“Uso os caras para o meu prazer e vou embora”: o que significa a liberdade de transar “como um homem”?

Inspiradas pelo hit P.I.T.T.Y., de Nanda Tsunami, mulheres relatam como o desapego e a busca pelo prazer individual desafiam a noção de que a liberdade sexual é um privilégio exclusivamente masculino

Por
Isadora Marques
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)


Ao viverem o sexo sem culpa, mulheres desmontam a noção de que ter autonomia e liberdade sexual é uma atitude 'masculina' Reprodução/Unsplash

“Você age igual a um homem.” É a frase que a recrutadora Mari*, 42 anos ouve com frequência das amigas. A comparação aparece quando ela decide não manter contato depois de transar com um cara. Ou quando só os procura quando está com tesão. “Eu curto o o momento do sexo da melhor forma possível. Sou muito carinhosa, só que depois que acabou, acabou”, ela rebate.

Hoje, Mari está em um relacionamento monogâmico, mas sua forma de viver o sexo não mudou. “Eu sou uma mulher livre. Sempre fui presa a mim mesma, ao meu prazer e ao meu desejo.” Quando solteira, ela diz que nunca enxergou o sexo como algo que exigisse envolvimento emocional. “Se o beijo é bom e senti vontade, eu transo. A maioria dos homens com quem transei nem lembro o nome. Alguns me procuraram de novo, outros não, e está tudo bem”, diz Mari.

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A ideia de que existe uma forma “masculina” de viver o sexo e que as mulheres vêm se apropriando disso não vem de hoje. Samantha Jones já deu a letra há anos atrás em Sex in the City, ao ser retratada como uma mulher que leva o sexo de forma livre, focada apenas no próprio prazer — algo historicamente naturalizado como uma “atitude de homem”.

Esse assunto ganhou novo fôlego depois que a música P.I.T.T.Y. (Parecendo uma Cafetina), da rapper brasileira Nanda Tsunami, viralizou em trends de maquiagem no TikTok e chegou aos 20 milhões de plays no Spotify. Na letra, Nanda usa da provocação e ironia para inverter papéis de gênero no rap — o que fica mais evidente ao usar a música P.I.M.P, de 50 Cent, como sample. “Eu falei que te amava, mas não sou a mesma de ontem” e “às vezes eu só taco o foda-se e ajo igualzinho os cara”, são trechos da música que simboliza essa quebra de expectativa de que mulheres sempre vão querer se comprometer afetivamente depois de transar.

A criadora de conteúdo adulto Fernanda Nascimento, conhecida como Raposinha, considera que desafia as expectativas sociais sobre como as mulheres devem viver o sexo. “Minha ideia é sempre aproveitar o máximo possível sem me apegar, o que significa que não preciso gastar energia em como as coisas ficam depois do sexo”, explica. “Vivo meu desejo sem culpa, faço porque tenho vontade, não preciso ‘sentir algo’ para legitimar o sexo.”

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Afinal, o que significa “transar como um homem”?

Fernanda Nascimento, conhecida como Raposinha, é criadora de conteúdo adulto e encara a sexualidade com liberdade e autonomia — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Para a psicóloga e sexóloga especialista em relacionamentos Fernanda Purificação, a expressão “transar como um homem” tem mais a ver com um contexto social desigual em que as mulheres estão inseridas. “A frase está associada a atitudes que envolvem mais iniciativa, autonomia e foco no próprio prazer. Só que esse comportamento não é exclusivo do gênero masculino. O que acontece é que somos obrigadas a reprimir as nossas vontades relacionadas a sexo”, afirma.

Ela reforça que a comparação não tem nada a ver com biologia. Ao contrário, critica explicações biológicas simplistas usadas para justificar uma cobrança por envolvimento afetivo. Essa desculpa aparece, por exemplo, para justificar que mulheres se apegam mais fácil por liberarem mais oxitocina (o hormônio do amor) no sexo.

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“Não existe um caminho hormonal que dite o quanto a mulher vai se apegar. Desejo e vínculo não funcionam de forma automática. A neurobiologia do apego envolve contexto, história emocional, segurança e a cultura que cada uma está inserida”, afirma.

A especialista acrescenta que quando mulheres ocupam esse lugar de liberdade sexual, a leitura social muda. O julgamento não está no sexo casual em si, mas em quem faz. “O mesmo comportamento que é lido como autoconfiança no homem vira promiscuidade ou ‘falta de valor’ na mulher.”

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Mari afirma que a forma como vive o sexo nunca teve a ver com frieza ou desapego calculado, mas com a honestidade de oferecer o que está disposta a dar, e nada mais. A reação deles acaba sendo de choque, por mais que a conduta dela seja mais comumente adotada por eles.

“Eles até me dizem que eu sou a mulher dos sonhos deles porque sempre estou disposta à transar. Por outro lado, não sou a mulher com quem eles querem casar porque acham que a minha liberdade coloca em xeque a virilidade deles”, relata.

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Fernanda “Raposinha” percebe que há uma expectativa silenciosa de que, depois do sexo, a mulher sempre vá querer algo a mais e criar fantasias românticas. O incômodo surge quando os homens estão do outro lado da dinâmica e provam do próprio “veneno”.

“Em algumas situações os caras ficam com o ego ferido quando a mulher não se apega. Acho engraçado, mas a sensação deixá-los assim é muito libertadora”, compartilha Fernanda.

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“Não aceito o rótulo de transar como um homem”

Samantha Jones e seu fetiche por bombeiros em cena da série Sex in the City — Foto: Reprodução

Mari acredita que o interesse em sexo e o desprendimento não deveriam ser consideradas atitudes “de homem”. “Não aceito esse rótulo. Acho que a mulher tem que transar como mulher e ser livre como mulher, do jeito que ela quiser, sem esse papo de ter que se valorizar”, reflete.

Na prática, ela vive em contraponto a essa ideia e coloca sempre o prazer em primeiro lugar. “Eu uso os caras para o meu prazer. Se eles transam mal, eu levanto e vou embora. Eu transo gostoso para receber uma transa gostosa em troca. Inclusive meu companheiro já sabe: no momento em que ele não me satisfizer mais no sexo, é tchau! E se eu quiser transar com outro no dia seguinte, eu vou”, diz Mari

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Fernanda “Raposinha” diz que os julgamentos e comentários ofensivos sobre a forma com que se relaciona com o sexo não a abalam mais. “O que eles acham que é ser puta, para mim, significa ser eu mesma. Meu estilo de vida me liberta e é também uma forma de sabedoria. Quero viver o máximo o potencial do meu corpo”, relata.

No final das contas, segundo Purificação, não é sobre “agir como homem”, mas sobre humanizar o desejo feminino e construir uma sexualidade baseada em consentimento, responsabilidade afetiva e liberdade sem culpa.

“Quando a mulher deseja, sem pedir perdão por isso, isso não a masculiniza. Isso só desmonta uma velha mentira de que prazer feminino precisa de autorização. O que precisamos é falar mais sobre isso, explorar nosso próprio corpo e ser detentoras do nosso próprio prazer”, diz a sexóloga.

*O nome foi alterado a pedido da entrevistada.

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