Paola Vilas celebra 10 anos de marca e lança coleção 'Naoshima'
Em sua nova coleção, a designer carioca dialoga com as obras de Tadao Ando e Yayoi Kusama, transformando vivências em esculturas vestíveis que investigam a luz e o corpo
Desde a fundação de sua marca, Paola Vilas estabeleceu um vocabulário neo-surrealista onde a joia deixa de ser adorno para ocupar o status de escultura vestível. Ao completar dez anos de história, a etiqueta reafirma seu posicionamento como um laboratório de experimentações autorais, consolidando uma assinatura que funde conceitos artísticos, rigor arquitetônico e a potência do feminino como pilar criativo.
Este aniversário coincide com um momento de maturidade institucional e criativa. Em 2025, a marca realizou uma parceria inédita com o Instituto Bardi, tornando Paola Vilas a primeira designer a traduzir o legado de Lina Bo Bardi para o universo das joias. O exercício de reinterpretar ícones da arquitetura moderna brasileira serviu de prelúdio para o lançamento de "Naoshima", nova coleção que mergulha nas vivências da designer na ilha japonesa de mesmo nome. Se o diálogo com Lina Bo Bardi explorou a liberdade das formas coletivas, Naoshima investiga a relação entre o corpo, a luz e a natureza bruta.
"É preciso manter-se permeável, disposta a ser atravessada por experiências que nos conduzem a um lugar interior sagrado. A arte, a arquitetura e a natureza têm esse poder: o de despertar em nós uma dimensão que já existe, mas que o cotidiano frequentemente silencia. Esta coleção nasceu dessa escuta. Do encontro com o sagrado, da transformação do olhar, da luz, da fluidez do mar, do silêncio e das marcas sutis que essas experiências imprimem no corpo, numa imersão vivida na ilha de Naoshima.”
A coleção é dividida em famílias de peças que funcionam como registros sensoriais de experiências que a designer carioca teve na ilha. Em "Portal", Paola Vilas usa ágatas negras como base para peças que trazem esculturas de corpos femininos. A inspiração surge da obra Backside of the Moon, de James Turrell, onde a percepção humana é testada em um espaço de escuridão absoluta. Em suas instalações, raios emergem por trás das figuras de metal, sugerindo que a luz é uma construção interna, e não um elemento externo. Para traduzir o conceito por meio das joias, Paola apostou em esmeraldas no topo dos brincos e em um modelo de anel giratório, que representa a transição entre luz e sombra.
A influência do arquiteto Tadao Ando, figura central na paisagem de Naoshima, aparece no anel da famlia "Relevo", formado por linhas retas e traços geométricos. Já em "Cosmo", a joalheira estabelece um diálogo com Yayoi Kusama, elegendo pérolas negras e brancas para simbolizar as bolinhas, um dos principais símbolos do trabalho da artista japonesa, dispostas de forma propositalmente irregular.
Na família "Nami", o uso de ágatas negras e rocha feldspato em tom bege rosado ocupam os vãos moldados no ouro, criando pontos de tensão entre densidade e suavidade, opacidade e luz. A ideia é que, a partir do contato com a luz, o espaço e o movimento do corpo, a peça nunca pareça a mesma. Nas palavras de Paola Vilas, "assim como o mar, ela responde ao entorno".