Jornalista e nutricionista especializada em saúde da mulher
Suplementos: o que é preciso considerar antes de entrar na onda
Eles estão em alta e prometem ser uma solução prática para muitos problemas de saúde e beom-estar. No entanto, o que parece uma resposta tentadoramente fácil, precisa de análise e reflexão para não virar mais problema
colunista Marie Claire — São Paulo, SP
Zinco, whey, creatina, vitamina D, melatonina, ômega-3... As prateleiras das farmácias e até dos supermercados se encheram de frascos que prometem sono restaurador, cabelos fortes, cognição afiada, crescimento muscular, libido em alta... Estamos vivendo a onda dos suplementos e suas 1001 promessas. Médicos recomendam, nutricionistas prescrevem, personal trainers indicam e até amigas têm dicas de pílulas que podem mudar sua vida. Como toda onda, essa vem acompanhada de alguns fatos comprovados cientificamente e de muitas promessas vazias.
Quando se trata de suplementos nutricionais ou alimentares, mais nem sempre é melhor.
E, se a quantidade não for suficiente para sua necessidade, é um dinheiro no ralo. Suplementos devem complementar – nunca roubar a cena – uma alimentação equilibrada. Pense neles como coadjuvantes talentosos: entram quando há uma necessidade real, fazem seu trabalho e saem de cena. A suplementação faz sentido em situações bem específicas:
Quando seus exames mostram deficiência. Se os resultados laboratoriais revelam níveis inadequados de vitaminas ou minerais, a suplementação é necessidade médica. Vitamina D baixa compromete da imunidade até o humor. Ferro insuficiente gera uma fadiga que não passa.
Quando sua dieta tem limitações. Algumas escolhas alimentares criam lacunas nutricionais inevitáveis. Vegetarianas precisam de B12 porque ela existe apenas em produtos de origem animal. Quem evita peixes pode desenvolver carência de ômega-3.
Quando seu corpo não absorve direito. Certas condições de saúde interferem na capacidade de absorver nutrientes. Pessoas que passaram por cirurgia bariátrica têm absorção comprometida de várias vitaminas. Quem convive com doença celíaca pode desenvolver deficiência de ferro devido aos danos intestinais.
Em momentos especiais da vida. Durante a gestação e no período pré-concepcional, o ácido fólico é fundamental para prevenir defeitos do tubo neural. Na menopausa, suplementos como ômega-3, vitamina D e magnésio se tornam aliados importantes.
Quando tomamos vitaminas em quantidades abaixo do indicado, o organismo pode não receber o suficiente para desempenhar as funções essenciais. A questão é que hoje vemos o outro extremo com frequência. Toma-se suplementos como se fossem poupança. As pessoas querem fazer reserva para o futuro, acumular saúde, estocar cotas de prevenção. É aqui que as coisas desandam.
Pense na vitamina D: em doses altas, pode levar a uma absorção excessiva de cálcio. O resultado vai de diarreia e constipação até calcificação arterial. Excesso de magnésio provoca náuseas, tontura, confusão mental. Vitamina A demais causa dores de cabeça, enfraquece os ossos e pode até aumentar a pressão dentro do crânio. O risco é maior com vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) que se acumulam no corpo, principalmente no tecido adiposo.
Aqui está o que ninguém te conta: sabemos pouco sobre os riscos de superdoses e o que acontece quando misturamos vários suplementos. Muitos minerais são como rivais – competem entre si. Zinco atrapalha a absorção de cobre. Cálcio interfere com ferro.
Agora vamos para outro cenário: você tem indicação médica, dose certa, horário ideal. Mas conhece a qualidade do que está comprando? Muitos produtos são recheados de adoçantes, corantes e conservantes. Alguns têm quantidades ridículas do princípio ativo. A verdade inconveniente: nenhum suplemento substitui alimentação equilibrada e movimento. Os estudos mais sólidos sobre longevidade sempre apontam para os mesmos protagonistas: comida de verdade, exercício regular, sono reparador e estresse controlado. Antes de investir na próxima caixinha de promessas, faça as perguntas certas: estou comendo direito? Durmo bem? Me mexo regularmente? Se a resposta for não, comece por aí. O resto é literalmente complemento.