Sarah Aline: 'A beleza de mulheres negras sempre foi ignorada. Mas estávamos presentes'
Em mais um Papo de Beleza Marie Claire, Sarah Aline se mostra ainda mais convicta sobre o seu compromisso de dar luz à diversidade
Por Beatriz Cristina, Redação Marie Claire — São Paulo
Antes mesmo de passar pelo Big Brother Brasil 23, Sarah Aline já destacava a importância da diversidade em seus discursos. Formada em psicologia, trabalhou por anos em ambientes organizacionais com o objetivo de promover culturas inclusivas nas empresas e ampliar oportunidades para mais pessoas.
“Meu maior sonho sempre foi e sempre vai ser o de preparar espaço para que pessoas negras possam viver com qualidade de vida e ter experiências humanizadas”, ressalta.
Durante a conversa deste Papo de Beleza, Sarah também fala sobre autocuidado, saúde mental, sua relação com o próprio corpo e planos para o futuro. Leia na íntegra:
PAPO DE BELEZA
MARIE CLAIRE Como é a sua relação com a beleza hoje em dia?
SARAH ALINE Acho que a minha relação com a beleza, hoje em dia, fala muito sobre a construção da minha identidade. Durante a adolescência, me fizeram acreditar que não existia beleza em corpos como o meu. Tive que silenciar essas vozes sociais para amadurecer. E conforme fui amadurecendo, entendi que a beleza está muito relacionada a minha história e parei de acreditar em mentiras contadas sobre a minha pele e o meu corpo. Isso me impulsionou a me amar mais e, por consequência, a cuidar mais de mim.
MC E como era na sua infância?
SA Eu não era muito vaidosa, porque não tinha tanta paciência. Gostava mais de me divertir. Mas quando eu focava na beleza, gostava de escolher as minhas personalidades, vamos dizer assim. Eu me aplicava muito, então não gostar de mim ou do meu corpo não era uma questão.
MC Ao longo dos últimos anos, tem percebido mudanças em relação a diversidade na beleza?
SA Conforme fui crescendo, notei dois pontos. O primeiro é que tanto pela ausência de representatividade, quanto pelos padrões de estética, eu me questionei por muito tempo sobre a minha beleza. E isso me leva ao ponto dois. A partir do momento em que comecei a consumir mais produtos que “me mostravam”, que, enfim, tinham relação com a minha pele, criar referências e seguir mais mulheres que eram semelhantes a mim, foi que eu passei a entender que essa ruptura de um padrão social talvez me fizesse sentir bem comigo mesma e com a minha identidade. Isso foi muito importante para que eu percebesse a beleza de outra forma. Hoje, a indústria tem apostado não só em diversidade nas campanhas, mas também no desenvolvimento de produtos específicos para a pele negra, por exemplo. Com cosméticos feitos para serem consumidos com segurança.
MC Hoje em dia você estrela campanhas e é convidada para integrar equipes importantes de comunicadores de beleza, como agora, parte do time brasileiro de La Roche-Posay que foi até a França conhecer mais profundamdente a marca. Você se imaginava neste lugar? O quão importante tem sido esse aprendizado?
SA A La Roche-Posay é uma marca muito aliada com o meu discurso. Poder ter ido à Paris para conhecer os laboratórios me fez conhecer uma parte que talvez, como consumidora, eu não conheceria. Vi de perto como são feitos os processos de estudos para os lançamentos. Ver que a construção do cuidado com a pele pode, de fato, transformar vidas me fez pensar sobre muitos momentos da minha infância, na minha mãe, nas minhas tias. Porque o autocuidado aumenta a qualidade de vida e autoestima. E é muito importante ver que uma marca grande tem olhado cada vez mais para produtos que levem em consideração as variedades das peles, com segurança e assistência. Espero que eles cheguem nas casas de mulheres negras que possam consumi-los. Nós sabemos que quando se fala sobre consumo no Brasil também se fala sobre desigualdade e inacessibilidade. Espero que a minha presença nesses locais me ajude a poder partilhar maneiras para que seja possível fazer com que os cosméticos cheguem em mais lugares com mais pessoas que me representam e com quem eu me identifico socialmente.
MC Hoje em dia, você trabalha muito com as redes sociais. Depois do BBB, você ganhou diversos seguidores e, hoje, conta com mais de um milhão. Como é essa troca com o seu público?
SA Meu público é um presente. É muito gratificante poder contar com todas essas pessoas que continuam me acompanhando mesmo depois do programa, porque se conectaram comigo de alguma forma.
MC Já sofreu hate? Como você lida com as revoltas da internet?
SA Não passei por isso. Talvez na época do Big Brother eu tenha recebido hate, mas acho que estava muito ligado a discordâncias com as minhas atitudes dentro do jogo. Hoje, não percebo muito. Claro que sei que não consigo agradar a todos, mas a comunidade que me acompanha está ali, porque gosta de consumir o meu conteúdo.
MC O que você faz para cuidar da saúde mental? Sua formação em psicologia te ajuda nesses momentos?
SA Sim, eu sou psicóloga e, claro, também tenho a minha psicóloga. São construções diferentes de relação, mas tenho percebido um movimento na internet para falar sobre saúde mental. Isso aumentou bastante, especialmente no período pós pandêmico. Ao mesmo tempo, esse é um espaço que pode ser violento. Então, é preciso ter cautela. Como eu trabalho com internet, sei que é um ambiente que pode gerar angústias e inseguranças. Mas também sei a minha responsabilidade quanto a isso, humanizar esse processo é algo que tento fazer nas minhas redes sociais. No dia a dia, quando não me sinto bem, vou para a terapia e fico off por um tempo para que fique tudo bem.
MC Você tem percebido que as mulheres pretas estão mais em busca de autocuidado?
SA Eu não sei se eu saberia falar por todas. Mas, nós, mulheres negras, sempre quisemos falar sobre a maneira como a nossa cultura diz sobre a nossa identidade e, por consequência, sobre beleza. Durante muito tempo, os modelos de beleza de mulheres negras foram ignorados pela sociedade. Mas sempre estivemos presentes. No Brasil, há um movimento muito interessante de mulheres negras começarem a se ver mais nesse lugar de serem merecedoras de beleza, com amplo acesso para que haja empoderamento nesse quesito. Não acho que ele era inexistente, mas talvez a sociedade esteja olhando para isso agora e nos permitindo ser belas sem destruir a nossa saúde mental.
MC Como é a sua relação com o seu cabelo? Viveu diferentes fases? Passou por transição capilar?
SA Passei. Eu tinha o costume de alisar o cabelo com a minha mãe. Só consegui passar pela transição capilar por conta das tranças. Eu tive muita dificuldade, lembro que tive que cortar meu cabelo bem curtinho para tirar a química. Foi a melhor escolha que fiz, inclusive, mas foi muito difícil de encarar isso na época. Eu era adolescente, só ia para a escola de cabelo preso. Aí comecei a ver minha irmã mais velha usando tranças e adotei também. Foi um resgate de identidade, na verdade, porque fazíamos muitas trancinhas quando éramos crianças. Minha principal fase para recuperar a autoestima foi durante a transição, porque comecei a acessar a beleza através da nossa cultura. Passei a entender o quanto as tranças não são só sobre o belo, mas também sobre história. Foi aí que comecei a me entender como mulher negra na sociedade. Ver beleza em mim mesma foi um alívio. Fiquei longos anos usando meu cabelo assim. Ainda gosto e faço bastante, mas meu cabelo natural já não é um problema para mim e nunca mais será, porque é sobre a minha personalidade e eu entendo isso hoje.
MC Você usa diversos estilos de tranças. Como escolhe qual estilo vai adotar em cada momento?
SA Tenho o privilégio de ter a Esther Uduji como trancista. Ela sabe muito sobre atualidades quando se fala sobre variedade de tranças e cabelos para colocar nelas. Sempre que ela faz um modelo novo em mim, fico apaixonada. Mas também levo minhas referências, busco inspirações na internet.
MC No BBB, muitos comentários diziam que suas tranças duraram um bom tempo. Tem algum segredo?
SA Elas duraram por 107 dias. Retoquei só a raiz para fazer a gravação da final. Como falei, fiquei um bom tempo usando tranças, durante a minha transição. Então, eu sei que para elas durarem, precisam ser produzidas com um material de alta qualidade, feitas por um bom profissional. Além disso, sempre soube como cuidar delas para mantê-las por um bom tempo. A quantidade certa de lavagens, a importância de separar os fios. Tudo isso, em conjunto, contribuiu para que elas ficassem bonitas por tantos dias, mesmo com as provas de resistência e tudo.
MC Quais são seus planos para o futuro?
SA Eu tenho muitos, gosto muito de sonhar. Mas meu maior sonho sempre foi e sempre vai ser o de preparar espaço para que pessoas negras possam viver com qualidade de vida e ter experiências humanizadas. E se o meu trabalho me possibilitar isso, vou estar muito feliz.









