'Senti medo de ser julgada': por que existe resistência com quem redescobre a orientação sexual?
A cantora Day Limns se considerava lésbica e viu seu mundo virar de cabeça pra baixo ao redescobrir sua orientação sexual. Além dela, outras mulheres também passaram pelo mesmo: elas contaram sobre o medo de serem julgadas pelos outros, além do processo de aceitação. A Marie Claire, a psicóloga Angélica Glória disserta sobre a resistência que as pessoas, mesmo dentro da comunidade LGBTQIAPN+, podem ter com quem passar por essa experiência de redescoberta
Ao redescobrir sua orientação sexual, o mundo da cantora Day Limns virou de cabeça pra baixo. Ela, que era assumidamente lésbica, revelou ser pansexual recentemente e lembra dessa descoberta como “assustadora e estranha”: “Eu mesma tive dificuldade de aceitar que era uma verdade.”
O assunto veio à tona durante participação no Foquinha Entrevista. Por lá, a finalista do The Voice de 2017 contou que repensou seus conceitos depois que ficou solteira-- até então, seus únicos relacionamentos tinham sido com mulheres: "Comecei a falar muito com a minha terapeuta. Eu passei a entender que há uma parte de mim onde eu enxergo mulher como Deus… realmente existe essa questão de eu colocar mulheres em um pedestal.”
“Só que entendi também que as pessoas são tão interessantes e quando caiu por terra essa questão do gênero pra mim, a minha mente explodiu. Fui me entendendo muito mais como uma pessoa pansexual, que talvez expanda ali para todos os lados e não coloque uma barreira. Hoje eu me vejo como uma pessoa sem limitação", confessou.
À Marie Claire, a artista também contou que “bateu o medo da rejeição surgir de dentro de sua fanbase” depois de se assumir. “Imaginei que, assim como eu me estranhei, as pessoas também estranhariam”.
Depois dessa revelação, a artista chegou a receber críticas dos internautas, principalmente no X (antigo Twitter): “Uma galera falando que eu sou uma farsa. Pensei isso de mim primeiro, mas graças a Deus eu faço terapia e me descobri um ser humano único, em constante movimento e tá tudo maravilhosamente bem.”
“Acho interessante o debate e o gerar de discussão, que foi o que mais vi. Várias opiniões partindo de lugares e vivências diferentes”, completa ela, que também sofreu críticas de algumas pessoas da própria comunidade: “Me deixa triste. Não por mim, pessoalmente, porque já lidei com essas questões específicas… mas pela nossa comunidade de modo geral. Já sofremos retaliações de todos os lados, né?.”
'Não sabia lidar direito com o meu próprio desejo'
Day não é a única. Assim como a cantora, Caroline Bonis se considerava lésbica, mas se redescobriu como bissexual. “Eu tive relacionamentos héteros durante a minha adolescência, mas quando namorei a primeira mulher aos 18 anos, imediatamente vesti ‘a capa da lesbianidade’. A partir daí me relacionei apenas com mulheres”, lembra ela.
A situação mudou quando, aos 26 anos, conheceu um rapaz que, na época, era motorista de aplicativo: “Nos conhecemos durante uma corrida. Ele me encantou de uma forma que não soube explicar nem pra mim mesma. Ficamos um tempo juntos e então entendi que não era lésbica, eu apenas estava vivendo um momento que foi importante para me conhecer melhor.”
Para ela, o medo de ser julgada existiu logo no início, principalmente por receio de acharem que gostar de mulher era “só uma fase”. Isso, inclusive, foi a primeira coisa que passou em sua cabeça quando começou a ficar com esse homem. Dito e feito.
“Minha família disse ‘já sabia, é assim mesmo’ e que todo mundo fica confuso. Mas eu não estava confusa sobre a minha orientação, eu a estava redefinindo e esse processo era muito valoroso pra mim”.
A experiência de Giovanna Bonetti foi parecida. Para ela, essa redescoberta foi muito difícil e até “rolou uma crise de identidade bem complicada”. “Foram alguns anos me entendendo como lésbica e no processo de quebrar a heteronormatividade, então quando percebi que estava sentindo atração por homens, não sabia lidar direito com o meu próprio desejo”, diz.
Grande parte de sua dificuldade estava no medo do julgamento dos outros. “Como eu passei alguns anos levantando a bandeira da lesbianidade, senti muito medo de ser julgada por de uma hora pra outra aparecer com um homem ou gostar de um”.
‘Descoberta da sexualidade se dá através de uma série de fatores’
Para Angélica Glória, Mestre em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, as pessoas têm resistência a mudanças de maneira geral e a comunidade LGBTQIAPN+ não está isenta nisso. “Essa resistência ocorre porque existe um mito de que você descobre sua sexualidade na tenra infância e deve se manter nela para o resto da vida, o que não é verdade. A descoberta da sexualidade se dá através de uma série de fatores”, diz a Marie Claire.
“O que acontece é que não há uma homogeneidade dentro da comunidade LGBTQIAPN+, as pessoas têm dificuldade de compreender a experiência de pessoas de outros grupos das quais não fazem parte”.
Ela também cita que a tentativa de agrupar pessoas de sexualidades diferentes em uma comunidade apenas por não serem heterossexuais, apesar de ser necessária em alguns momentos, “acaba gerando muita frustração nos indivíduos-- uma vez que a expectativa que se coloca em mulheres de determinados grupos não será cumprida pelas de outros grupos”.
Sobre a redescoberta que muitas pessoas vivem, a psicóloga pontua que é possível que um indivíduo demore para entender a sua verdadeira sexualidade depois de muitos acontecimentos na vida, muita terapia, e dependendo do meio social que vive. “Os ‘rótulos’, ou nomear a sexualidade de alguém, costuma ser bastante necessário por muitos motivos, como validação da própria sexualidade, identificação com outras semelhantes, possibilidade de construção de autoestima positiva, lutas por direitos, entre outros motivos”.
“Em um mundo utópico, o ideal seria que a comunidade LGBTQIAPN+ acolhesse qualquer pessoa que não tem uma sexualidade heterossexual, bem como que esse acolhimento acontecesse pela sociedade de maneira geral. O acolhimento e a validação é fundamental para que as pessoas se sintam à vontade de expressar o seu desejo para além da heterossexualidade”, finaliza.