Retratos

Por Adriana Ferreira Silva


Sylvie Le Bon-de Beauvoir e Simone de Beauvoir em 1973 (Foto: Coleção pessoal de Sylvie Le Bon-de Beauvoir) — Foto: Marie Claire
Sylvie Le Bon-de Beauvoir e Simone de Beauvoir em 1973 (Foto: Coleção pessoal de Sylvie Le Bon-de Beauvoir) — Foto: Marie Claire


A primeira vez que a então estudante secundarista Sylvie Le Bon ouviu falar de Simone de Beauvoir foi no colégio em Rennes, cidade francesa na região da Bretanha, quando leu O Segundo Sexo (Nova Fronteira, 904 págs., R$ 135) e ficou tão impactada com as reflexões da autora sobre a condição feminina que decidiu lhe enviar uma carta. Íntima do mundo acadêmico, Simone estava acostumada a receber correspondências de jovens interessadas em sua obra e tinha o hábito de responder e até convidar suas autoras para um café, como fez com Sylvie, que viajou a Paris para vê-la. “Eu estava muito envergonhada”, diz Sylvie.

"“Quando nos tornamos amigas, eu lhe falava sobre tudo, mas ela também me contava tudo. Ela me dizia sempre: ‘faça todas as perguntas que você quiser. Isso me dá prazer" - Sylvie Le Bon-de Beauvoir

Sentada na sala de seu apartamento, ela se ajeita na cadeira, dobrando-se um pouco à frente, e dá um grande sorriso para a câmera ao relembrar a cena. É fim de tarde na capital francesa e a luz vai baixando enquanto falamos, criando sombras nas estantes de livros ao seu redor. Sylvie usa um batom vermelho vibrante, no mesmo tom de sua elegante blusa de cashmere em xadrez preto e vermelho. Seus cabelos estão presos num coque baixo, num penteado que lembra os de Simone. Todas as vezes em que fala dela, Sylvie ri. Quando a pergunta a incomoda, solta irritada um daqueles muxoxos típicos de parisienses, mas logo recupera o bom humor.

“Simone sabia deixar as pessoas à vontade, mas precisei de muitos encontros para me sentir confortável”, continua Sylvie. “Ela era generosa, gentil, acolhedora e, apesar da diferença de idade [Simone tinha 52 anos e Sylvie, 19], e de ela ser uma celebridade, nos tornamos amigas. Foi um pouco como afinidades eletivas: é difícil explicar, mas tínhamos profundos pontos em comum”, diz ela. Nos anos seguintes a esse café em 1960, Simone introduziu a garota ao círculo de amigos que ela chamava de “família”, como Olga Kosakiewicz e Jacques-Laurent Bost, além de seu parceiro intelectual Jean-Paul Sartre. “Nos encontrávamos em grupo, sozinhas e muitas vezes somente ela, Sartre e eu. Eles eram divertidos e estimulantes. Ao lado deles, tinha a impressão de que tudo era possível. Todas as ideias eram aceitas e eles sabiam escutar”, descreve Sylvie. Nos anos seguintes, compartilharam a paixão de Simone por viagens. No verão, percorriam a Europa ou se aventuravam em outros continentes. “Simone adorava fazer longas caminhadas. Depois, adotou a bicicleta e, por fim, comprou um carro. Eu dirigia e ela fazia os itinerários. Nosso tour terminava sempre em Roma, onde Sartre nos esperava. Lá, eu passava o dia fazendo minhas coisas e nos víamos à noite, para o jantar. Sartre era divertido e tinha muito amor pela vida. Até 1985, um ano antes da morte de Simone, seguimos essa rotina indo à Áustria. Ela nunca se cansava de viajar”, fala Sylvie.

Simone de Beauvoir e Sylvie Le Bon chegam ao Palácio do Élysée, em Paris, para encontro com o presidente François Mitterrand, em 1985 (Foto: Getty Images) — Foto: Marie Claire
Simone de Beauvoir e Sylvie Le Bon chegam ao Palácio do Élysée, em Paris, para encontro com o presidente François Mitterrand, em 1985 (Foto: Getty Images) — Foto: Marie Claire

As duas tornaram-se tão íntimas que, ao sentir que já não lhe restavam muitos anos de vida, a filósofa disse à amiga que queria adotá-la, para tornar Sylvie herdeira de sua obra. O episódio que levou a essa decisão ocorreu logo após a morte de Sartre, em 1980, quando Simone adoeceu e teve de ser internada. “A irmã de Simone, Hélène, não me deixou ficar com ela no quarto do hospital. Então, quando se recuperou, para me convencer a aceitar a adoção, Simone disse: ‘Está vendo, minha irmã não é má, mas é ‘a família’, o que lhe garante poder’’, conta Sylvie. “Eu jamais imaginei viver algo parecido. Pensava que, como amiga, eu poderia cuidar de seus manuscritos, mas era preciso uma ligação legal.” Foi assim que ela se tornou Sylvie Le Bon-de Beauvoir, única filha e responsável por todo o legado de uma das mais importantes filósofas e escritoras do mundo.

"A partir de 1975, Simone começou a me preparar, dizendo que tinha guardado tal coisa em deter-minado armário, o que deveria ser feito com ela etc. Quando Sartre morreu, ela percebeu que a família tinha muito poder, e eu, nenhum. Ela confiava em mim porque nos dávamos muito bem. Ela me fazia confidências e eu conhecia tudo de sua obra, então, ela queria que fosse eu, e não sua família, a cuidar de seu legado" - Sylvie Le Bon-de Beauvoir

No meio desses papéis que ajudaram Sylvie a superar uma fase “muito sombria”, logo após a morte de Simone, e transformaram sua vida de professora em principal especialista na obra de Beauvoir, há muitos escritos ainda inéditos. Um deles, As Inseparáveis (Record, 128 págs., R$ 39,90), romance aparentemente despretensioso, acaba de ser lançado no Brasil e revela um importante momento biográfico da autora. Antes de se rebelar e inspirar a segunda onda do feminismo, Simone de Beauvoir foi criada para ser uma moça bem-comportada. Em 1908, ano em que ela nasceu, isso significava temer a Deus, estudar o suficiente para ser considerada letrada (o que, para as mulheres, excluía o curso superior), casar-se com alguém de seu meio burguês católico, ter filhos e educá-los para repetir com êxito esse ciclo.

Simone iniciou a subverssão desse “curso natural” quando, aos 9 anos, conheceu Élizabeth Lacoin, a Zazá, uma menina atrevida e inteligente que, além de melhor amiga, seria inspiração para a futura ícone feminista questionar essas e outras regras. Eram tão unidas que passaram a ser chamadas de “as inseparáveis” na escola, onde disputavam entre si o posto de melhor aluna. Mas, enquanto Simone se rebelava intelectualmente, recusando-se a interromper os estudos e optando pela filosofia, Zazá ardia em paixões proibidas. No início da idade adulta, apaixonou-se pelo estudante de filosofia Maurice Merleau-Ponty, amigo de Simone na universidade, cujo perfil não agradou à sua abastada família, que a obrigou a se afastar do rapaz, causando à jovem intenso sofrimento. Logo em seguida, aos 22 anos, Zazá morreu de encefalite viral.

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em Roma (Foto: Getty Images) — Foto: Marie Claire
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em Roma (Foto: Getty Images) — Foto: Marie Claire

"“Sartre era muito generoso e gentil, além de divertido. Ele tinha muita vitalidade e amor pela vida, o que facilitava muito nossa relação" - Sylvie Le Bon-de Beauvoir

As Inseparáveis trata desse período de infância, juventude e seu final trágico. No livro, Simone nomeia Zazá como Andrée e chama a si mesma de Sylvie – aparentemente, sem relação com a amiga/filha, pois ela o fez antes de conhecê-la. “Simone escreveu esse livro logo após lançar o monumental romance Os Mandarins [1954]. Era um momento em que ela hesitava entre a ficção e a autobiografia, e acabou escolhendo o segundo gênero. Por isso, não o lançou naquela época”, explica Sylvie. “Zazá foi muito importante porque, por ela, Simone descobriu que existia um meio burguês convencional muito opressivo. Ela dizia odiar a burguesia porque Zazá foi massacrada por sua família.” A amizade foi tão marcante que, na obra da escritora, há referências a ela em diversos livros. “Ela queria fazer justiça a Zazá, a quem Simone se referia como excepcional. Sua vida foi marcada por essa morte, que Simone considerava um crime. Para ela, Zazá foi morta por seu meio.” Na vida adulta, Simone teve outras amigas, mulheres essenciais em sua trajetória, mas a única cuja presença foi tão importante quanto Zazá é justamente Sylvie. “Acho que Simone sentia a nostalgia de uma amizade próxima, íntima, como a que ela teve na juventude com Zazá”, diz Sylvie. “A mim, Simone me ajudou a viver e a me tornar eu mesma.

Zazá e Simone de Beauvoir, em Gagnepan, sudoeste da França, em 1928 (Foto: Association Elisabeth Lacoin/L'Herne) — Foto: Marie Claire
Zazá e Simone de Beauvoir, em Gagnepan, sudoeste da França, em 1928 (Foto: Association Elisabeth Lacoin/L'Herne) — Foto: Marie Claire
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