Quem me viu e quem me vê
A atriz e roteirista Maria Bopp estreia sua coluna em Marie Claire e reflete que não é mais "aquela menina"
Não quero soar exagerada, mas minha avó foi uma das mulheres mais bonitas que andou sobre a Terra. Podia ser só pelos olhos azuis e o sorriso largo, mas sua simpatia e facilidade desconcertante de fazer amigos só a tornavam ainda mais magnética. Minha bisavó bem que dizia: “A Maria Elvira é colorida”, e isso é evidente até nas fotos em preto e branco.
Não foi a velhice que tirou isso dela. Mesmo depois dos 70 anos, minha avó continuava linda. O que lhe passou uma rasteira foi o Parkinson. As dificuldades motoras não vieram sozinhas; trouxeram consigo a vergonha. Aos poucos, vi minha avó se isolando e abrindo mão do que mais amava: as aulas de coral, os campeonatos de vôlei, a mesa cheia de visitas. Ouvia ela inventando desculpas ao telefone: “Dei um mau jeito nas costas, acredita?” Ela não queria que ninguém soubesse o que tinha.
Durante muito tempo, atribuí isso à vaidade e lamentei que minha avó fosse refém da mulher que havia sido. Até o dia em que a família a convenceu a ir ao casamento de uma sobrinha querida na sua cidade natal, que ela não visitava havia anos. Ela chegou à cerimônia belíssima, em uma cadeira de rodas, de terno turquesa e maquiagem feita por mim. Quando passamos por um senhor, eu o ouvi cochichando: “Maria Elvira, quem te viu e quem te vê…”. Aquilo me derrubou. Ali eu entendi que talvez minha avó não estivesse se escondendo do mundo, mas se protegendo dele.
Dos meus 24 aos 28 anos, vivi a Bruna Surfistinha em uma série. Foram quatro temporadas encarnando uma personagem muito sexualizada. Há um mês, a série chegou a um famoso streaming e trouxe novos espectadores que agora me conhecem por aquela versão jovem, sexy e desinibida. Eu mesma me surpreendi com uma constatação óbvia: não sou mais aquela menina.
Viver da própria imagem exige um equilíbrio delicado: você precisa ser vista, mas não pode se deixar reduzir ao olhar dos outros. E me parece que o desfecho será sempre o mesmo para mulheres que envelhecem: um comentário ultrajado de “nossa, o que aconteceu com ela?!” É o eco moderno daquele “quem te viu e quem te vê”.
Ao tempo, peço um favor: quero viajar ao passado pra convencer a minha avó a contar a verdade às amigas, pra que ela tenha uma velhice menos solitária e aproveite a piscina do clube em toda a sua glória. Dou um pulo naquela festa e devolvo o constrangimento àquele homem (horroroso, por sinal). Depois, viajaria ao futuro para lembrar a uma versão ainda desconhecida de mim que a beleza não pode vir antes do que realmente nos mantém de pé: a curiosidade, o humor, nossos vínculos e ideais.
Esse último aviso é também para a Maria de hoje – e para todas as mulheres do meu presente.