Billie Eilish não está te enganando — e, francamente, bissexuais não devem nada a ninguém

Billie Eilish não ‘virou hétero’ ao começar a se relacionar com outro homem. Na verdade, é justamente na atração em mais de um gênero que forma a bissexualidade — mas parte da própria comunidade LGBTQIA+ parece (ou insiste em) não saber disso

Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)


Billie Eilish 'virou hétero'? Cantora recebeu comentários que invalidam bissexualidade ao aparecer aos beijos com ator Nat Wolff Getty Images

"Que humilhação.” “Jurava que ela era do vale.” “Um homem? Não era bissexual?” Tirei esses comentários de algumas dezenas de posts do Instagram que anunciavam a incrível notícia (ironia) de que Billie Eilish foi vista aos beijos com Nat Wolff. Os rumores apareceram com força depois do ator protagonizar o clipe de Chihiro, e parecem ter sido confirmados com flagras dos dois se beijando.

A notícia foi um soco no estômago para muitos fãs. Sintetizando muito bem, o tom das críticas eram: “Namorando com um homem justo um ano depois de lançar seu álbum mais queer, em que confirma ser bissexual? E bem no Mês do Orgulho LGBTQIA+? Que traição.”

Pasme, mas quem mais disse isso foi quem está no vale — ou seja, na comunidade. “Fui enganada”, escreveu, com um emoji de choro, uma mulher que se identifica na bio do Instagram como “lésbica futurista”.

Que a bissexualidade é invisibilizada não é novidade, mas está na hora de alguém apontar os holofotes para o nosso lado: o da comunidade em si. É claro que pessoas LGBTQIA+ não são algozes da estrutura cisheteronormativa e patriarcal que temos. Mas é curioso a maneira como conseguiu internalizar certas violências e ditar padrões dos quais, em tese, estaria tentando romper.

Billie passou anos sendo acusada de pink money por não falar da própria sexualidade, mas usar códigos queer, por exemplo, na forma de se vestir e falar. Se intensificou depois de ela aparecer rodeada de mulheres no clipe de Lost Cause. Só em 2023 ela confirmou numa entrevista à Variety. “Não era óbvio?”, a cantora se surpreendeu.

Além de Billie, outros artistas (nacionais ou não) viveram críticas ou pagamentos similares — se escolhem o gênero oposto “traem o movimento”, se escolhem o mesmo, “viram lésbicas/gays”. Alguns desses casos se refletem em nomes como Phoebe Bridgers, Kristen Stewart, Ludmilla, Brunna Gonçalves, Clairo, Doechii, Jão, Rodrigo Simas, Freddie Mercury e Renato Russo (só para citar alguns, a lista realmente é imensa).

Billie Eilish não enganou ninguém (desculpe, lésbica futurista). Tampouco “virou hétero”. Assim como não existe uma cura gay, não há uma cura bissexual; sequer queremos ser convertidos.

+ Kama Sutra da Sabrina Carpenter: todas as posições sexuais da cantora na turnê Short n’ Sweet (e como testar em casa)

Quem tem medo dos bissexuais e por quê?

Em 1990, o Manifesto Bissexual definiu que “a bissexualidade é uma identidade inteira e fluida” e que sempre constituiu em atração por mais de um gênero — o que depois foi reforçado com a pansexualidade.

O texto chama atenção ainda para a invisibilidade, isolamento e invalidação das bis, além da pressão por “escolher uma identidade homossexual ou heterossexual”.

“A monosexualidade [em que há atração romântica só por um gênero] é um ditado heterossexista usado para oprimir homossexuais e negar a validade da bissexualidade”, continua o texto. Levando para identidades de gênero, essas imposições também são muito direcionadas às pessoas não binárias (igualmente descredibilizadas e apagadas, inclusive por pessoas trans binárias).

Mulheres bissexuais são fetichizadas enquanto homens bissexuais são vistos como menos dignos. Independentemente do gênero, bissexuais são ”indecisos, promíscuos, querem surfar num hype” e correm sempre o risco de serem recusados tanto por héteros como por gays/lésbicas. Somos descartados por esse sentimento de não confiabilidade e de que somos traiçoeiros — ironicamente por não nos adequarmos às normas de afeto.

Ao mesmo tempo, dá para entender o motivo pelo qual a comunidade fica ressabiada e vê como “golpe baixo” ver a artista que cantou sobre como queria comer outra mulher no almoço (palavras de Billie) beijando um homem.

+ Após ser expulsa, evangélica bissexual cria igreja para acolher cristãos LGBTQIAP+: ‘Deus ama a diversidade’

Eilish já se consagrou uma das maiores artistas de sua geração e, por mais que seu discurso seja genuíno, ela lucra com isso. E muito. Em dinheiro e em reputação. “Será que esse tempo todo ela estava fazendo pink money?”, é uma das preocupações que mais vi nos comentários.

Serei justa: não é de hoje que vemos pessoas cis/hétero se apoiando na causa meramente para lucrar — como fez aquela cantora brasileira que aderiu nome de achocolatado e, depois, voltou atrás.

Ao mesmo tempo — e não acredito que tenho que escrever isso como se fosse novidade —, pressionar pessoas que são legitimamente queer a saírem do armário pelo bem de uma “legitimidade queer” ou questionar orientações sexuais é violento. Assim como também é colocar enquanto errada a orientação sexual de alguém só porque ela não está num relacionamento homossexual.

A diferença é que enquanto Eilish tem dinheiro, fama, um batalhão de fãs e genuinamente pode se dar ao luxo de sequer não ler os comentários, a realidade não é a mesma para a esmagadora maioria das pessoas LGBTQIA+. Pense numa pessoa bi que está receosa em sair do armário e se depara com comentários como esses para uma superestrela. Os comentários não ressoam em Billie ou em qualquer outra pessoa pública, mas, justamente, em quem está atrás da tela.

Peço licença para me usar como exemplo. Houve muitos sinais enquanto crescia, mas só me entendi bissexual mesmo aos 18. Decidi me assumir para uma pessoa muito próxima, queria “normalizar” a questão para caso, um belo dia, eu aparecesse de mãos dadas com uma menina. De início, fui apoiada — com uma certa confusão, mas vá lá. Meses depois comecei a ficar sério com um carinha. “Graças a Deus, agora ele vai tirar a sua dúvida”, essa pessoa disse, rindo muito. E rindo inocentemente, para ela era genuinamente engraçado. Mas eu chorei, e muito. Senti como se essa pessoa só estivesse jogando junto até “minha fase mudar”. Eu, sim, me senti enganada. E essa é só uma das inúmeras vezes — nem me faça começar a falar dos comentários com teor bifóbico que já ouvi de amigos gays.

Pessoalmente falando, é claro que sei que, enquanto mulher cis que atualmente tem um parceiro homem cis, há privilégios para mim. Não vou me sentir compelida a esconder meu companheiro por medo, e vou poder expressar afeto a ele sem medo de apanhar na rua. Legalmente falando, temos acessos aos mesmos direitos que casais lidos como heterossexuais têm: ou seja, meu direito ao casamento não está ameaçado, não vamos ter dificuldades para registrarmos nossos filhos (se quisermos tê-los) e não vamos passar por violências institucionais. Seria injusto não reconhecer tudo isso, e entendo o amargor que isso pode desencadear.

Ao mesmo tempo, orientações sexuais e identidades de gênero dissidentes não dizem apenas sobre a forma de sentir. Isso é capaz de moldar visão de mundo, posicionamentos políticos, ações e expressão de gênero. Ao meu ver, é impossível ser bissexual (ou queer, em geral) e compactuar com as regras e normas impostas da heteronormatividade.

Se estamos lado a lado, então porque, justamente em um espaço que promete acolhimento, não conseguimos sentir que nossa orientação sexual é legítima? Enquanto isso, todos os nossos sangues estão escorrendo — cada um à sua maneira.

Pelo 15º ano consecutivo, o Brasil se manteve, em 2024, com a terrível mancha de ser o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ — péssima alcunha ratificada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) e a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O levantamento anual do GGB mapeou que houve uma morte violenta a cada 30 horas no Brasil no último ano. Foram 291 no total, 8,8% a mais do que em 2023; e 18 delas foram suicídios. Destes, sete eram bissexuais.

Em 2021, outra pesquisa, dessa vez do Instituto Williams da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Los Angeles, mostrou que bissexuais têm 1,5 vez mais chances de ter pensamentos suicidas do que gays e lésbicas.

Então, por que estamos competindo sobre quem é mais ou menos queer? E até quando nós, bissexuais, vamos precisar lidar com a narrativa de que somos uma farsa, fase, enganação ou que estamos usurpando de um status para sermos “descolados”, dentro de nossa própria comunidade?

Não se engane: bissexuais estarão nas trincheiras junto do movimento, marcando com as outras letrinhas, independentemente de com quem estão se relacionando. Isso não quer dizer que, para sermos aceitas, devemos prestar contas ou provar nossas sexualidades. Não precisamos provar nada a ninguém.

Mais recente Próxima Como fazer sexo oral em mulheres? O guia definitivo para fazer bonito sem medo

Continuar lendo