'Ser mãe solo e indígena não é fácil. Nós somos muito subestimadas'

Natália Lopes narra as dificuldades de ser mãe solo e indígena em uma cidade grande e reforça a luta pela valorização da natureza e dos povos indígenas por meio do seu trabalho

Por Juliana Picanço, Redação Marie Claire — São Paulo


Natália Lopes — Foto: Mariana Marão

Natália Lopes, 29, é fotógrafa, videomaker, produtora audiovisual e mãe de Luca, de 4 anos. Em depoimento da série "Mátria Brasil" de Marie Claire, ela reflete sobre os estereótipos em relação aos indígenas e conta como cria seu filho para ter orgulho de suas origens.

Eu sempre fui muito livre. Sou natural de Parintins, no Amazonas, e sempre viajei muito para fazer matérias, fotos. Sou fotógrafa, videomaker, produtora audiovisual e tenho um projeto chamado ‘Ancestralidade Visual’, em que busco fazer do audiovisual uma ferramenta de luta e resistência pelos povos originários povos tradicionais. Eu falo que a minha câmera é a minha flecha, e é com ela que eu luto ao lado dos meus parentes pelas terras, demarcações e melhorias em prol do bem viver.

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Quando engravidei, fiquei angustiada por achar que precisaria ficar parada um bom tempo. Fiquei um pouco assustada, porque, apesar de ser muito desejado, o Luca não foi planejado para aquele momento. Com o acolhimento da família do pai dele, já que estávamos juntos na época, que fui me fortalecendo e ficando mais tranquila. Mas às vezes sinto bastante culpa ao conciliar maternidade e a vida profissional. São dois trabalhos, sendo que um não é remunerado.

O fato de hoje eu ser mãe solo faz com que seja mais desafiador ainda, porque eu tenho que correr duas vezes mais para dar conta de tudo e proporcionar conforto e bem-estar para o meu filho, sem ter sempre uma ajuda. Muitas vezes, fomos só eu e ele. Eu me sentia culpada por não trabalhar e, quando fazia algum trabalho fora, ficava me sentindo culpada por não estar com ele.

Ser mãe indígena também não é fácil. Nós somos muito subestimadas, especialmente vindo do Amazonas. A gente vai quebrando os obstáculos, mostrando que a gente também é capaz, é só ter oportunidade. As pessoas têm aquela impressão de que elas vão na aldeia e vão ver as mães nuas, com o peito completamente de fora. Realmente, em muitos contextos é dessa forma, mas também existem outras realidades. Há indígenas que já vivem na cidade, precisam se adaptar, e as pessoas duvidam da origem deles por isso. Então, quando elas nos veem vestidos normalmente, perguntam se somos ‘indígenas de verdade’. Essa é uma frase que me pega muito, porque as pessoas não estão duvidando só do meu corpo, elas estão duvidando do meu espírito e da minha ancestralidade também.

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A minha inspiração vem das minhas ancestrais. Minha mãe veio quebrando alguns padrões dentro da nossa família, e, através da evolução dela, eu consigo evoluir com o Luca também. Transmito meus valores ao meu filho por meio das histórias e dos cantos. Crianças são como solos férteis, então tudo que você ensinar de positivo, elas vão aprender.

Natália Lopes — Foto: Mariana Marão

Eu quero que o meu filho entenda que ele pode ser o que quiser, sem perder as raízes dele. Na escolinha, chamam ele de Curumim. Mesmo que seja uma forma de diferenciá-lo dos outros, não acho que isso seja ruim. Só ressalta as origens dele e faz com que ele aprenda a lidar desde pequeno com essas questões. E é bonito ver que ele tem muito orgulho de onde veio. Poder levá-lo na minha terra para ele conhecer as minhas avós foi um dos momentos mais emocionantes para mim. Nós moramos no Amazonas por um tempo e voltamos para São Paulo no final do ano passado. Meu filho sentiu muita diferença. Tem uma canção que a avó dele fez para ele e ele pede para ela não cantar, porque ele fica com saudade de lá.

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A Natália antes de se tornar mãe era um pouco insegura e muitas vezes se deixava levar pelas opiniões dos outros. Depois que o Luca nasceu, é como se eu tivesse ganhado uma força gigante. Acho que isso vem muito do próprio processo do parto mesmo, do renascimento, da gente entender que é muito forte. Se eu fui capaz de trazer um ser humano para o mundo, eu consigo qualquer coisa.

Hoje eu espero colaborar, através da minha arte, com a valorização da natureza, dos povos indígenas e da sustentabilidade. Se a gente escutasse mais os povos indígenas, com certeza o mundo estaria ainda melhor — e é o que eu quero para o futuro do meu filho.

Mátria Brasil — Foto: Mariana Marão
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