Desodorante natural ou industrializado: existe vilão e mocinho nessa história?
Com o crescimento consistente da indústria cosmética que preza por ingredientes naturais, os desodorantes e antitranspirantes foram colocados em xeque. Afinal, alguns dos ativos clássicos levantam polêmicas com poucas respostas. Aqui, explicamos os prós, os contras e as nuances entre eles
Por Gui Takahashi, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)
Manter as axilas frescas e cheirosas é um ritual diário para muitas pessoas, mas a escolha entre um desodorante e um antitranspirante, natural ou industrializado, levanta um mar de dúvidas. Afinal, alguns ingredientes recorrentes nesses cosméticos são polêmicos e chegaram até a ser ligados à ideia de poderem causarem câncer.
“Essa é uma discussão antiga e que, até hoje, gera muitas dúvidas. O que podemos afirmar é que existem estudos levantando hipóteses sobre possíveis efeitos negativos de certos ingredientes, como os sais de alumínio e os parabenos, mas a maioria dessas pesquisas não são conclusivas ou apresentam limitações metodológicas”, diz Maria Eugenia Ayres, farmacêutica e gestora farma da Biotec. E segundo ela, até o momento, não há consenso científico ou evidência robusta que comprove, por exemplo, que o uso de antitranspirantes convencionais cause doenças tão graves como os tumores malignos.
Mesmo assim, a disputa entre desodorantes naturais e industrializados ou antitranspirantes não é preto no branco. Existem nuances importantes de serem avaliadas. Mergulhamos nesse universo com a expertise de dermatologistas e outros especialistas, desvendando os mitos e fatos por trás desses produtos cotidianos.
Desodorante e antitranspirante: entenda a diferença
Antes de tudo, é crucial saber diferenciar esses dois produtos. Como explica a Caroline Romanelli, dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia - Regional São Paulo (SBD-RESP), "o desodorante usa fragrâncias e substâncias antibacterianas para mascarar e neutralizar o odor causado pelas bactérias que se proliferam nas axilas". Ele age no cheiro, combatendo esses microorganismos que o produzem. Já os antitranspirantes, por sua vez, têm uma proposta diferente: "Eles reduzem a quantidade de suor produzida pelas glândulas sudoríparas", complementa Romanelli. Eles contêm ingredientes, como os sais de alumínio, que formam uma barreira temporária nos poros das glândulas, evitando a liberação do suor e, consequentemente, do mau odor.
Lilian Brasileiro, dermatologista membro da SBD, coordenadora e palestrante do Congresso Brasileiro de Dermatologia, Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica e Medical Technology Congress, reforça essa diferença de eficácia: "Se a necessidade é controlar o suor excessivo, os antitranspirantes tradicionais funcionam melhor. Desodorantes naturais são alternativas para quem prioriza fórmulas mais simples, mesmo com menor eficácia antissuor ".
Ingredientes polêmicos: mitos, verdades e incertezas
Parabenos, alumínio, triclosan, propilenoglicol... A lista de ingredientes polêmicos nos cosméticos antiodor industrializados e que geram debate é grande. Mas o que a ciência, de fato, diz sobre eles? Muitas pesquisas acerca desses ativos ainda são inconclusivas. Outro fato que colabora para a falta de resposta definitiva é que alguns ingredientes dependem da concentração para terem efeitos danosos.
Alumínio: É o ingrediente-chave nos antitranspirantes, responsável por bloquear temporariamente os poros das glândulas sudoríparas. Ayres explica o motivo da polêmica ao redor do ingrediente. "Há estudos associando o acúmulo de alumínio no organismo a riscos neurológicos, como o Alzheimer, além de uma possível ligação com o câncer de mama devido à aplicação contínua na região axilar. A absorção pela pele ainda é debatida, mas há consenso sobre a necessidade de mais estudos independentes sobre segurança a longo prazo", diz.
Tanto Caroline Romanelli quanto Lilian Brasileiro confirmam que as evidências atuais ainda não são conclusivas. “Muitos estudos são observacionais ou com metodologia limitada”, aponta Romanelli. “A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estabelece um limite de 15% de cloridrato de alumínio nos desodorantes antitranspirantes, e muitos estudos até agora apontam que o uso de alumínio em desodorantes é seguro”, completa a médica.
Já Brasileiro fala: "Revisões sistemáticas e estudos populacionais não confirmaram a associação entre o alumínio e o câncer de mama”. A dermatologista também esclarece que os antitranspirantes agem nas glândulas sudoríparas e não nas sebáceas, e o bloqueio é temporário e reversível, sem riscos de problemas dermatológicos relevantes.
Parabenos: Utilizados como conservantes, os parabenos são alvo de preocupação por serem facilmente absorvidos pela pele e terem estrutura química semelhante ao estrogênio, o que levanta preocupações sobre sua possível ação como disruptores hormonais, como explica Ayres. “Estudos apontaram a presença desse ativo em tecidos mamários e associaram sua exposição a alterações hormonais, puberdade precoce e possíveis efeitos reprodutivos. Embora a indústria alegue que os níveis usados são seguros, muitos profissionais da saúde preferem evitá-los, principalmente em produtos de uso diário e prolongado, como os desodorantes”, pondera.
Em contrapartida, Lilian Brasileiro afirma que, em concentrações cosméticas, "não há evidências de que causem efeitos hormonais significativos" e que são amplamente regulamentados. Romanelli fala que a evidência científica que conecta os parabenos a problemas de saúde é limitada e frequentemente contestada.
Triclosan: Este antimicrobiano já foi banido em alguns países devido a preocupações com resistência bacteriana e possíveis efeitos endócrinos, além de poder alterar a microbiota da pele, segundo Maria Eugenia Ayres. No Brasil, seu uso tem sido cada vez mais raro nas formulações
Propilenoglicol: Embora aprovado para uso cosmético, pode causar irritações em peles sensíveis, sobretudo com o uso contínuo e aplicação perto de mucosas. No entanto, não é considerado um tóxico sistêmico.
Fragrância: prazer com precaução
Se por um lado elas são as queridinhas que dão aquele toque especial aos produtos, por outro, também são uma das principais causas de alergias e sensibilizações da pele. Caroline Romanelli alerta que "as fragrâncias podem ser irritantes ou alergênicas para algumas pessoas mais sensíveis". Ayres detalha que isso ocorre porque as fragrâncias são "compostas por dezenas de substâncias aromáticas, muitas delas com potencial alergênico".
As fragrâncias não são exclusivas dos desodorantes e antitranspirantes industrializados. Alguns produtos tidos como naturais podem contê-las também.
Para peles sensíveis ou alérgicas, Lilian Brasileiro recomenda optar por produtos "sem fragrância" ou "hipoalergênicos". A boa notícia, porém, é que o setor de manipulados já oferece essências livres de alergênicos, segundo Ayres, devidamente certificado, o que as torna opções seguras para pessoas com dermatites ou histórico de sensibilização.
Óleos essenciais: natural, mas nem sempre inocente
Eles ganharam os holofotes nos últimos anos, principalmente com o crescimento dos cosméticos com menos ingredientes sintéticos. Eles costumam estar presentes em receitas caseiras e em formulações de desodorantes tidos como mais naturais. Mas a crença de que "natural" equivale a "seguro" pode ser um engano. Romanelli adverte que "embora os óleos essenciais sejam frequentemente considerados naturais e mais seguros, eles também podem ser irritativos, sensibilizantes ou causar reações alérgicas, especialmente em concentrações elevadas". Ayres complementa que alguns componentes presentes em óleos essenciais, como limoneno e linalol, são reconhecidos como potenciais alérgenos.
Além disso, a questão dos disruptores endócrinos também chama a atenção. Brasileiro e Ayres mencionam estudos que sugerem que óleos essenciais como de lavanda e tea tree podem ter uma leve atividade hormonal, embora não haja comprovação definitiva em humanos nas concentrações cosméticas usuais. A recomendação é sempre usar óleos essenciais diluídos em óleos vegetais e em concentrações seguras, com orientação especializada, sobretudo para gestantes, crianças e pessoas com pele sensível.
Microbiota da pele: uma orquestra essencial
As axilas abrigam uma complexa comunidade de microrganismos, a chamada microbiota. Nilton Lincopan, Professor do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, explica que essa flora bacteriana desempenha funções importantíssimas, como "barreira natural contra microrganismos nocivos, equilíbrio fisiológico como pH e umidade e produção de antibióticos naturais". Porém, algumas bactérias como Staphylococcus hominis e Corynebacterium tuberculostearicum são grandes contribuintes para o mau odor das axilas, por exemplo.
O professor afirma que as bactérias e por consequência, o odor corporal, pode sofrer alterações de acordo com a nossa alimentação, infecções, doenças metabólicas como a diabetes, alterações hormonais como durante a puberdade, tratamentos com antimicrobianos, dentre outros fatores.
Assim, quando desodorantes agem inibindo a proliferação bacteriana, o equilíbrio dessa microbiota pode ser alterado. Lincopan aponta que o uso de alguns antimicrobianos em desodorantes, como o triclosan, podem levar a problemas como resistência bacteriana e desequilíbrio da flora, favorecendo o crescimento de bactérias nocivas ou até mesmo podendo levar a infecções fúngicas. Ele ressalta que os resíduos desses cosméticos liberados no esgoto comunitário também levantam preocupações: “Atualmente não sabemos o impacto ambiental uma vez que sua atividade antimicrobiana permanece ativa no meio ambiente com possíveis consequências, podendo até acabar com a microbiota vital para um determinado ecossistema”.
Desodorantes naturais: uma alternativa?
Para quem busca uma abordagem com menos compostos químicos polêmicos, sintéticos, os desodorantes naturais surgem como opção. Maria Eugenia Ayres explica que eles "não atuam como antitranspirantes, ou seja, não bloqueiam o suor. Eles agem principalmente inibindo o crescimento das bactérias que causam o mau odor e/ou neutralizando os odores através de ativos como bicarbonato de sódio, citrato de prata, magnésio, óleos essenciais com ação antimicrobiana e até prebióticos".
A eficácia desses produtos pode variar, mas quando bem formulados, podem ser uma alternativa viável, especialmente para quem busca uma rotina de cuidados mais natural e não tem um suor excessivo que necessite de bloqueio. Somado a isso, também tem sido crescente o número de desodorantes e antitranspirantes que, mesmo industrializados, vêm sendo reformulados para não terem mais alguns ingredientes controversos como parabenos e triclosan.
A escolha é sua, com informação
A discussão sobre desodorantes e antitranspirantes, sejam eles naturais ou industrializados, é complexa e multifacetada. É fundamental que você esteja bem informadas para fazer escolhas conscientes, priorizando suas necessidades individuais, sensibilidades e a segurança dos produtos. Munida de informações confiáveis, dá para tomar decisões mais conscientes sobre os riscos potenciais envolvidos. Consultar um dermatologista é também uma boa estratégia para sanar dúvidas e encontrar o produto ideal para a sua pele. No fim das contas, o importante é sentir-se bem e protegida, com a certeza de que a beleza e o bem-estar caminham juntos.









