‘Ninguém quer admitir que a vida acaba’: ela quer que você perca o medo de falar da morte

A jornalista Camila Appel, criadora do Morte Sem Tabu, entremeia relato pessoal e investigações de 12 anos que vão da morte assistida ao mercado funerário. Tudo isso para questiona por que ainda tratamos o fim da vida como um fracasso traumático — enquanto lida com a velhice da própria mãe

Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)


Camila Appel, do blog Morte Sem tabu, fala de seu novo livro, Enquanto você está aqui Hudson Senna

Para a jornalista e roteirista Camila Appel, falar sobre morte não é mórbido. Na verdade, remete a afeto e naturalidade. “Claro que tenho medo da morte. Todo mundo tem, é natural”, diz a criadora do blog Morte Sem Tabu, da Folha de S.Paulo. Por mais que o fim da vida seja parte inerente da existência humana, o momento nunca parece ser propício para falar dele. Em seu novo livro, Enquanto você está aqui (ed. Fósforo, 176 págs., R$ 79,90), Appel estende os 12 anos de pesquisa no tema, percorrendo assuntos como morte assistida, suicídio e experiências de quase morte, além de discutir o mercado funerário e a medicina paliativa.

Mas o cerne é esmiuçar os processos da morte (biológicos, burocráticos e simbólicos) e buscar formas de manter a autonomia e o conforto do paciente, inclusive no estágio terminal. "Dá pra morrer sozinho, mas você precisa de apoio, de coletivo. A questão é que ninguém quer se deparar com a iminência da própria morte por meio da morte de outra pessoa. Ninguém é imortal, e nossa tendência é fugir."

Paralelamente, o livro é uma tentativa de se comunicar com a própria mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, de 84 anos, e dar conta do processo de envelhecimento dela — inclusive detalhando a ela seus planos para o velório, como: “Já sei quem vai ser o coveiro do seu enterro”.

Quando Appel passou pela adolescência, a mãe lhe escreveu um livro, Na palma da minha mão (ed. Globo, 1998), em que descrevia a relação conturbada com a filha, ao passo em que tentava falar como realmente se sentia.

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Camila Appel ao lado da mãe, a dramaturga Leilah Assumpção — Foto: Acervo pessoal

Agora, quem impulsionou Appel a escrever foi uma amiga, que, enquanto acompanhava a mãe — que morreria dali a alguns dias — no hospital, pediu recomendações de leitura para se preparar. Salvos os livros da médica Ana Cláudia Quintana Arantes, referência em envelhecimento, abordagem humanizada da morte e cuidados paliativos no Brasil, Appel ficou sem resposta. "Ela não queria ler sobre luto, mas sobre o que é acompanhar o momento final de uma vida. Ninguém escreve sobre isso, porque ninguém quer admitir que a vida acaba", diz. Decidiu que ela mesma escreveria.

No Brasil, o medo da morte também é cultural e dificulta o debate sobre autonomia no fim da vida. Em outras culturas, a relação é diferente. No México, a morte integra o ciclo da vida; no budismo e no hinduísmo, é renascimento; em certas tradições africanas, um retorno aos ancestrais. No Brasil, 73% da população não gosta de falar sobre morte, segundo dados de 2018 divulgados pelo Sincep (Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil).

Além de falar da mãe e dos casos que acompanhou como jornalista, Camila Appel também aborda lutos pessoais. Lembra, por exemplo, quando sua gata de 17 anos morreu se espreguiçando enquanto ela sentia a última batida de seu coração. Também precisou intervir para garantir uma morte mais confortável ao sogro, pedindo a retirada de sondas, máscara de oxigênio e das amarras que o prendiam à maca.

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Enquanto você está aqui, de Camila Appel, publicado pela editora Fósforo — Foto: Divulgação

“Fui tratada como louca, mas ele estava ali, cheio de apetrechos caros por ‘protocolo’. Parecia que ele era apenas um objeto”, diz. Para ela, a formação médica muitas vezes encara a morte como fracasso pessoal, o que dificulta reconhecer quando é hora de priorizar conforto e dignidade.

“Investir na capacitação humana pode ser um resgate às origens da medicina. A morte já foi tão natural que as pessoas morriam em casa.”

Falar abertamente sobre o tema, porém, também tem um lado luminoso.

“As pessoas me procuram para conversas profundas, em momentos delicados.” Para ela, o mais importante é ouvir sem julgamento. “Tem gente que me procura para dizer que a vida acabou porque perdeu um cachorro. Eu sei que a dor não se mede. Perder um cachorro pode ser como ver o mundo desabar.”

Pelo direito de escolher como e quando morrer

Países como Suíça, Holanda, Colômbia e Portugal estão entre os que legalizaram a eutanásia assistida nos últimos anos. O debate é visto como não prioritário no Brasil e enfrenta barreiras, inclusive religiosas. O que se tem hoje é o testamento vital, documento em que a pessoa estabelece diretrizes sobre o que se deve fazer com seu corpo. Pode ser registrado em cartório e anexado à ficha médica, com reconhecimento do CFM (Conselho Federal de Medicina). "Essa já poderia ser uma forma de honrar o que a pessoa quer que se faça depois da morte."

Para ilustrar a necessidade disso, Appel idealizou e dirigiu a série documental O testamento: O segredo de Anita Harley (Globoplay), que narra o caso da principal acionista das Casas Pernambucanas. Harley sofreu um AVC em 2016 e está em coma desde então. Mesmo assim, está no centro de uma complexa disputa por sua curatela e pela herança, avaliada em mais de R$ 1 bilhão. "Espero que a série levanta debates sobre quem pode falar por nós quando estamos numa situação dessas, inclusive pressionando a tramitação de projetos de lei no Congresso. Quem pode escolher coisas como se vai alimentar ou respirar artificialmente, se intuba ou não, se reanima o corpo ou deixa ele morrer naturalmente? Você pode escolher não sobreviver? E quem pode pedir para desligar as máquinas ou não?", questiona.

Escrever e pesquisar sobre morte não significa que Camila Appel não a tema. Sua visão particular sobre o que é a morte muda com frequência. As definições que mais a convencem são as palavras finais de Hamlet — “O resto é silêncio” — ou a definição do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, que descreveu a morte como um “silêncio mineral”.

“Gostaria de acreditar que existe vida após a morte, porque reconforta pensar que não vamos simplesmente desaparecer”, diz.

Camila Appel idealizou e dirigiu a série documental O testamento: O segredo de Anita Harley (Globoplay) — Foto: Reprodução/Globo
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