Magreza extrema, cabelos lisos, rostos iguais. Os padrões estéticos voltaram à estaca zero?
Movimentos para a libertação das referências estéticas como body positive e body neutrality e discussões sobre a importância da autoaceitação cresceram vertiginosamente nos últimos tempos. Mas por que hoje temos a sensação de estarmos regredindo?
Por Juliana Picanço, redação Marie Claire — São Paulo
Reeducar o olhar no que diz respeito a padrões estéticos é um caminho trabalhoso, que exige mudanças profundas, reinterpretação de referências e ajuste de modelos. Pede também por um mergulho coletivo, envolvendo as diversas pontas da sociedade. É por isso que mudar conceitos sobre o tamanho da silhueta, as texturas do cabelo, a cor da pele e os contornos do rosto é desafiador.
Mas movimentos e ferramentas importantes levaram essa conversa a novos e positivos caminhos. Isso não significa que ele seja progressivo sempre - e a sensação de um passo para frente e dois para trás fica no ar. Para entender o fluxo dos tempos, as interferências socioculturais e quanto as mudanças se consolidaram de fato, convidamos um grupo de especialistas para essa discussão.
Um dos pontos que mais ameaçam essa evolução é o fluxo de tendências. Com a volta da estética dos anos 2000, o desejo por uma magreza inatingível para a maioria de nós tem se intensificado. Modelos esguias vestindo calças de cintura baixa voltaram a se tornar referência de estilo, reforçando padrões que podem ser alienantes e prejudiciais à autoestima.
Em um cenário em que a indústria farmacêutica se entrelaça com os padrões de beleza, um laboratório emerge como figura central, redefinindo as regras do jogo. Ao transformar um medicamento destinado a tratar diabetes, Ozempic, em um ícone de perda de peso, a Novo Nordisk não apenas conquistou o posto de empresa mais valiosa da Europa, mas também desbancou gigantes da moda como a LVMH, maior varejista de luxo do mundo, detentora de marcas como Louis Vuitton e Dior. Assim, o que era para ser uma solução médica transformou-se em commodity estético, agravando o já complexo cenário da pressão visual.
O prejuízo se estende para muito além das questões ligadas ao peso. Depois de um potente movimento a favor da transição capilar, os cabelos alisados voltam a aparecer como alternativa aos fios naturais. Além disso, o Brasil é hoje campeão de procedimentos no rosto e o segundo país que mais realiza intervenções cirúrgicas no planeta, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.
No entanto, durante a pandemia, a rotina de isolamento social e a possibilidade (para alguns) de ficar em casa mudaram não só os aspectos práticos da vida, mas também a autoestima e a maneira de as pessoas lidarem com seus corpos. Movimentos como body positive e body neutrality, por exemplo, ganharam e vêm ganhando cada vez mais força. Por que, então, diante de um momento em que tanto se fala sobre a libertação dos padrões estéticos, ainda há a sensação de estarmos voltando para a estaca zero?
Não há discussão no mercado da moda que não seja oportunidade de vender mais
"Nunca chegamos à aceitação, ela chegou por meio do marketing. Nunca houve uma verdadeira discussão de diversidade no mercado de moda que não fosse uma oportunidade de vender mais através de uma comunicação", explica Iza Dezon, CEO da DEZON e idealizadora do podcast Ciao, Bella. "O que acontece é que a mídia se adequou às mensagens que estavam sobressaindo. A sensação de estarmos voltando para trás vem do fato de que tudo foi construído de forma superficial - sem desmerecer, claro, as grandes mulheres por trás dos movimentos de aceitação. No entanto, é importante entender que é uma luta constante", diz.
Apesar das ações afirmativas, a psicanalista Joana Vilhena Novaes acredita que o desejo de atingir uma aparência específica nunca deixou de ser pauta. "Não deixamos de ser uma sociedade do espetáculo, muito pelo contrário. Em uma sociedade em rede, isso só se amplificou. A economia do consumo, movimentada pela demanda da insatisfação, gera um padrão que estimula as pessoas a voltarem a emagrecer. Porém, diferentemente do que ocorria no passado, quando não existiam ações afirmativas, hoje já temos grupos que apontam o efeito nefasto que isso causa. Por isso, não é sempre igual. Os movimentos históricos são cíclicos, mas eles são sempre repaginados", diz.
Fato é que a pressão estética e a busca pelo corpo perfeito são questões pungentes para a grande maioria das mulheres. O peso na autoestima feminina não tem época, temporada ou estação. A mulher não quer aceitar o fato de não estar no padrão, de não estar à altura daquilo que a mídia diz para ela que é belo, bonito, certo", diz Dezon.
De volta às passarelas: Y2K
Camisa baby look, microssaias e jeans de cintura baixa. A moda dos anos 2000 retorna reacendendo uma conversa complexa sobre os ideais estéticos que permeiam nossa sociedade. O movimento não é uma surpresa para muitos estudiosos do ramo e pode ser atribuído ao fato de que a tendência reflete a nostalgia daqueles que, hoje, estão no poder. Ou seja, a geração atual tem uma visão romântica das memórias de infância e deseja resgatá-las.
Dezon reforça que transformações concretas precisam mobilizar toda a cadeia do mercado da moda. "Para termos mudanças efetivas, precisa existir uma transformação em todo o sistema. A inovação, em muitos casos, começa no RH. Vejo no retorno dessa estética um mercado que nunca conseguiu realmente evoluir de forma profunda", diz. Ela lembra que tendências são cíclicas e que ao viver esses retornos somos impactados pelo contexto histórico em que estamos inseridos. Quando vivemos momentos de tensão, surge o desejo pelo nostálgico, pelo resgate de algo conhecido, seguro, familiar.
Quando pensamos na evolução das tendências de beleza, um dos pontos que mais chamam atenção é a valorização dos fios naturais. Ao longo dos anos, as mulheres de cabelos crespos, negras em sua maioria, abraçaram e aceitaram a curvatura natural dos seus fios, abandonando o alisamento e passando pela transição capilar. Essa mudança influenciou não só o resultado estético e os processos de reafirmação como representou a abertura de um dos nichos mais potentes do mercado cosmético, que até então tratava todos os tipos de curvatura de maneira pasteurizada.
Porém, depois de anos de revalidação e valorização do cabelo natural, a força da estética Y2K chega trazendo um movimento contrário, com mulheres deixando os crespos de lado e aderindo ao alisamento. "Acredito que muito do fato de as pessoas estarem alisando o cabelo seja também porque muitas delas começaram a transição capilar de forma romantizada. Não é um processo fácil, principalmente porque envolve sofrer algumas intercorrências de racismo que antes essas pessoas não tinham por usarem os fios li-sos. Por isso, nem todo mundo consegue chegar até o final", explica a advogada e autora do Projeto Crespo, Sara Eugênia.
Apesar de a valorização dos cabelos naturais ter aumentado, com mais cosméticos específicos nas gôndolas e com um número relevante de influenciadoras e personalidades com cabelo cacheado ou crespo falando sobre o tema, essa aceitação nunca foi total. Sobretudo as mulheres com cabelos crespos, com curvatura do tipo 4, ainda enfrentam desafios relacionados à aceitação no ambiente corporati-vo, reflexo do racismo inerente à nossa sociedade. "Muitas vezes, no trabalho, mulheres perdem propostas de emprego porque aparecem na entrevista com o cabelo natural", diz Sara.
"Durante a pandemia, a quantidade de pessoas que passaram por transição capilar foi muito grande. Isso porque havia tempo para reproduzir e testar os vários tutoriais de internet", aponta a historiadora e expert em cachos e crespos Paula Silva. Ela conta que a imposição do cacho perfeito pelo mercado também contribui para que as pessoas desistam de assumir os fios naturais.
"O que está na moda não é o cabelo natural, crespo, cacheado. Mas sim o cacho perfeito, definido, sem volume, sem frizz - impossível de ser alcançado, porque o cabelo natural não é assim. Por isso é impossível não relacionar esse movimento ao mercado. Um dos setores que mais cresceram durante a pandemia foi o de produtos de beleza. Não é à toa, então, que tenha existido um incentivo aos padrões perfeitos de cabelos cacheados que só são alcançados com vários tipos de cremes", pontua.
Mais uma vez, o ciclo das tendências se apresenta implacável. "Mesmo que hoje, graças aos movimentos do passado, como o Black is Beautiful na década de 1970, nós tenhamos mais mulheres que aceitam seus cabelos, o racismo sempre encontra um jeito de não deixar isso acontecer. A partir do momento em que eu não só não tenho mais tanto tempo para me dedicar ao meu cabelo, mas também passo a conviver mais em sociedade e, consequentemente, a sofrer mais as micro agressões de racismo, eu posso romper com todo o processo de transição", diz Sara.
Rostos padronizados
Em uma era de exaltação aos influenciadores digitais, a harmonização facial de figuras públicas se tornou referência de beleza, com procedimentos que prometem realçar a simetria e prolongar a juventude. O movimento evidencia uma nova dinâmica na relação entre a sociedade e suas aspirações estéticas, moldadas pelo fascínio constante pela aparência de quem está nos holofotes.
"A padronização está muito atrelada ao tipo de conteúdo que consumimos. A cobrança estética em cima da mulher atua em todos os pontos. No cabelo, na sobrancelha, na unha, na depilação. Quando passamos o tempo todo nos comparando a outras figuras cujo trabalho é ser esteticamente de certa forma, isso toca numa responsabilidade coletiva sobre como disseminamos informação. O que vendemos como desejável? O que esperamos como padrão feminino?", questiona Dezon.
Envelhecer com uma pele viçosa, ter um rosto mais simétrico, fazer pequenas correções no nariz, suavizar rugas e marcas de expressão são algumas das queixas das pessoas que fazem harmonização facial. Mas os resultados, muitas vezes, vão para além de pequenos ajustes. De acordo com a última pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a busca por procedimentos estéticos no Brasil aumentou 390% somente no primeiro trimestre de 2022.
"Não existe uma fórmula para a harmonização facial, as características de cada pessoa precisam ser respeitadas para evitar padronização e exageros", explica a cirurgiã plástica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, doutora Martha Katayama. “No entanto,em mulheres mais jovens, são comuns as queixas sobre lábios e sobrancelhas. Já em mulheres com mais idade, as queixas giram em torno da flacidez e da perda de sustentação da face e pescoço", conta.
O peso na autoestima feminina não tem época, temporada ou estação
O apelo da harmonização facial reside não apenas no desejo de alcançar uma estética idealizada, mas também na influência complexa da cultura das celebridades na definição dos padrões de beleza. À medida que avançamos, é fundamental equilibrar a aspiração por melhorias estéticas com a celebração da autenticidade, lembrando que a verdadeira beleza vai além das transformações faciais e está na aceitação e no amor-próprio.
"O mercado de beleza é uma indústria construída em demandas de padrões inatingíveis até pela natureza das pessoas escolhidas para serem porta-vozes", diz Dezon. "Nós passamos por uma transformação na qual agregamos essa comunicação a uma série de pessoas reais que se profissionalizaram e se tornaram também fora do alcance para muita gente. Hoje, eu não posso olhar para uma influenciadora e me colocar no lugar dela, porque ela tem pessoas arrumando seu cabelo, tirando fotos, editando conteúdo. Ela é paga para usar produtos, para ir ao cabeleireiro. É outra realidade", conclui Dezon.









