'Quero aprender a ser mãe de novo': mulher relata luta após perder 5 anos de memória em acidente e esquecer do filho

Após um acidente que a fez perder a memória dos últimos cinco anos de sua vida, Débora Oliveira enfrenta desafios emocionais e psicológicos enquanto tenta se reconectar com sua família. A Marie Claire, ela conta como sua recuperação tem sido um processo de redescoberta, em que tenta reconstruir sua identidade e aprender a lidar com o trauma e as dificuldades do dia a dia

Por
Bruna Liu
, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)


Débora Oliveia perdeu a memória de seus últimos 5 anos de vida Arquivo Pessoal

A vida de Débora Oliveira virou de cabeça para baixo depois do acidente que sofreu em novembro de 2024. A jovem já convivia com crises de desmaios constantes, mas, dessa vez, bateu a cabeça no chão de casa e perdeu a consciência por um curto período de tempo. Ao recobrar a consciência, não reconheceu o próprio namorado, nem mesmo o filho de 4 anos.

Depois da queda, ela foi levada para o ambulatório mais próximo de onde mora, em Natal. Porém, rapidamente a encaminharam para o Hospital Walfredo Gurgel, o maior hospital de traumas do Rio Grande do Norte.

“Cheguei acordada, mas estava bem aérea, não entendia nada do que estava acontecendo. Lá, eu desmaiei de novo, depois acordei e foi um processo até voltar ao normal”, conta, em entrevista a Marie Claire.

Ao despertar, a confusão continuou quando não conseguiu identificar que as pessoas com ela eram de sua família. “Meu filho me chamava de mãe e eu ficava pensando ‘acho que estou doida, estou sonhando’.”

Por conta da situação, ela chegou a fazer um exame no hospital e o resultado indicou apenas uma pequena inflamação. “Não houve trauma grave, nem rachadura [na cabeça]. O médico explicou que a perda de memória ocorreu por causa do impacto no cérebro, ele se chocou e foi isso que a ocasionou.

"Como lá tratam de questões muito graves, quando viram no primeiro exame que não havia sangramento no cérebro, eles fizeram o possível para me liberar, porque naquele setor, de trauma, sempre chega e sai gente baleada, sem perna, sem braço, o tempo inteiro. Me liberaram na manhã seguinte e depois fiz outros exames para ver o que mais estava acontecendo."

Último aniversário de Débora antes do acidente — Foto: Arquivo Pessoal

A jovem de 21 anos afirma que os desmaios eram recorrentes, mas nunca tinha investigado a causa. “Essa foi a vez que aconteceu de eu bater a cabeça e realmente me machucar. A ressonância não mostrou nada de anormal, mas o eletroencefalograma deu algumas alterações, principalmente nas áreas do cérebro que foram mais afetadas pela falta de estímulo.”

Por enquanto, Débora tem passado no psicólogo e faz tratamento com remédios anticonvulsivos, para o caso de outra crise acontecer. “O médico vai explicar melhor no meu retorno, mas por enquanto, estou tentando me adaptar ao tratamento. A terapia tem sido muito boa para mim, porque posso desabafar e tirar um pouco da carga emocional que tenho carregado.”

"As crises diminuíram, mas ainda tenho algumas. Elas fazem com que eu perca a coordenação motora. Às vezes eu fico sem conseguir falar por um tempo e perco a memória [mais recente] também. Os médicos acreditam que eu tenho epilepsia, que já não foi diagnosticada há um bom tempo. E se agravou depois do acidente."

"Você começa tudo do zero"

Depois que bateu a cabeça no chão, Débora perdeu as memórias dos seus últimos cinco anos de vida. É por isso que não se lembrava do namorado, com quem está há um ano e meio, e do filho de 4 anos.

Para ela, o mais difícil em toda a situação é “se reconhecer novamente”. “As pessoas olham para você e dizem: ‘Você gosta disso!’ Eu falo: ‘Não, eu não gosto’. Dizem que eu sou ‘uma ótima mãe’, e eu digo: ‘Mas eu não sei como ser mãe’. É complicado olhar no espelho e ver que você está diferente. Ver que sua aparência mudou, que você está mais cansada, e que tem problemas de saúde que não tinha antes.

“É cansativo lidar com a rotina também, porque, mesmo antes do acidente, eu já tinha uma rotina muito difícil. Aos 16 anos tinha acabado de descobrir que estava grávida e minha situação financeira não era boa”, completa.

Clique de Débora antes de perder a memória — Foto: Arquivo Pessoal

No começo, não foi fácil até de se reconhecer em suas roupas atuais, tanto que ela nem queria usá-las. “Tem aquela parte muito romantizada que aparece em filmes, né? A chance de fazer tudo de novo, de não errar. Mas como você vai acertar se não lembra dos seus erros? Como vai se apaixonar de novo se perdeu o sentimento por alguém? Você começa tudo do zero, basicamente”, reflete.

“Antes do acidente eu já não lembrava de nada da minha infância. Isso, somado a tantos traumas que vivi, me fizeram perder muito de quem eu era antes. Eu mudei, tive que aprender a sobreviver de novo, a ser mais esperta, a saber em quem confiar. Agora, se alguém inventar uma história sobre mim, eu não vou saber se é verdade ou não.”

Psicologicamente, tem sido complicado lidar com a “bagunça mental” e a insônia. “Minha cabeça não para. Eu já tenho TDAH diagnosticado, então minha mente nunca descansa. É como se você tivesse 24 horas tentando lembrar do que aconteceu, sempre com aquela sensação de não conseguir organizar os pensamentos”.

Rede de apoio

O namorado de Débora foi um dos afetados pela perda de memória da jovem, por terem começado o relacionamento durante os anos que se perderam em suas lembranças. “Ele foi uma das pessoas que eu esqueci. Foi muito difícil, porque foi com ele que minha vida começou a melhorar. Era o meu primeiro relacionamento saudável. Mas ficou no meio disso, nas memórias que perdi”, lamenta.

O rapaz fez de tudo para reconquistá-la, um dia de cada vez. “Ele teve todo o cuidado para não se aproximar demais, não pular etapas. Fez tudo de novo, me levando a lugares que eu gostava, me apresentando músicas. Tenho uma conexão muito forte com a música, então ele dizia: ‘Essa é a sua preferida’, e eu chorava, sentia, mesmo sem lembrar”.

“É interessante, porque eu sinto familiaridade com ele. Quando chego perto, é como se já o conhecesse. Meu filho, por exemplo, não demorou nem uma semana para eu me reconectar. Já com o meu namorado, levou mais tempo. Mas nossa relação hoje está bem tranquila”.

Nos “anos perdidos” de Débora, a jovem trabalhou em vários lugares e fez faculdade de pedagogia. O problema é que toda essa experiência também se foi. “Antes da pandemia, trabalhei com bolos para festas, depois trabalhei como chefe de cozinha e também em RH. Perdi tudo. Não sabia mais cortar uma cebola, não sabia pegar uma faca. Isso me deixou louca, porque fiquei pensando: ‘O que vou fazer agora? Como vou ganhar dinheiro?’"

Apesar dos contratempos, ela contou bastante com o apoio de seus familiares, do namorado e da família dele para poder dar conta de tudo. “São muitos exames para fazer, muitas coisas para resolver. É difícil trabalhar assim, e eu pensava: 'Caramba, vou ter que começar do zero de novo'.”

Por conta de sua condição, a jovem começou a investir no TikTok como forma de “álbum de memórias”. “Era mais para desabafar mesmo, lembrar das coisas, porque comecei a ter crises convulsivas. Numa dessas, perco a memória [recente] às vezes, e se ela não voltar, o que vai ser o meu registro? Lá, posto minha rotina, o que faço, o que aprendo, o que descubro.”

Selfie de Débora mais atual, depois de acontecer o acidente — Foto: Arquivo Pessoal

Se tornando mãe de repente

Quanto ao seu filho, o susto foi grande por ter que se tornar mãe “do dia para noite”. “Lembro que, no hospital, quando comecei a voltar à consciência, olhei para minha barriga e perguntei: ‘Cadê o meu filho?’ Porque eu me lembrava de estar grávida, mas não sabia que ele já estava com 4 anos. E aí minha mãe me explicou. Foi um choque, difícil associar tudo.”

“Às vezes, ele fica me chamando e eu, com aquele vazio na cabeça, pensando: ‘Sim, sou eu.’ Mas eu já o criei, né? O conforto é que fiz isso mesmo antes do acidente. Ele é uma criança incrível, muito inteligente. Ele me entende, me fala: “Ah, você não lembra daquela música? Tudo bem, vamos criar novas memórias.”

O que mais dói para Débora é não lembrar dos primeiros momentos com o pequeno, como os primeiros passos ou as primeiras palavras. “Não lembro da primeira vez que ele me chamou de mãe, nem dos passeios que fizemos. Às vezes vejo vídeos dele menorzinho e fico muito triste por não conseguir lembrar daqueles momentos. Mas eu tento não entrar nesse loop de pensamentos, porque sei que isso pode me causar uma crise. Então, sempre tento focar nas coisas boas que tenho agora.”

"Estou aprendendo a lidar com tudo isso"

Dentre os acontecimentos mundiais que ela não se recorda está a pandemia. “Quando pesquiso sobre isso, fico louca, então evito, mas sei o que aconteceu. Uma coisa que me deixou bem chocada também foi a morte de alguns cantores. A Marília Mendonça, por exemplo, eu lembro dela viva, fazendo muito sucesso.”

“Lembro da minha mãe grávida junto comigo, mas a filha dela morreu quando nasceu e esse foi outro acontecimento que 'descobri'. Então, quando acordei no hospital e a questionei sobre isso, ela fez uma expressão estranha. Foi um processo de luto que eu vivi de novo.”

Para o futuro, Débora espera conseguir refazer os vínculos que perdeu com as pessoas que ama: “Quero aprender a ser mãe de novo e amar meu filho da forma que ele merece. Conforme o tempo passa, estou aprendendo a lidar com tudo isso.”

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