Shirley Mallmann diz ser mãe liberal e feminista: 'É uma batalha criar meninos'
Uma das primeiras modelos brasileiras a desfilar para grifes internacionais, a vida de Shirley deu uma acalmada de dois anos para cá. O que lhe permite tirar antigos sonhos do papel. Em entrevista de capa para Marie Claire, ela fala sobre os novos planos, beleza, família e, claro, moda. 'Gosto de me montar, me faz bem. Mas depois guardo tudo no armário e só uso de novo dali a dois anos'
Por Roberta Malta
Shirley Mallmann nasceu em Santa Clara, cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul. Com 7 anos, já ajudava os pais na roça. Viveu assim até os 15, quando conseguiu um emprego de costureira numa fábrica de sapatos, a única que havia por lá. Aos 18, se mudou para São Paulo para tentar a carreira de modelo. Um ano depois, foi morar em Nova York e nunca mais voltou.
Uma das primeiras brasileiras a desfilar para grifes internacionais, ela abriu espaço para outras tops nacionais que vieram depois. Aos 45, com o filho mais velho na faculdade e o caçula na high school, se prepara para ocupar o tempo livre com novos projetos, períodos mais demorados com a família e, quem sabe?, a volta à sala de aula.
Mão na consciência
“Sou uma consumidora de moda consciente. Gosto de peças básicas de qualidade, mas também não fujo de um vestido incrível com um saltão. Sou aquela pessoa que gosta de se montar, me faz bem. Mas depois guardo tudo no armário e só uso de novo dali a dois anos.”
Xô estresse
“Depois que as academias reabriram, me deu a maior preguiça de voltar para aquela velha rotina de musculação, corrida, bicicleta. Aí uma amiga estava fazendo boxe e me chamou para fazer uma aula com ela. Achei que não era para mim, mas acabei indo. E amei, amei, amei. Porque você tem que prestar muita atenção nos movimentos para não se machucar. O pé, a mão, o quadril, tudo junto. Então é quase uma meditação. Você não pode parar de pensar, senão se machuca. E aí você vai deixando tudo ali naquele saco, o estresse, os pepinos. Falo para todo mundo: tanto faz a sua idade, tanto faz o que você faz da vida, tanto faz o seu tipo de corpo, seu físico. É a melhor academia que eu já fiz.”
Skincare descomplicado
“Não tenho muita paciência de passar mil cremes, um para cada coisa. Então lavo o rosto antes de dormir, passo um creme para a noite e de manhã uso um produto com filtro solar. Todos naturais, que hoje é uma preocupação minha. Aí tomo umas vitaminas, faço uns lasers de colágeno e aplico botox em um único ponto no meio da testa, onde tenho um risco muito fundo que atrapalha a maquiagem. Mas é só. Não injeto mais nada. Nunca operei, nunca fiz nada.”
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Novos horizontes
“A carreira da modelo tem essa coisa: os trabalhos vão diminuindo, você vai ter mais tempo, vai começar a fazer coisas pessoais, realizar sonhos antigos ou então voltar para a escola para estudar. Agora que o meu filho mais velho se mudou e o pequeno começou a high school [Axl está com 20 anos e Ziggy, com 14] eu tenho mais tempo para mim. Então, há uns dois anos minha vida está bem mais tranquila. Tenho mil ideias para realizar. Uma coisa relacionada ao fashion seria o mais óbvio e talvez o mais fácil. Mas também adoro renovar a casa, mudar a cozinha, abrir parede. Amo reforma, decoração. Enfim, as opções são muitas e agora que tenho tempo posso pensar, fazer uns cursos e ver o que gosto. A única certeza que tenho é que quero passar mais tempo com a minha família no Brasil.”
Filhos feministas
“É uma batalha criar meninos porque tem as influências externas. Os amigos, os Tik Tokers que eles assistem. Então às vezes parece que eu estou remando contra a maré. Mas falo sempre com eles sobre respeito à mulher, que é muito, muito, muito importante para mim. Eles não podem jamais achar que a escolha é deles em relação a qualquer coisa, e saber que a palavra da mulher é tão forte ou mais do que a deles. Uma vez, meu filho estava em casa com uma menina e cinco meninos, todos sentados no sofá. Estavam conversando e escutei um deles dizendo algo tipo: ‘Essa aí dorme com todo mundo’. Entrei na sala furiosa. ‘O que você está falando? Você está na minha casa. Respeite as mulheres. Ela pode fazer o que quiser. Você não tem esse direito!’ Eles levantaram do sofá quietinhos e foram cada um para um canto. Sou conhecida como a mãe liberal, feminista.”
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Casa cheia
“Aqui em casa tem sempre um monte de gente. Antes eram os amigos do Axl e agora, que ele foi para a faculdade, são os do Ziggy. Fui criada assim, meus amigos são os amigos dos meus pais e tento trazer isso para a minha casa. Também porque, como criança e adolescente, eu adorava aquele clima. E eles preferiam porque podiam ver quem era quem, e sabiam que ali eu estava segura. É isso que penso aqui hoje. Prefiro eles aqui comigo, porque sei que eles estão bem.”
Comfort food
“Quando venho ao Brasil, como tudo: pastel de feira, churrasco, pão de queijo, feijoada, as frutas que só tem aqui. Pão francês eu amo. No dia das fotos [desta reportagem] comi três. Minha mãe faz salada de batata, cuca, frita linguiça... Volto para casa com a mala cheia de comida e chimarrão.”
Beleza: Liege Wisniewski (GrouPart Mgt) com produtos: Chanel Beauty/ Produção executiva: Vandeca Zimmermann/ Produção de moda: Felippe Schiavelli/ Set designer: Ana Arietti/ Produtor de objetos: Gabriel Guizani /Assistente set designer: Kilter Paz/ Assistente de moda: Marco Antônio/ Assistente beleza: Letícia Waechter/ Assistentes de fotografia : Adrian Ikematsu, Renato Machado, Rodrigo Oliveira/ Manicure: Claudia Vitória/ tratamento de imagem: Philipe Mortosa (Thinkers Mgmt)