'Novelas das frutas’ usam violência e preconceito para viralizar nas redes

Histórias produzidas por inteligência artificial usam estética infantil para viralizar em perfis anônimos e driblam monitoramento

Por
Camila Bucoff
, redação Marie Claire — São Paulo


'Novelas das frutas' têm milhões de curtidas nas redes sociais com conteúdos misóginos e violentos Reprodução

Uma mulher sofre agressão doméstica por não preparar o jantar do marido. Um homem rejeita a esposa e o filho, por ele ter nascido com uma aparência “fora do padrão”. Um personal trainer musculoso encerra um relacionamento por achar sua companheira muito gorda. Esses são exemplos de histórias retratadas nas "novelas das frutas", mais recente tendência das redes sociais.

Tratam-se de vídeos curtos, gerados por inteligência artificial, em que frutas antropomorfizadas vivem dramas pessoais. O modelo tem sido utilizado com frequência por diversos perfis, em busca de audiência e de rápida viralização. As narrativas, no entanto, aparecem cada vez mais apelativas, mostrando que casos de violência de gênero e discriminação ainda são retratados de forma banalizada nas mídias sociais.

O formato é ainda mais problemático na medida em que usa um visual quase infantil e lúdico para abordar temas densos e, muitas vezes, violentos – ou seja, totalmente inapropriados para crianças.

De acordo com Liliane Ferrari, professora de Mídias Sociais no programa de MBA da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), os conteúdos podem configurar um risco às crianças no ambiente digital, pois permitem que temas sensíveis possam passar despercebidos pela moderação e pelo julgamento dos pais. “A pessoa vai assistindo e, no fim, ela nem sabe direito o que consumiu.”

Jane A. Marques, professora de Comunicação Social na Universidade de São Paulo, alerta que não é só com as crianças que é preciso ter atenção. Ela explica que a exposição frequente a conteúdos que normalizam falas misóginas e machistas, mesmo quando apresentados de forma aparentemente inofensiva, pode levar a um processo gradual de dessensibilização em adultos e adolescentes.

A professora se baseia na Teoria do Cultivo, proposta por George Gerbner e Larry Gross em 1976, que sugere que a exposição prolongada aos meios de comunicação pode influenciar a forma como as pessoas percebem a realidade. Nesse caso, “quando aplicada a um conteúdo carregado de misoginia, ela funciona como um mecanismo de normalização de hierarquias de gênero”, aponta.

Para ela, um possível risco do consumo constante desse conteúdo é o recalibramento do mapa cognitivo sobre relacionamentos. Ou seja, isso pode fazer com que, ao se deparar com uma situação real de desigualdade de gênero, a pessoa não a reconheça como problemática, porque foi “cultivada” para isso.

Os vídeos são publicados por usuários anônimos e já conquistaram milhões de likes e visualizações. No TikTok, por exemplo, o perfil @fé.que.transforma2026 acumula aproximadamente 3,1 milhões de curtidas. Já o @noveladasfrutasrots recebeu quase 730 mil corações, e o @novelasdefrutas 4,6 milhões.

Ferrari explica que os conteúdos têm ganhado tanta popularidade por combinarem três gatilhos: a estética infantil; a narrativa dramática com ganchos e a escalada da IA, que possibilita uma produção em grande volume e com muita repetição, o que vicia o público e treina o algoritmo. "Vejo como um sintoma de algo maior: o entretenimento gerado por IA em escala industrial, otimizado para o algoritmo e feito para sugar a atenção das pessoas com facilidade”, define.

Cena de 'Novela das frutas', que está viralizando nas redes sociais — Foto: Reprodução

O formato dos vídeos curtos, rápidos e viciantes pode ser considerado um tipo de “design manipulativo”. O objetivo maior é prender a atenção do usuário para manter o engajamento, em vez de tentar promover o bem-estar do indivíduo. Esse tipo de prática produz um estado de desgaste mental, que recebe o nome de "brain rot".

Marie Claire tentou, via redes sociais, contato com dez perfis que produzem "novelas das frutas”. Não conseguiu retorno de nenhum deles.

Guiados pelo algoritmo

A psicóloga e coordenadora geral do Centro de Reabilitação Neurológica, Matheus Alvares, Thais Rejane, observa que os vídeos não exigem grande esforço cognitivo, quantidade de recursos mentais que o cérebro empenha para realizar uma tarefa. Isso somado ao alto padrão de repetição, “favorecem que o acesso a esse conteúdo seja frequente”, observa.

Ainda sim, Ferrari levanta uma provocação sobre por que o formato “novelinha” tem funcionado tão bem. “Hoje a gente é muito menos regido pelo que nós queremos ver, e muito mais por aquilo que o algoritmo quer me mostrar”, diz.

“Eu vejo que a produção desse conteúdo é feita de maneira industrial e para um público que está passivo. Então, para as plataformas também é muito interessante que esse conteúdo seja lançado nessa velocidade e nessa quantidade. Por quê? É o que vende”, completa.

Ela acredita ser responsabilidade das plataformas fazer a moderação desse tipo de conteúdo. “O problema não é só remover o que foi postado, mas revisar o sistema de recomendação que amplifica esse alcance.” Segundo a especialista, nenhum país ou legislação está preparada para lidar com conteúdos gerados por inteligência artificial nesse nível de escala ainda. “O fenômeno é novo, e a autorregulação e a educação midiática ainda não acompanham a velocidade da IA generativa.”

Assim, os filtros e as políticas das plataformas digitais que funcionam como mecanismos de controle de conteúdo não estão conseguindo fiscalizar as “novelinhas das frutas” corretamente. As práticas acabam se incorporando de maneira sutil e “mascarada” aos formatos de circulação de informação nas redes, observa a professora.

Procurada, a assessoria de imprensa do TikTok afirmou: “Todos os conteúdos do TikTok estão sujeitos à aplicação das nossas Diretrizes da Comunidade, que ditam não só o conteúdo que é proibido na plataforma como aquele que é restrito de acordo com a idade do usuário. E temos regras específicas para os temas violência e misoginia”.

A assessoria da Meta, empresa dona do Instagram, retornou apenas com as diretrizes estabelecidas pelo aplicativo.

Diante desse cenário, a psicóloga Rejane destaca a necessidade de pais e responsáveis em observar “sinais de alerta” no consumo de conteúdos digitais por crianças e adolescentes. A irritabilidade, a queda na capacidade de foco e a preferência por conteúdos muito rápidos são alguns indicadores negativos.

Apesar disso, ela defende uma abordagem equilibrada, sem demonizar o conteúdo, ressaltando a importância de oferecer experiências variadas, estimular outros interesses e realizar uma mediação cuidadosa do uso, observando a frequência e possíveis mudanças comportamentais.

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