A menopausa está na moda. E isso diz muito sobre o nosso tempo
A ascensão de debates, pesquisas e produtos sobre o fim da vida reprodutiva revela a força de um mercado pujante e a urgência de romper silêncios, atualizar a ciência e dar às mulheres autonomia sobre seu corpo. São transformações que podem melhorar a qualidade de vida no climatério e mudar a forma como encaramos o envelhecer
A menopausa está na moda. Nos Estados Unidos, um dos livros mais festejados de 2024 foi De Quatro (Ed. Amarcord; 322 págs.; R$ 48,90), chamado por alguns de “romance da perimenopausa”. Na obra da artista e escritora Miranda July, a protagonista de 45 anos repensa desejo, casamento e autonomia, ajudando a empurrar o tema para o centro da cultura pop. No Brasil, também no ano passado, a apresentadora Fernanda Lima dedicou a primeira temporada do podcast Zen Vergonha ao assunto, tendência que segue em 2025 com a atriz Claudia Raia lotando teatros na comédia musical Cenas da Menopausa.
Mas esses são só três exemplos em que a arte e a comunicação captaram o zeitgeist de um ecossistema inteiro. Médicos influencers somam milhões de seguidores e multiplicam-se startups, conteúdos e toda sorte de produtos e serviços para a transição hormonal, de suplementos a cosméticos, de coaches a retiros.
A menopausa marca o fim natural da vida reprodutiva da mulher, definida pela ausência da menstruação por 12 meses consecutivos, e no Brasil mais comum entre os 48 e os 50 anos. O climatério é o período mais amplo que envolve essa transição, dos 40 aos 65. Dentro dele está a perimenopausa, fase em que surgem as primeiras manifestações de queda hormonal, como ciclos irregulares. Os sinais e sintomas variam, mas os mais comuns incluem ondas de calor, suores noturnos, alterações de sono, ressecamento vaginal, diminuição da libido, mudanças de humor, ganho de peso e dificuldade de concentração.
Uma combinação de fatores explica por que esse universo ganhou os holofotes. O primeiro é o tamanho do mercado consumidor. Segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 33 milhões de brasileiras entre 40 e 65 anos. Com o avanço da longevidade, boa parte delas vai viver um terço da vida na pós-menopausa.
Em outra frente, na quarta onda do feminismo, catapultada pelas redes sociais e por movimentos como o #MeToo, as mulheres não aceitam mais sofrer caladas e buscam um maior entendimento sobre seus corpos, em resposta a um retrospecto de alienação e silenciamento. Falar de fogachos, secura vaginal e névoa mental é romper um tabu.
Essa onda também repercute na ciência, alimentando uma corrente que busca diminuir o gap de gênero e ampliar o conhecimento sobre as mulheres, historicamente excluídas das pesquisas. O novo olhar abriu caminho para a ressurreição da terapia hormonal, que após anos de desconfiança voltou a ser indicada em diretrizes médicas com mais segurança. Antes disso, porém, a trajetória desse tratamento foi marcada por controvérsias e um estudo que caiu como uma bomba na medicina.
O florescimento e o enterro da terapia hormonal
Um ponto de virada aconteceu em 1966, quando o ginecologista norte-americano Robert A. Wilson lançou Feminine Forever, um livro que descrevia na capa a menopausa como “doença por falta de estrogênio” e propagava a terapia hormonal como passaporte para permanecer “feminina”. Uma reportagem de fôlego sobre menopausa assinada pela jornalista Susan Dominus no New York Times Magazine em 2023 revela que, em menos de uma década após a publicação da obra, o Premarin – uma mistura de estrogênios derivados da urina de éguas grávidas – tornou-se o quinto medicamento mais prescrito nos Estados Unidos. Décadas depois, veio à tona que o médico havia recebido financiamento da farmacêutica que comercializava o fármaco.
A terapia hormonal estava a pleno vapor quando, em 2002, veio o cataclisma. Um braço do Women’s Health Initiative (WHI), uma megapesquisa financiada pelo governo nos EUA, foi interrompido precocemente e anunciado com alarde. Segundo os pesquisadores, o uso de estrogênio e progestágeno em mulheres na pós-menopausa podia aumentar o risco de doença tromboembólica e câncer de mama.
O impacto foi imediato: em um ano, as prescrições despencaram e a terapia hormonal passou de solução amplamente recomendada a vilã da vez. Ocorre que o desenho do estudo tinha limitações fundamentais. A maioria das participantes já tinha mais de 60 anos, idade que, hoje se sabe, não é considerada ideal para iniciar o tratamento. Além disso, o aumento absoluto de risco observado de câncer de mama era pequeno, mas ganhou enorme repercussão na maneira como foi comunicada ao público.
Estudos posteriores corrigiram essas falhas metodológicas e mostraram que, para a maioria das mulheres abaixo dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a última menstruação, os benefícios da terapia hormonal superam os riscos. Ainda assim, o resultado foi uma geração inteira enfrentando sintomas debilitantes sem tratamento adequado.
“Uma medicina capaz de cuidar somente com a medicação fez com que muitas mulheres ficassem órfãs de algum cuidado adequado nessa fase, porque a questão não era parar de prescrever completamente, mas prescrever com cuidado”, aponta a ginecologista Halana Faria, mestra em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo e integrante do Instituto Feminista de Cuidado.
O cenário brasileiro
Mais de 20 anos depois, o estigma do WHI persiste. Um estudo publicado em 2025 na revista PLOS ONE mostrou que 29% das brasileiras entre 40 e 65 anos, com idade média de 50, usam terapia hormonal para o climatério.
+ Saúde: Mulheres têm o dobro de risco de Alzheimer. E a menopausa ajuda a explicar por quê
A pesquisa também revelou um cenário preocupante de desinformação: 93% das participantes disseram ter pouco ou nenhum conhecimento sobre o tratamento, quase 27% nunca tinham ouvido falar dele e 22% se declararam contrárias ao uso. Entre as que interromperam, os principais motivos foram medo de efeitos colaterais e contraindicações médicas.
“O conhecimento não chega até a mulher, que não foi preparada para esse momento, e quando busca assistência médica encontra um atendimento defasado e pouco preparado para acolher suas queixas”, lamenta o ginecologista Márcio Rodrigues, coordenador do Ambulatório de Climatério do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais e principal autor do estudo. “O que sobra é a internet, onde a informação chega de forma enviesada e inadequada.”
A ressurreição da terapia hormonal
Na ciência, no entanto, hoje há consenso de que a terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para sintomas como ondas de calor e secura vaginal. “É o remédio número um para fogachos e também ajuda na prevenção da perda óssea e da osteoporose”, atesta Lucia Costa Paiva, presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), coordenadora do Ambulatório de Menopausa da Unicamp e coautora do Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério 2024.
Segundo ela, a indicação deve sempre levar em conta sintomas, histórico e fatores de risco individuais: mulheres com útero, por exemplo, precisam combinar estrogênio com progesterona para prevenir o câncer de endométrio, enquanto aquelas sem o órgão podem usar apenas estrogênio.
O consenso atual não elimina os riscos – como o pequeno aumento de câncer de mama e de eventos tromboembólicos –, mas traz clareza sobre como equilibrá-los com os benefícios. “Para mulheres sem risco cardiovascular, a terapia é totalmente segura, e mesmo para aquelas que já tiveram algum evento pode ser usada com monitoramento e preferencialmente por via transdérmica”, explica a cardiologista Gláucia Maria Moraes de Oliveira, presidente do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O estrogênio exerce um papel protetor no metabolismo e no sistema cardiovascular, e sua queda abrupta eleva a prevalência de hipertensão, diabetes, gordura abdominal e aumento do colesterol. Seria de se imaginar, portanto, que o uso do hormônio poderia evitar eventos como infarto e acidente vascular cerebral, certo? Não diretamente.
“A terapia hormonal não serve para prevenção primária de doença cardiovascular”, explica Oliveira. “Acontece que, ao tratar sintomas como insônia, fogachos e alterações de humor, essa mulher ganha mais qualidade de vida e disposição para cuidar de si, fazer exercício, manter uma alimentação adequada e até preservar sua vida profissional, o que indiretamente impacta a saúde do coração”, diz ela, que coordenou uma força-tarefa de 46 médicos para publicar, em 2024, a Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa.
Outra premissa é que a terapia hormonal deve ser feita com cautela. Vivemos em uma época polarizada até para tratamentos médicos. De um, hormoniofóbicas que rejeitam da pílula anticoncepcional ao tratamento para a menopausa. Do outro, hormoniolovers que se arriscam em um universo de substâncias manipuladas em farmácia sem comprovação de eficácia e segurança. “A gente não deve manipular hormônios. Ponto. Essa é uma regra médica. O uso excessivo de suplementos, de chip da beleza e de hormônios bioidênticos manipulados traz muito risco à saúde das mulheres”, atesta Halana Faria.
Medicamentos seguros são submetidos a pesquisas rigorosas e à análise criteriosa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), garantindo que o consumidor tenha acesso a tratamentos que realmente fazem a diferença na qualidade de vida.
E quem não pode?
A ciência, porém, não recomenda a prescrição indiscriminada da terapia hormonal. Nesse sentido, o WHI teve seu papel. “Se não tivéssemos feito aqueles estudos, não teríamos evoluído para as formas de uso atuais, que são muito menos deletérias para a saúde cardiovascular das mulheres”, diz Oliveira.
O uso de hormônios para sintomas da menopausa tem contraindicações. Entre as principais estão pessoas com histórico pessoal (e não necessariamente familiar) de cânceres hormônio-dependentes, como a maior parte dos tumores malignos de mama, os de endométrio e alguns de ovário, assim como aquelas com episódios recentes de infarto e AVC. Para essas mulheres existem outras soluções, como fitoterápicos, antidepressivos e, em breve, dois remédios para fogacho que aguardam aprovação da Anvisa: o elinzanetant, cujo nome comercial é Lynkuet, da Bayer, e o fezolinetant, ou Veozah, da Astellas.
+ Saúde: Nova geração de remédios sem hormônio promete aliviar os fogachos da menopausa
O elinzanetant, por exemplo, atua no sistema nervoso central e age em um neurotransmissor chamado KNDy, relacionado às manifestações resultantes do desequilíbrio do centro termorregulador no cérebro, causado pela deficiência de estrogênio.
“Para aquelas que não querem ou não podem usar hormônio, pelo menos não precisam sofrer de insônia e fogachos. É um medicamento oral não hormonal que melhora muito os sintomas vasomotores moderados a severos da menopausa e, consequentemente, a qualidade de vida”, diz o ginecologista Eli Lakryc, vice-presidente da Área Médica da divisão Farmacêutica da Bayer no Brasil e na América Latina.
O caminho do meio
A menopausa não se resume à queda do estrogênio. Trata-se de um processo complexo que envolve mudanças físicas e psíquicas, mas também dimensões sociais, emocionais, econômicas e raciais. Como observa Halana Faria, “é algo que acontece com uma mulher ou com uma pessoa com útero que vive seus processos de envelhecimento, que, se tem filhos, vê os filhos saírem de casa, que tem uma sobrecarga de trabalho e uma sobrecarga mental exaustiva”.
Essa complexidade se agrava diante das desigualdades no acesso ao tratamento, especialmente para mulheres negras, que “têm menos acesso à terapia hormonal e, quando recebem a prescrição, tendem a não usar porque não foram bem informadas”, segundo a médica.
A terapia hormonal não é uma panaceia e, muito menos, a fonte da juventude, como algumas postagens nas redes sociais podem sugerir. Para quem pode, quer e precisa, ela pode ser um convite para um estilo de vida com mais autocuidado e saúde. Mas, numa sociedade capitalista, é comum encontrar soluções fáceis para problemas que precisam ser vividos.