Por que mulheres negras dominam buscas no pornô, mas enfrentam limitações no sexo?
“Ebony”, categoria que identifica mulheres negras em sites de conteúdo adulto, é a 4ª categoria mais acessível no Brasil — o mesmo país em que elas lideram os índices de violência de gênero. Como esse contexto impacta a forma como os corpos delas são retratados na tela?
O Brasil é o sétimo país que mais consome pornografia no mundo, segundo relatório mais recente do Pornhub, maior site pornográfico do mundo. A categoria “Ebony” figura entre as mais procuradas: é a sexta no ranking global e a quarta entre as preferências brasileiras. O termo é usado para identificar mulheres negras em sites +18.
No entanto, o alcance não se traduz, necessariamente, em reconhecimento, proteção ou autonomia. E mais: reproduz estereótipos raciais, desigualdades e hipersexualizações que demarcam a vida delas no mundo real.
Na indústria pornográfica, pretas e pardas vivem um paradoxo bem semelhante ao das pessoas trans. Se por um lado os brasileiros amam vê-las transar, por outro, estão na linha de frente dos índices de violência e são descartadas para relações duradouras, por exemplo.
Os dados da violência desproporcional sofrida por elas reforçam isso. O 19º Anuário de Segurança Pública aponta que, dos 87.545 casos de estupro registrados no Brasil, 55,6% vitimaram mulheres negras. Elas também são 63,6% das vítimas dos feminicídio registrados em 2024.
Mulheres negras e estereótipos no pornô
O que cada pessoa deseja não é neutro. O que molda isso são as mesmas estruturas que influenciam a sociedade, a política e a cultura.
Em um artigo publicado em 2022, as advogadas e pesquisadoras Raisa D. Ribeiro e Lara Campos analisaram que, enquanto mulheres brancas são vistas como sedutoras e desejáveis, as negras são colocadas em postura subserviente ou ganham foco maior nos órgãos genitais. Em cenas inter-raciais, o sucesso está no uso de estereótipos sociais que “esquentam” a trama.
Um estudo de 2020 conduzido por Niki Fritz, professora da Universidade de Indiana, analisou mais de 1.700 cenas de pornô hétero. O que ela observou é que mulheres negras são mais alvo de agressões do que mulheres brancas em cena; enquanto homens negros são retratados como agressivos e demonstram menos intimidade com suas parceiras de cena (em comparação aos homens brancos).
A forma como o desejo é moldado nas telas segue a lógica de desumanização e subserviência, explica Ruth Gonçalves, publicitária e analista de estratégia para criadores de conteúdo adulto.
“No pornô, a mulher negra é, na maioria das vezes, a empregada, a enfermeira ou alguém em situação de servidão. Ela nunca é ‘só’ a gostosa. E é comum que seja desejada sob essa ótica do que é ‘proibido’”, diz.
A frase do escritor Gilberto Freyre (“Branca para casar, mulata para foder e preta para limpar”, no livro Casa-Grande & Senzala, de 1933) sintetiza o imaginário que perdura até os dias de hoje. Décadas depois, em 1988, a intelectual Lélia Gonzalez observou que a expressão virou “ditado popular” na sociedade brasileira — o que culminou, entre outras coisas, no estereótipo da “mulata”: mulheres quentes, insaciáveis e sempre disponíveis para sexo.
“Dentro do pornô, existe a ideia de que a mulher preta é forte e sempre aguenta mais, sobretudo as mais retintas”, aponta Afonso Bispo Jr., que é ator, palestrante e tem iniciativas que debatem negritude e saúde mental dentro do entretenimento adulto — ramo em que é conhecido como Nego Catra.
A atriz e criadora de conteúdo Fernanda Chocolate é uma das mais conhecidas dentro do ramo no Brasil. Ela soma mais de 249 milhões de visualizações no XVideos.
Fernanda conta que viveu essa situação, sobretudo quando começou a fazer cenas de sexo anal: “É uma área muito sensível do meu corpo, e preciso de tempo e posições específicas para começar. Já passei por momentos com atores sem noção, que tentavam empurrar de qualquer jeito. Disseram que eu ‘aguentava’ porque sou uma ‘potência’, ‘cavalona’. Eu aguento mesmo, e gosto, mas não é por isso que não sinto dor."
A questão aqui não está somente na encenação: fontes ouvidas por Marie Claire ao longo dos anos apontaram diversas vezes que, sem um plano de educação sexual robusto e interligado, a pornografia se torna a principal forma de educação sexual.
Paralelamente, há dados que demonstram que, além de serem os principais consumidores de pornô, homens têm acesso a isso desde a adolescência. Isso leva ao engano de que o sexo que se mostra no pornô é exatamente igual o da vida real — ou deveria ser.
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Por um erotismo sem estereótipos
Na percepção de Raquel Gonçalves, o espaço para atrizes negras é muito mais fechado, se comparado às atrizes brancas.
Enquanto pornstars brancas têm nome e sobrenome, as negras precisam se adaptar para deixar a raça e etnia evidente. Por exemplo, muitas têm “black”, “preta” ou “negra” nos nomes artísticos. Para que o vídeo tenha bons acessos, elas são empurradas a adotarem estereótipos raciais também nos títulos dos vídeos. Alguns exemplos encontrados pela reportagem são “Vadia negra”, “Criada negra submissa”, “Negra cavalona” ou “Acabando com a buceta da negona”.
Atualmente, não há mulheres negras entre as 10 atrizes e criadoras de conteúdo mais acessadas no Pornhub, XVideos e na plataforma Privacy. “O que percebo nas minhas pesquisas é que as criadoras de conteúdo adulto negras não têm muito espaço. Elas são lembradas mais na busca por conteúdos com gringos ou inter-racial. Os homens negros conseguem algum destaque, mas principalmente por conta da busca por pênis grandes”, diz Raquel.
Também há obstáculos para se manter na profissão. Por mais que sempre tenham aparecido na pornografia, atores e atrizes negros recebiam salários menores do que de colegas brancos. Além disso, Fernanda Chocolate narra que, no início da carreira, recebia um cachê muito inferior do que deveria ter aceitado, levando em conta os parceiros de cena e o tipo de sexo que ela faria.
Dos anos 2000 em diante, o cenário teve uma mudança leve, sobretudo com o surgimento das plataformas digitais (que catapultaram as camgirls, por exemplo) do pornô feminista e queer. Com mais mulheres, LGBTs e pessoas negras por trás das câmeras, houve avanços no set — consentimento explícito, negociações de limite, foco no prazer dos performers — que tendem a beneficiar pessoas negras pela redução de pressões típicas do mainstream.
Rechaçar a pornografia não é bem um caminho de resolução: sozinha, essa indústria movimenta cerca de US$ 100 bilhões anualmente.
O caminho talvez esteja em entender: que tipo de sexo mulheres negras estão fazendo na frente da câmera? E: conseguem enxergar seus desejos nas cenas em que o tesão delas deveria ser protagonistas?
Um ponto importante pode ser levar em consideração que erotismo é poder e fonte de informação. Foi o que escreveu a escritora e filósofa feminista Audre Lorde, em 1978. No artigo The Uses of the Erotic, ela escreve que, quando se desvia o olhar da importância do erotismo, as pessoas são reduzidas “ao pornográfico, ao abuso e ao absurdo”.
“Reconhecer o poder do erotismo em nossas vidas pode nos dar a energia para buscar uma mudança genuína em nosso mundo, em vez de simplesmente nos contentarmos com uma mudança de personagens no mesmo drama cansativo”, arrematou Lorde.
Fernanda, por exemplo, está num patamar mais confortável, em que consegue escolher com quem gravar e quais cenas fazer — o que só se tornou realidade depois que parou de trabalhar com produtoras. “Eu gosto do que faço, me sinto uma mulher foda e só escolho fazer o que me dá prazer. Agora, sou eu quem decide”, diz.