Qual é a diferença entre bissexual ou pansexual? Dá para se identificar com os dois?

Embora as duas orientações se relacionem com a atração por mais de um gênero, existem nuances identitárias e históricas que diferenciam cada uma delas

Por
Isadora Marques
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)


O que diferencia ser bi ou pan? Entenda as nuances que diferenciam a bissexualidade e pansexualidade — Foto: Reprodução/Pexels

Você já se sentiu atraída por pessoas de diferentes gêneros e pensou: “Em qual letra da sigla LGBTQIAPN+ eu me encaixo?” Fique tranquila: independentemente da idade, essa dúvida é mais comum do que parece. A verdade é que tanto a bissexualidade quanto a pansexualidade identificam pessoas que têm desejo por pessoas por mais de um gênero. Entender em qual das duas orientações sexuais você se identifica mais é um processo único.

Embora as duas tenham diferenças mais históricas e identitárias do que práticas, a desinformação sobre o tema ainda faz muita gente repetir ideias preconceituosas. Como dizer que ser bi é ser transfóbico e que ser pan é ser mais inclusivo.

Qual é a diferença entre bissexualidade e pansexualidade?

Vamos direto ao ponto. No imaginário popular, bissexualidade significa uma orientação em que a pessoa que se atrai afetiva, sexual e/ou romanticamente por homens e mulheres. Mas vai muito além disso. Por mais que “bi” pareça demarcar “dois” (ou seja, homem ou mulher), ser uma pessoa bissexual significa sentir atração por mais de um gênero ou múltiplos gêneros — incluindo pessoas não binárias, queers, gênero fluído, homens e mulheres cis ou trans.

Enquanto a pansexualidade traz uma nomenclatura que não limita à binaridade e parte de uma outra lógica. O “pan” vem do grego “tudo” e aponta para a atração por pessoas pelo o que elas são, sem depender do gênero que elas performam.

“Mas a bissexualidade não quer dizer a mesma coisa?”, você deve estar se perguntando. A resposta é: sim! Mas cada um dos termos e grupos de pessoas foram criados em contextos diferentes, com histórias e pautas políticas próprias.

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Uma brevíssima história da bissexualidade

O termo bissexual surgiu pela primeira vez lá em 1892, numa época em que não se falava muito de diferentes gêneros e orientações sexuais. Então, ou você era hétero ou homossexual (ou simpatizante. Quem lembra da sigla GLS?).

As pessoas que não se sentiam uma coisa e nem outra começaram a tentar encontrar um lugar em que elas pudessem se encaixar e abraçar a bissexualidade. Mas a sociedade cis rapidamente tornou os bissexuais conhecidos como pessoas que gostam de homem e de mulher ao mesmo tempo — mesmo que a sexualidade seja ainda mais complexa do que isso. Por esse motivo, são tachadas de indecisas, promíscuas ou não confiáveis, por exemplo.

Dentro da comunidade LGBTQIAPN+, algumas discussões apontam a bissexualidade como uma orientação que não inclui pessoas trans e outros gêneros. Mas isso não é verdade. Essa questão foi abordada em 1990 no Manifesto Bissexual, artigo escrito por ativistas do coletivo Bay Area Bisexual Network (atualmente Bay Area Bi+ & Pan Network) e publicado na revista estadunidense Anything That Moves.

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“Assim como a pansexualidade, a bissexualidade é um todo. É uma identidade fluída, que desde sua consolidação luta para o reconhecimento e validação como uma sexualidade que também se atrai independentemente de gênero”, diz um trecho do texto.

Vale lembrar o óbvio: uma pessoa bissexual não deixa de ser bi por ser casada com um gênero específico. Ou seja, uma mulher bi que se relaciona com mulheres não “vira lésbica”, assim como um homem bi que se relaciona com uma mulher não “vira hétero”.

Além disso, não há nada que prove, de forma alguma, que a tendência é que bissexuais traiam mais, só por se atrair por mais gêneros.

Uma brevíssima história da pansexualidade

A pansexualidade começou a ser considerada como orientação e identidade sexual a partir dos anos 1990. Surgiu em um momento em que os movimentos queer e as discussões sobre gênero como construção social se fortaleciam.

Ao questionar a ideia de que existe mais do que a estrutura binária propõe “homem e mulher”, a pansexualidade entra em cena como uma resposta a essa limitação de gênero. Ela acaba acolhendo uma comunidade de pessoas que não se enxergam dentro da binariedade — como pessoas trans e não binárias.

É importante dizer que a pansexualidade não existe para invisibilizar a bissexualidade, e muito menos corrigir o seu significado. A identidade pansexual nasce como um desejo de nomear experiências diferentes com afeto, desejo e atração em uma época onde se falava cada vez mais sobre fluidez de gênero.

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Qual é a diferença entre ser bissexual e pansexual?

A diferença entre bissexualidade e pansexualidade está, muitas vezes, na forma como cada pessoa vive e entende seu próprio desejo.

Para algumas, ser bi é o suficiente para expressar sua atração fluida por pessoas. Para outras, a pansexualidade representa melhor a ausência de barreiras na experiência dos afetos e tesão.

Como dissemos mais acima, pessoas trans, queers e não binárias podem se sentir mais alinhadas com a proposta da pansexualidade por romper com padrões tradicionais de uma forma mais visível — já que a bissexualidade ainda é associada de forma errada à atração por apenas dois gêneros, em todos os casos.

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Isso não quer dizer que toda pessoa trans, queer e não binária se identifique como pansexual. Muitas se identificam como bissexuais, gays, lésbicas, assexuais entre outras muitas orientações. Ainda existe quem se identifica com os dois termos, mas prefere se relacionar a um dos termos por questões pessoais ou políticas.

Além disso, a sexualidade é muito fluida e não é imutável ao longo da vida. Portanto, leve tempo para entender se você está dentro de algum desses guarda-chuvas, não se cobre e entenda que, independentemente do que estiver mais alinhado com você, as duas orientações sexuais são válidas — assim como a sua maneira de sentir afeto, paixão e desejo.

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