúde mental delas. Em 2019, 7 em cada 10 brasileiras tinham um diagnóstico de depressão e ansiedade no Brasil, de acordo com o Institute For Health, Metrics and Evaluation. Além disso, a taxa de depressão é o dobro em mulheres, e uma em cada cinco das brasileiras tem algum Transtorno Mental Comum (TCM), segundo dados do Instituto Cactus de 2021.
Segundo o relatório do Lab Think Olga 2023, 86% das brasileiras consideram enfrentar uma carga alta de responsabilidades e 45% já foram diagnosticadas com algum transtorno mental. As entrevistadas foram pedidas para avaliar, com notas de 0 a 10, oito áreas de suas vidas – que vão de estilo de vida e trabalho a relações interpessoais.
A nota mais alta que elas deram foi de 3,2 para as relações amorosas; a mais baixa foi de 1,4, para a situação financeira. Outros pilares avaliados foram relações familiares (3), relação consigo mesma e autoestima (2,7), relação com amizades ou com a comunidade, saúde emocional (ambos com nota 2,4), relação com o trabalho (2,2) e capacidade de conciliar diferentes áreas da vida (2,1).
O estudo entrevistou 1.078 mulheres brasileiras, entre 12 e 16 de maio deste ano. A margem de erro é de 3 pontos percentuais e há intervalo de confiança de 95%. As participantes são residentes em todas as regiões brasileiras, de diversas classes sociais e identidades raciais. As principais entrevistadas residem na região Sudeste (42%), têm mais de 50 anos (28%), são brancas (51%) e heterossexuais (86%). Metade delas integram a classe social DE e 55% têm filhos.
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Não é só com você
Maíra Liguori, diretora de Think Olga, afirma que a importância de se escancarar esses números está na possibilidade de debater a saúde mental das mulheres, entrelaçando o assunto como questão estrutural e social, e não só uma dor individual.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconheceu que o abalo maior na saúde mental de mulheres é também influenciado pela desigualdade de gênero. Há ainda a maior vulnerabilidade à violência doméstica e sexual, oportunidade educacional ou emprego limitado e responsabilidades maiores de cuidado.
"Claro que o sofrimento psíquico é do indivíduo, mas a gente tem lidado com ele como se fosse algo que só o indivíduo, sozinho, tem que resolver; quando na verdade o contexto, as estruturas sociais e culturais do país acabam por perpetuar o sofrimento. É muito importante que a gente olhe esses dados para entender que quando falamos de sofrimento psíquico, estamos falando, na verdade, de sofrimento psicossocial. São coisas que estão articuladas e devem andar juntas", pondera Liguori.
Falta de dinheiro
O mapeamento demonstra que a situação financeira e o trabalho são os fatores que mais causam sofrimento mental nas brasileiras. Cerca de 48% delas se sentem esgotadas por estarem em uma situação financeira apertada e/ou restrita. Além disso, 35% estão endividadas e 22% dependem financeiramente de terceiros.
Com relação à saúde mental no trabalho, 32% acredita que recebe uma remuneração baixa; 22% se sentem sobrecarregadas devido ao trabalho doméstico; e 21% se sentem invisíveis ou não reconhecidas no trabalho que desempenham.
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Relacionamentos
No campo das relações interpessoais, 25% das entrevistadas pelo estudo dizem ter poucas amizades ou amizades tóxicas. A solidão ou pouca interação social é sentida por 24% delas, e 20% são impactadas por uma árdua jornada de trabalho doméstico ou funções ligadas ao cuidado.
O relacionamento amoroso aparece em seguida, com 19% das mulheres dizendo sentir falta de ter uma parceria e 17% impactadas por problemas amorosos e conjugais, como separação e desentendimento, por exemplo. Depois, aparecem os problemas e/ou responsabilidades com filhos e falta de rede de apoio, ambos com 16%.
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No campo do impacto na saúde mental devido a fatalidades, 45% estavam lidando com a morte de um ente querido,33% com doenças físicas e 18% com acidentes.
Discriminação e estilo de vida
O estudo mapeou ainda que 21% das mulheres entrevistadas sentem que são alvos de atitudes machistas e 9% sentem que são discriminadas socialmente por conta da classe social. Cerca de 4% sentem ser alvos de racismo; 3% de xenofobia; e 2% de homofobia.
Quando o assunto é estilo de vida, o que mais incomoda é a pressão estética, em 26%, seguido de redes sociais (22%) e, empatados em 21%, a pressão da família ou da comunidade para fazer algo que não quer e não poder viver de acordo com quem se é de verdade.
O estudo completo pode ser lido em lab.thinkolga.com/esgotadas.
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