Dor de cabeça afeta mais mulheres, mas nem sempre é ‘só estresse’: 7 perguntas sobre a condição
Oscilações hormonais, desidratação e privação de sono estão entre os fatores que podem desencadear crises. Saiba quando procurar ajuda
Por em colaboração para Marie Claire — de São Paulo (SP)
A dor de cabeça é uma das queixas de saúde mais comuns do mundo, e talvez uma das mais mal compreendidas. Dentre os vários tipos, o mais prevalente é a cefaleia tensional, que afeta mais da metade das mulheres no planeta, ante mais de um terço dos homens, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Outro tipo frequente é a enxaqueca, que atinge uma em cada sete pessoas no mundo e é três vezes mais comum no sexo feminino do que no masculino, também de acordo com a OMS.
A diferença entre os dois nem sempre é clara para quem sofre. Tampouco é simples saber quando tomar um analgésico e quando procurar um médico, por exemplo. Descubra as respostas para essas e outras cinco dúvidas comuns sobre a condição.
Qual é a diferença entre dor de cabeça e enxaqueca?
Cefaleia é o nome técnico para qualquer dor de cabeça, e ela se divide em dois grandes grupos. As primárias são aquelas em que a dor é a própria condição. É o caso da enxaqueca, da cefaleia tensional e da cefaleia em salvas.
Nas secundárias, a dor é sintoma de outro problema, como uma sinusite, uma infecção viral, um pico de pressão arterial ou, em casos mais graves, um sangramento cerebral.
A mais comum entre as primárias é a cefaleia tensional, caracterizada por pressão nos dois lados da cabeça, frequentemente descrita como uma tiara ou chapéu apertado. Já a enxaqueca é uma condição neurológica com componente genético. Ela provoca dor de moderada a intensa, geralmente em um lado da cabeça, acompanhada de náusea, vômito e sensibilidade à luz, a sons e a cheiros.
Algumas pessoas ainda experimentam a aura antes da crise, fenômeno que pode incluir alterações visuais, formigamento ou dificuldade para falar. Cada episódio dura entre 4 e 72 horas, e a frequência varia muito: há pessoas com menos de uma crise por mês e outros com episódios diários.
Por que a dor de cabeça é mais comum em mulheres?
A maioria das cefaleias é mais frequente no sexo feminino, e a principal explicação, acredita-se, está nas flutuações hormonais. As quedas naturais do estrogênio ao longo do ciclo menstrual, antes da menstruação e logo após a ovulação, funcionam como gatilho para crises, sobretudo de enxaqueca.
Essa relação começa na adolescência, com a primeira menstruação, e segue ao longo da vida reprodutiva. Durante a gravidez, a estabilização dos hormônios costuma trazer alívio para a maioria das mulheres, efeito que se mantém enquanto amamentam.
Vale um cuidado específico: anticoncepcionais com estrogênio não são recomendados para quem tem enxaqueca com aura, sob o risco de complicações como o acidente vascular cerebral (AVC). Nesses casos, métodos à base de progesterona são mais seguros.
Quais são os gatilhos mais comuns?
Privação de sono, jejum e estresse estão entre os gatilhos mais frequentes para a maioria das cefaleias primárias. Para a enxaqueca, o período pré-menstrual é um fator relevante, assim como sensibilidade a perfumes e odores fortes.
A desidratação é outro gatilho que pode passar despercebido. “Já ouvi de paciente: se eu tivesse sabido disso 20 anos atrás, talvez tivesse sofrido menos na vida”, diz a neurologista Renata Londero, coordenadora do Departamento Científico de Cefaleia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). No verão, a combinação de calor e maior risco de desidratação tende a piorar o quadro de quem tem enxaqueca.
Alimentação pode desencadear crises?
Durante anos, circularam listas de alimentos proibidos para quem tem enxaqueca, como o chocolate. Hoje, a literatura é mais cautelosa. Estudos recentes sugerem que, na verdade, o desejo pelo doce pode ser um sintoma precoce da crise, que começa no cérebro horas antes da dor.
“Vinho tinto, glutamato monossódico e queijos de maturação longa ainda são considerados potenciais gatilhos, mas a resposta é individual”, afirma a médica. A recomendação da neurologista é usar um diário de dor de cabeça, em papel ou por aplicativo, para identificar seus próprios padrões, em vez de se privar de uma lista genérica de alimentos.
A dor de cabeça pode indicar algo mais grave? Quais são os sinais de alerta?
Na maioria dos casos, a cefaleia não indica algo grave. Ainda assim, existem situações que exigem atenção imediata. Segundo Londero, uma dor de início súbito que atinge intensidade fortíssima em menos de um minuto, conhecida como cefaleia em trovoada, pode sinalizar um sangramento cerebral.
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Já dores acompanhadas de paralisia, alteração de fala ou dificuldade para caminhar podem indicar lesões no cérebro, como tumores, infecções ou hemorragias. Quando o sintoma surge pela primeira vez após os 50 anos, uma das hipóteses é a arterite temporal, uma doença inflamatória que afeta vasos sanguíneos da cabeça.
Em pessoas com histórico de câncer ou HIV, uma nova cefaleia também merece atenção porque pode estar relacionada a metástases cerebrais ou infecções no sistema nervoso. “Nesses casos, a pessoa deveria procurar um médico com urgência”, afirma a especialista.
Quando devo procurar ajuda médica?
A Sociedade Brasileira de Cefaleia recomenda procurar avaliação médica quando a dor de cabeça acontece três ou mais vezes por mês de forma recorrente. Segundo Londero, muitas pessoas se acostumam a tratar apenas as crises e deixam de investigar a doença por trás delas. “Existe a ideia de que a pessoa tomou um analgésico e tratou a dor de cabeça. Na verdade, ela resolveu aquela crise, mas não o problema”, afirma.
Em quadros frequentes, sobretudo de enxaqueca, o tratamento costuma envolver estratégias preventivas para reduzir a frequência e a intensidade das crises.
Por que não devo tomar analgésico por conta própria?
Usar analgésico até três vezes por mês, em geral, não traz riscos maiores, de acordo com a neurologista. O problema começa quando o uso se torna frequente. Anti-inflamatórios em excesso podem causar danos aos rins e ao estômago. Já os triptanos, medicamentos específicos para enxaqueca, têm limite mensal de uso por risco cardiovascular.
Além disso, o uso repetido de remédios para dor pode alterar o limiar de dor do cérebro e criar um ciclo em que o próprio medicamento contribui para novas crises. Nesses casos, o mais indicado costuma ser a profilaxia, tratamento feito com medicações de uso diário, por pelo menos seis meses, para prevenir as crises antes que elas apareçam.
“Começar um preventivo requer um comprometimento com um tratamento”, diz Londero. A adesão, porém, ainda é um desafio. “Estudos mostram que mais da metade dos pacientes abandona os preventivos nos primeiros dois meses.”