Coleção de muitas histórias
A nova casa de Vanessa da Mata, em São Paulo, tem móveis de design, obras de arte, telas pintadas por ela, música de qualidade e cheiro de bolo saindo do forno
Por Giulianna Campos
Depois de morar os últimos 15 anos no Rio de Janeiro, Vanessa da Mata decidiu trocar as ladeiras de Santa Teresa, onde vivia, por uma rua plana e sossegada na Zona Oeste paulistana. A decisão foi tomada depois que os três filhos Felipe, de 21 anos, Micael, de 19, e Bianca, de 18, que moravam com o pai e ex-marido da cantora, Geraldo Pestalozzi, na Suíça, voltaram ao Brasil. “Escolhi São Paulo para que pudessem focar nos estudos, já que a praia carioca acaba sendo uma grande distração para eles”, explica.
Durante quase um ano, Vanessa procurou incessantemente pelo imóvel ideal que abrigasse não só ela e os filhos, como os quatro cachorros – Clarice Lispector, Chiquinha Gonzaga, Tom Jobim e Ariano Suassuna – e todos os objetos, móveis e obras de arte que colecionou ao longo da vida.
“Enquanto isso, morávamos numa casinha de vila, que parecia de boneca, toda rococó. Foi a primeira que comprei, aos 17 anos, quando vim para São Paulo e ganhei um bom dinheiro com a música”, lembra ela, que é natural de Alto Garças, cidadezinha de 11 mil habitantes em Mato Grosso.
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A casa perfeita demorou a chegar, mas foi amor à primeira vista. “Quando entrei e vi a jabuticabeira na porta e o jardim exuberante nos fundos, já sabia que era minha”, conta. O imóvel, da década de 1950, pertencia ao famoso arquiteto e urbanista Flávio Villaça. Para não perder as características originais do projeto modernista, Vanessa fez pouca mudança: derrubou as paredes de alguns cômodos, no segundo andar, para integrar os ambientes.
A decoração com peças de design – “ainda não está totalmente do jeito que quero” – foi feita pela própria artista, que, além de cantora, compositora, escritora e empresária, ainda tem uma loja de móveis, a Mais é Mais, em Trancoso, na Bahia.
“Trouxe de lá um sofá de Sérgio Rodrigues, outro de Giuseppe Scapinelli, o famoso carrinho de chá de Jorge Zalszupin, assim como a mesa dele de centro Pétala e a de jantar Guanabara, com tampo taqueado de Jacarandá.”
Alguns quadros de pintores brasileiros importantes como Oscar Pereira da Silva, Pedro Alexandrino, José Pancetti, Reynaldo Fonseca, Iberê Camargo e Cícero Dias foram comprados no Rio de Janeiro. “Eu compro o combo e vai cabendo”, brinca. “Mas é porque tenho uma noção de estrutura de cenário, que já faço há anos, de tamanhos, cores. Dá um certo conforto criar essa imagem toda na cabeça, trazer para cá e saber que não vou errar.”
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Com uma rotina corrida de shows, Vanessa vive a casa de segunda a quinta-feira. “Preciso aproveitar cada cantinho, já que aos finais de semana não estou”, conta. Na cozinha, gosta de escrever – ela está trabalhando no segundo livro – enquanto toma café e come um bolo de laranja que acabou de sair do forno.
Na sala principal, recebe amigos. Na sala de TV, assiste a filmes com os filhos ou amontoa todos em cima de sua cama. “Eles adoram quando conto a história de quando chegaram.”
Foi em 2010, quando Vanessa visitava um abrigo para levar cobertores e brinquedos para crianças, em Alto Araguaia, Mato Grosso, que ela conheceu os três irmãos – então com 8, 6 e 5 anos, respectivamente. “Me apaixonei perdidamente”, lembra. O processo de adoção levou um ano. “E aí começou a festa toda.”
A maternidade tinha acabado de se tornar uma vontade. No auge de seu sucesso, aos 30 anos, entre shows e discos, a cantora até tentou engravidar, poucas vezes, mas sem sucesso. “Minha avó teve 20 filhos adotivos e sete de sangue. Meu pai é órfão de pai e mãe. Lá em casa, esse negócio de sangue, da coisa egocêntrica do ‘parece meu nariz, minha boca’, não tem importância”, pontua. “Eles precisavam de mãe, eu precisava de filhos, então juntamos as duas coisas”, orgulha-se.
Celebrando os 20 anos de carreira, Vanessa tem rodado o Brasil com a nova turnê Vem Doce, espetáculo dirigido por Jorge Farjalla e inspirado pelo álbum homônimo, composto por 13 músicas de sua autoria. Seu primeiro romance, A Filha das Flores (Ed. Companhia das Letras, 280 págs., R$42), lançado em 2013, também adiciona literatura ao show.
“Essa coisa da escrita está inserida e fica muito claro nas apresentações. Tem muita gente que não sabe que sou eu quem escreve as músicas”, conta ela, que tem um processo de composição quase que instantâneo e instintivo.
“Como treinei muito, hoje em dia não tenho dificuldade em escrever uma canção. Geralmente, faço no carro, indo para o estúdio”, diz. "'Boa Sorte' [um de seus maiores sucessos] fiz no estúdio em cinco minutos”, revela.
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O mesmo acontece com suas pinturas. A habilidade com pincéis, telas e tintas foi descoberta durante a pandemia, enquanto Vanessa estava trancafiada na casa da mãe, no Centro-Oeste, onde nasceu. “Achei que ia explodir, então resolvi me expressar pintando. Varava noites fazendo quadros”, lembra ela, que se inspira em figuras femininas para desenhar.
Depois de apresentar as telas a duas amigas do meio da arte, que se apaixonaram, o hobby virou profissão. Uma sala de casa tornou-se seu ateliê e Vanessa já planeja uma exposição de suas obras.
Beleza: Juliana Vacaro com produtos NARS / Produção executiva: Vandeca Zimmermann