‘Adiei a gravidez por medo, porque não é comum ver um homem grávido. Hoje sou pai de menina’
Lucas Bernardo Alves, de 27 anos, deu à luz a Cecília em dezembro de 2024, mas adiou a paternidade por receio de como seria tratado. O carioca foi o primeiro do Rio de Janeiro a participar do Transgesta, programa do SUS que oferece acompanhamento para pessoas trans durante e após a gestação. Em depoimento a Marie Claire, Alves relata como tem sido a experiência
"Eu tinha vontade de ser pai, mas faltava coragem, pelo fato de não saber como seria tratado. Não é comum ver um homem grávido. Demorei para engravidar e deixei a vontade de lado por esse medo. Estou com meu marido há três anos. Ele me deu mais coragem, por ter outros filhos. A convivência com eles me fez ter essa vontade de ser pai. Anos atrás até cogitei ser atendido pelo sistema médico particular, mas aí veio a pandemia, o país virou um caos e desisti.
Em 2021, parei de tomar hormônios, porque não queria mais fazer o tratamento por conta própria. Tentei engravidar de novo, mas não consegui. Quando desisti da ideia, aconteceu.
Foi um susto quando soube que estava grávido. Fiquei sem reação. E veio todo o medo de novo, de como seria tratado, como as pessoas lidariam com isso, o que minha família diria. Mas, quando comecei a contar, foi muito diferente do que imaginava.
Fui muito acolhido pela minha família, por meus pais. Tive todo o apoio que achei que não teria.
Houve momentos em que pensei em abortar, porque era muito trabalho, estresse, ansiedade. Mas minha vontade falou mais alto. Hoje agradeço muito por ter tido essa coragem.
A única complicação que tive foi a asma. Tive muitas crises, principalmente no início, com 2, 3 meses. Tive uma das piores crises da vida, estava no PS quase todo dia. Fui numa maternidade e mal me examinaram. Disseram que estava bem, me deram dipirona e me dispensaram. Mas não conseguia respirar direito, sentia dores quando tossia. Estava muito mal e eles só me diziam para descansar. Isso foi me deixando preocupado com a bebê. Também sofri algumas quedas no trabalho, em um quiosque de Copacabana, porque é uma correria sem fim. Mas nada grave.
Comecei o pré-natal no posto de saúde perto da minha casa. Meu médico pedia um ultrassom mensalmente. Depois dos primeiros exames, fui encaminhada a uma maternidade. Na segunda vez lá, o médico entrou em contato comigo e contou do projeto Trangesta. Perguntou se me interessava participar, conversei com toda a equipe que ia me acompanhar. Seria o primeiro participante do Rio de Janeiro, teria todo o acompanhamento necessário e me tratariam de maneira normal, com o respeito que eu deveria ter em qualquer lugar.
A equipe do posto de saúde foi muito solícita comigo, mas em outros lugares o atendimento foi complicado. Usavam pronomes errados, perguntavam se aquele ali no RG era meu nome, mesmo sendo ratificado há 10 anos.
Comecei a ser acompanhado na maternidade da UFRJ por uma baita equipe, com quem mantenho contato até hoje. Foi quando comecei a me cuidar melhor. Cuidaram da minha asma e de outros problemas de saúde, como uma anemia que tenho há muitos anos. Tive todos os encaminhamentos que precisei para começar o tratamento hormonal agora de maneira certa, com acompanhamento. Vou voltar com as aplicações a partir do sexto mês da Cecilia, que é também quando volto a trabalhar e não vou mais amamentar.
Quis ter a experiência de amamentar e vou seguir por 6 meses. Nos três primeiros dias, foi mais doloroso, muito complicado. Meu leite só desceu a partir do terceiro dia. A Cecília nasceu muito pequenininha, não pegava direito, me machucou muito. Mas tive todo o suporte da equipe da maternidade, me ensinaram técnicas de pega e as melhores posições. Também fiz laserterapia para cicatrizar o mamilo. De la para cá tem sido bem tranquilo. Ela é bem gulosa.
O parto foi incrível, nunca imaginei que seria assim. Nem sei explicar. Estava muito tranquilo, confiante com a equipe. Tive todo o suporte que precisei, tanto na chegada para me internar até o momento da alta. Escolhi fazer um parto cesariano. Como sou asmático, fiquei com medo de ficar ansioso, acabar complicando, sofrendo. Achei que não ia aguentar.
Não convivi com nenhum outro menino que estava gestando. Sou amigo de uma mulher trans, que foi casada com um homem trans. Eles tiveram dois filhos. A gente sempre conversava, ela me dava dicas de como cuidar do neném, o que deveria evitar. Eu usava uma faixa nos seios para diminuir o volume, por exemplo, e ela me orientou a parar de usar se quisesse amamentar. Fomos trocando informações.
Eu era o único homem no meio de tantas gestantes. Sempre fui tímido com relação a isso. Você percebe o olhar das pessoas. No pré-natal, por exemplo, tem uma fila de pesagem. Deixava as mulheres passarem na frente e, quando tinha uma brecha, entrava. Tinha receio dos olhares. Ficava sem graça, mas isso foi passando.
Na visita à maternidade da UFRJ, conversei com uma gestante lá, que me acolheu e deu conselhos. Me fez sentir acolhido. Isso foi bem legal. Durante o pré-natal sempre ficava muito reservado. Ninguém nunca me destratou, só eram os olhares. Mas um pai gestar é incomum, então sempre entendi a curiosidade das pessoas.
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No começo não botei tanta barriga, esticou no final. Até uns 7 meses, muitas pessoas nem percebiam que estava grávido. Sempre trabalhei minha mente com relação ao meu corpo, mesmo antes da gravidez. Embora seja passável, nunca serei um homem cis. Tenho que aceitar meu corpo do jeito que ele é e adaptar da forma que quiser, mas não posso tentar ser algo que nunca serei. Meu corpo ia mudar. Quando começou, já estava preparado. Minha preocupação era só minha filha nascer com saúde. Tive muito acompanhamento psicológico também, com minha psiquiatra e com a equipe da maternidade.
O começo do puerpério foi mais complicado, agora já peguei o jeito. Ela é muito boazinha. Não chora à toa, sempre acho o motivo do choro rapidamente. Ela mama e dorme perfeitamente. Na primeira semana, fiquei 4 dias com ela sozinho porque meu esposo teve que viajar. Minha mãe não podia vir ficar comigo, então me virei sozinho, cheio de pontos.
Sou um ótimo pai hoje, mas minha preocupação é ser um bom pai a partir do momento em que ela começar a entender e questionar o mundo. Quero ser o melhor pai possível, estou sofrendo antecipadamente até.
Temos que seguir com nossos sonhos. Se você sonha em engravidar, engravide. Mas se resguarde. Se for planejado, procure conhecer lugares em que você será respeitado. Se não for planejado, exija seus direitos. A gente tem o direito de ser respeitado em qualquer lugar. Se for destratado, exija respeito. É o mínimo que devemos ter: um atendimento humanizado. Não temos que ter medo. O medo é o maior vilão do ser humano. Realize seus desejos, porque um dia a gente pode se arrepender.
A paternidade é a coisa mais incrível do mundo. Fui um adolescente complicado, aproveitei muito a vida. Nunca tive limites. Depois que fui pai, tudo mudou: a relação com minha família, comigo mesmo, com os outros. Descobri um amor que não sabia que poderia sentir por alguém. Uma preocupação com outro ser humano que nunca tive. Antes dela nascer, eu já a amava incondicionalmente. Quando nasceu, isso triplicou.
Você fica feliz com um sorriso banguela. Esses pequenos momentos fazem o seu dia melhor. Todo dia de manhã é uma felicidade só porque ela acorda animada. É muito surreal."