Lucy Ramos: ‘Já fiz diversas novelas e nunca vi tanta diversidade como agora’
No ar como Lívia, na novela Amor Perfeito, Lucy Ramos conversa com Marie Claire sobre representatividade, diversidade e carreira. "Defendo lugares, causas e represento outras meninas que têm a esperança de chegar onde eu cheguei"
Por Beatriz Cristina, redação Marie Claire — São Paulo
Lucy Ramos é um rosto muito conhecido pelos telespectadores brasileiros. Modelo e atriz, fez o seu primeiro trabalho na televisão em 2004 e nunca mais parou. Esteve em grandes produções, como Cordel Encantado, Salve Jorge, A Força do Querer e, agora, vive Lívia, em Amor Perfeito.
Na trama, sua personagem é dona do salão de beleza do Grande Hotel Budapeste e é uma das principais referências para as moças da cidade. Papel que ela assume também na vida real, já que o perfil que criou nas redes sociais para dar dicas sobre cabelos crespos e cacheados, o @segundascacheadas, tem quase 30 mil seguidores.
“A biografia dessa conta é ‘mude os fatos, mas não mude o afro’, porque o tempo inteiro nós, pessoas pretas, estamos tentando ser aceitas na sociedade. Então, escolher aceitar o próprio cabelo e não moldá-lo de acordo com os padrões é uma forma de resistir a isso”, diz em entrevista ao Papo de Beleza, da Marie Claire.
A conversa na íntegra você acompanha aqui:
MARIE CLAIRE O que você sentiu que mudou na beleza durante o tempo que você tem trabalhado nessa área?
LUCY RAMOS Quando eu comecei a carreira como modelo, eu tive que alisar os fios. Sempre sofri muito, já que o problema na época era o meu volume e eu tenho muito cabelo. Chorava, porque não tinha forças para falar e me defender na época, tinha que aceitar os trabalhos que eram oferecidos. Ainda bem que, hoje em dia, as modelos têm voz para se posicionar. É muito incrível essa evolução. Houve uma mudança gigantesca de valorização, entendimento e respeito em relação às diferenças, mas ainda existe um caminho longo a ser percorrido.
MC No Instagram, você tem o perfil @segundascacheadas. Por que decidiu criar essa conta?
LR Faz muito tempo que tenho essa conta. Criei quando surgiu o boom das cacheadas no YouTube, que compartilhavam dicas e conhecimento sobre cabelos. Muitas meninas pediam para eu falasse sobre o assunto também. Então, criei esse perfil que não é abastecido somente por dicas, mas também conversas e entrevistas sobre esse tema. No início, eu deixava recados todas as segundas-feiras, por isso o nome. Queria que fosse um lugar de acolhimento, que falasse sobre representatividade. A biografia do perfil é ‘mude os fatos, mas não mude o afro’, porque o tempo inteiro nós, pessoas pretas, estamos tentando ser aceitas na sociedade. Então, escolher aceitar o próprio cabelo e não moldá-lo de acordo com os padrões é uma forma de resistir a isso.
MC Acha que estão sendo criados novos padrões de beleza, especialmente quando se fala em cabelo?
LR O importante é você se amar, se respeitar e ser feliz. Eu falo muito isso para as meninas, porque já passamos muito tempo sendo reféns de padrões de beleza. E, hoje, temos acesso à informação, a produtos e a tudo o que está exposto de uma forma acessível. Agora, existem pessoas que dizem que quem é cacheada não pode fazer escova. Claro que pode. A ideia é ser livre e fazer o que quiser, usar qualquer tipo de cabelo. Cacheado, liso, lace, colorido... A ideia é ter esse fortalecimento para que você se sinta bem da maneira que quiser.
MC Já passou pela transição capilar?
LR Eu passei por várias transições. Já fiz diferentes tipos de procedimentos para diminuir o volume e alisar o cabelo, principalmente na adolescência e no começo da carreira. Também já tive corte químico por aplicar uma química por cima da outra. Hoje, não faço nada. No máximo, vou aos salões para fazer algum tratamento.
MC A Lívia, sua personagem em Amor Perfeito, é dona de um salão de cabeleireiro e tem a produção de beleza inspirada nos anos 1940, década que a novela retrata. Como foi o processo de caracterização?
LR Eu faço sempre o mesmo penteado. Foram três dias de testes de caracterização para definirmos como ele seria. E descobrimos um caminho para fazer o cabelo de uma forma mais rápida. Antes, fazíamos ele em uma hora e, agora, em vinte minutos está pronto. Porque novela é isso, você tem que agilizar o processo de maquiagem, figurino e cabelo para dar tempo de gravar. E é muito legal, porque a Lívia, por ser dona de um salão de beleza, é referência na cidade. Então, se você reparar, vai perceber outras personagens usando o mesmo penteado que o dela. Estamos trazendo toda a textura capilar que foi escondida naquelas décadas, respeitando todos os tipos de fio, com tranças, cachos e crespos.
MC A sua personagem também sofre em um relacionamento tóxico. Como tem encarado esse papel?
LR É um tema difícil para tratar, estou abordando com muita sensibilidade e cuidado. A novela está mostrando que o relacionamento tóxico não está só na agressão física, mas também na violência psicológica. Eu nunca passei por isso na vida, ainda bem, mas tenho lido muito sobre o assunto e estudado, para transmitir o que a personagem vive. E a televisão dá muita visibilidade, é importante tratarmos desses temas. Fico torcendo muito para que a gente termine essa história de uma forma muito positiva, trazendo esperança para quem está acompanhando.
MC Hoje, você é uma das principais atrizes negras da TV. Como se sente nesse lugar?
LR É uma conquista diária se manter nessa profissão de forma consciente. Saber que eu não estou ali só por mim. Defendo lugares, causas e represento outras meninas que têm a esperança de chegar onde eu cheguei. E não é um peso, porque fico feliz quando saio de casa e sou abordada na rua por pessoas que me contam sobre como eu ajudei e inspirei, mesmo sem saber. Também penso que não é só porque estou há anos no mercado, trabalhando como atriz, que terei oportunidades a todo momento. Por isso, sempre penso em maneiras de estar presente.
MC Acha que as coisas têm mudado? Você tem encontrado mais diversidade no seu dia a dia de trabalho?
LR Já fiz diversas novelas e nunca vi tanta diversidade como agora, especialmente em Amor Perfeito. Fico feliz que estamos nesse processo. Temos muitas mulheres na produção, duas diretoras, inclusive uma que é pretinha também, que até então eu não tinha visto. Nas produções em geral, eu tenho visto também. Quando não vejo, sinto falta. Quando tem, comemoro, porque é uma conquista mesmo. Só quem vive, convive e é, sabe da importância de ter um olhar sensível para isso.









