Diplomadas pelo "daddy": Por que universitárias buscam relacionamentos sugar para bancar os estudos?

Se para algumas o luxo é o objetivo, para muitas a meta é o diploma. Marie Claire ouviur três mulheres que contam por que o relacionamento sugar se tornou uma alternativa para se manter no ensino superior, e uma pesquisadora analisa o fenômeno

Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)


'Sem ele, eu não teria me formado': elas recorreram ao sugar daddy para pagar a faculdade (Imagem ilustrativa) Unsplash

A faculdade de psicologia sempre foi um sonho para Gabriela Félix, 24 anos, mas a falta de dinheiro para arcar com uma universidade foi, por muito tempo, um obstáculo. Ela conciliou um trabalho com seguro de vida e freelas como garçonete aos fins de semana, em que ganhava R$ 180 por um turno de 12 horas. Mas esses dias estão para trás: agora, Gabriela busca um sugar daddy para ajudá-la a bancar os estudos.

Em um aplicativo que conecta mulheres a homens ricos, geralmente mais velhos, para viver um relacionamento sugar, ela diz que uniu o útil ao agradável. Em dois meses de perfil ativo, tem matado a curiosidade de viver um tipo de relacionamento que sempre a intrigou e conseguiu chegar aos sonhados “mimos”, como são chamadas as recompensas.

"Saí com uma pessoa para conversar e ele me deu R$ 600 só pela companhia. Não tem comparação com o que vivia antes”, conta. “Sem contar os lugares que tenho visitado e para onde nunca pensei que iria, porque venho de uma família simples. É uma realidade totalmente diferente.”

🔎 Um relacionamento sugar é aquele em que uma mulher, geralmente mais jovem, se relaciona com um homem mais velho e financeiramente estabilizado que a recompensa pela companhia e tempo. São quantias de dinheiro disponibilizadas periodicamente (com valor acordado previamente). Presentes caros, viagens de luxo e jantares em restaurantes disputados são alguns dos outros atrativos. Os acordos podem ou não envolver sexo.

Não existem dados concretos que demonstrem a aderência desse tipo de relação no Brasil. Mas a demanda existe: por aqui, o site Meu Patrocínio é a maior plataforma de relacionamento sugar do Brasil, e conta com mais de 18 milhões de usuários. Antes dele existiu o SeekingArrengement, primeira plataforma sugar do mundo que hoje tem 52 milhões de usuários globais, segundo o site.

Melissa*, 49 anos, está dentro desta bolha desde os 18. Na época, o primeiro namorado, 50 anos mais velho que ela, arcou com os custos da formatura de sua primeira faculdade de publicidade. Há cinco anos, porém, retomou o desejo antigo de cursar veterinária. No total, foram três homens a ajudando. Exceto os últimos seis meses de curso, não pagou nada para estudar. "Conheci o primeiro num site e disse que queria alguém para ficar junto, mas também ajudar com a mensalidade. Ele topou. Gastava dinheiro só com meus estudos e minha saúde, com academia e dentista", diz.

"Se não fosse por ele, eu não teria me formado. Minha vida sempre foi muito difícil, pago aluguel, tenho minha mãe, com quem moro até hoje, para cuidar. São muitos gastos", continua.

Monalisa*, 30 anos, conta que o interesse em investir no futuro e na estabilidade financeira foram diferenciais para atrair candidatos. “Não adianta ela chegar pedindo R$ 500 e ficar por isso mesmo. Uma sugar baby tem que ter postura, mostrar que não é uma menininha qualquer querendo mixaria, mas que quer crescer. Quem dá o preço e manda na dinâmica toda somos nós. Principalmente quando a menina é mais nova, o daddy a vê como uma joia bruta que precisa ser lapidada para ser independente”, pensa.

Monalisa, que trabalha com vendas, estuda Tecnologia de Informações para incrementar a carreira. Toda mensalidade é paga pelo namorado que ela diz ser bilionário. O dinheiro pinga a cada 10 dias na conta, e ainda banca outras áreas da vida, como o aluguel.

“Quem não quer um cara mais velho que banque, traga segurança, leve num lugar legal, não vai me ver como um objeto e só me usar? Para mim, a proposta é perfeita. Quero ter alguém do lado que me agregue, seja me dando um emprego, suprindo necessidades ou me dando apoio. Minha obrigação em troca? O mínimo é respeito e fazer ele feliz”, diz.

Universitária e sugar baby: por que os “mimos” vão para a faculdade?

Thais Tiriba, Doutora em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS/USP), diz que esse tipo de acordo não é novo. A nomenclatura “sugar” é que é novidade. Em sua tese de doutorado, pesquisou, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), como essa dinâmica é vivida por estudantes universitárias na África do Sul.

“No meu trabalho, o campus aparece como um espaço em que faltas e instabilidades de recursos estruturam o cotidiano. Isso ajuda a entender por que algumas pessoas buscam apoio em redes variadas, inclusive em parcerias com homens mais velhos e/ou com mais recursos”, diz

No Brasil, o cenário é parecido. Nas últimas décadas, programas governamentais como o Programa Universidade para Todos (Prouni), o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), além da sanção da Lei de Cotas em 2012, conseguiram ampliar o acesso à universidade no Brasil de pessoas de baixa renda.

Mesmo assim, o custo continua sendo um dos principais impeditivos para ingresso e permanência no ensino superior — seja em instituição privada ou pública.

A cientista política Alice Assis de Figueiredo Roza, que analisou o perfil socioeconômico dos concluintes da graduação entre 2011 e 2019, detectou que por mais que esses direitos tenham servido como "incremento significativo do número de matrículas", a alta demanda, o número limitado de bolsas em instituições privadas e o fato de as universidades públicas representarem só 12% das instituições de ensino superior do país tornam o acesso ao diploma ainda restrito. Variáveis como situação de trabalho, dependência financeira, condição de moradia ou ser a principal fonte de renda da família são algumas dificuldades enfrentadas pelos alunos.

Para beneficiários do FIES, a taxa de endividados chegou a 59,3% em 2024, com média de déficit de R$ 46 mil por aluno (o maior nível desde a criação do programa), segundo dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) disponibilizados ao jornal Poder 360.

Nos anos 2010, Estados Unidos e Reino Unido enfrentaram um cenário similar. A alta nas dívidas de crédito estudantil, somada ao custo de vida encarecido, fez aumentar a incidência de estudantes em busca de sugar daddies para bancar os estudos. Uma reportagem da Vice norte-americana de 2020 apontou o mesmo fenômeno em países asiáticos como Filipinas, Indonésia e Malásia: foi a forma que mulheres asiáticas encontraram para driblar a instabilidade financeira e a falta de empregos na pandemia.

Por mais que a sacada esteja em viver os luxos reservados às sugar babies, o interesse também estava em conseguir arcar com despesas básicas, como alimentação, contas e aluguel. Segundo um estudo de 2022 conduzido pela socióloga espanhola Rocío Palomeque Recio.

Outro estudo, feito em 2025 na Universidade da Flórida, indicou que “incentivos monetários e pagamento da mensalidade da faculdade foram grandes influências em motivar a disponibilidade de engajar em mais serviços explícitos, como pegação ou sexo”.

“Em contextos de instabilidade, esse tipo de dinâmica pode ficar mais visível. A falta de recursos não é abstrata: ela reorganiza as escolhas, o horizonte de futuro e o custo de se manter, inclusive na universidade”, diz Tiriba. Isso não quer dizer, no entanto, que relações sugar são mais buscadas apenas em momentos de crise econômica. O que também está em jogo, segundo a pesquisadora, é a aspiração em melhorar de vida, consumo, mobilidade e reconhecimento.

“Não é apenas ‘precisar’, é também ‘não querer uma vida dura’, querer pertencer e circular com segurança e dignidade. As plataformas e a linguagem ‘sugar’ ajudam a dar forma e narrativa para coisas que já circulavam, mas sem necessariamente terem esse nome.”

Os dilemas do relacionamento sugar

O universo sugar é frequentemente visto com ressalvas: por envolver diferença de renda e idade, há uma noção de que este contexto poderia facilitar poder desigual dentro da reação, além de objetificação, exploração e dependência emocional.

Em um artigo de 2024, a ativista pelo fim da exploração e tráfico sexual Maria Elisa Escobar escreve que dinheiro e presentes são usados como uma ilusão de controle e consentimento. Para ela, o relacionamento sugar deixa mulheres mais vulneráveis a serem inseridas em contexto de prostituição e exploração sexual.

"A glamourização e normalização do sugar dating reforçam a noção de que mulheres são mercadorias, legitimam compensação como consentimento e aplaudem o senso de direito masculino aos corpos das mulheres", argumenta.

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Para Tiriba, essa leitura causa uma falsa simetria já que, em sociedades marcadas por desigualdades de gênero, qualquer relacionamento entre homens e mulheres são “risco em potencial”, seja nas dinâmicas sugar ou não.

“Muitas mulheres vivem realidades em que a autonomia material é limitada e em que a vida cotidiana pode envolver algum grau de dependência econômica. Os relacionamentos ‘sugar’, nesse sentido, só parecem deixar mais explícito um tipo de desigualdade que atravessa a intimidade de forma mais ampla”, pondera.

A pesquisadora continua: “A diferença é que, quando isso recebe o rótulo de ‘sugar’, entram moralizações específicas. Na pesquisa, o que procuro mostrar é como esses debates costumam recair sobre jovens mulheres adultas que buscam ascensão, melhorias e mais conforto, como se esse desejo fosse automaticamente suspeito. Isso se conecta a pânicos sexuais que aparecem em muitos lugares, em que a sexualidade feminina vira objeto de ansiedade pública, e a presença do dinheiro dispara leituras rápidas e acusatórias.”

Monalisa e Melissa dizem que a comparação entre universo sugar e prostituição não é justa. “Ao contrário de uma garota de programa, você tem um relacionamento duradouro como qualquer outro. Não é algo momentâneo e só. Ao meu ver, ser sugar é meramente uma busca por um homem provedor”, diz Melissa.

Para elas, o relacionamento que escolheram viver às proporciona liberdade sem cobranças e acesso a novas experiências. Muitos pretendentes, inclusive, são homens casados, o que quer dizer que a relação é de baixa manutenção. Na prática, significa que elas têm mais tempo para elas.

Tiriba diz que essa comparação mexe com noções do que um “relacionamento de verdade” significa: e a ideia é que seja um em que afeto e interesse andam separados. É esse tipo de contraste que abre margem para julgamentos a certas práticas.

“Quando há dinheiro e sexualidade no horizonte, muita gente corre para esse enquadramento e ele costuma vir carregado de medo, indignação e preocupação com reputação. O ponto é que, na vida real, vínculos afetivos podem envolver dinheiro, presentes, acesso a espaços, cuidado material e expectativas de reciprocidade de muitos tipos. Isso não equivale automaticamente a uma troca simples de ‘sexo por dinheiro’”, afirma.

Relacionamentos sugar já levaram Monalisa longe no passado. Há seis anos, quando mudou-se para Brasília, recorreu ao MeuPatrocínio muito mais para “fazer networking” do que namorar, imaginando que toparia com homens poderosos da cidade. Ela conta que pouco depois começou a se relacionar com o presidente de um órgão público, que a colocou para trabalhar como assessora por dois anos. “Não precisei ir para a cama com ele nem ir para um motel. Sem nem me conhecer melhor, ele quis fazer isso por mim”, diz.

“Para mim a graça está muito mais na conexão com o daddy. O resto é consequência”, diz Monalisa. “Isso sem contar que quando encontro meu atual namorado, ele me trata igual uma rainha: me leva para os melhores lugares e para uma das fazendas dele, que tem dez empregados preparando um belo jantar e os melhores vinhos à disposição. Ele me faz muito feliz.”

*Os nomes foram alterados a pedido das entrevistadas.

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