Kris Jenner e a estética do inverossímil: como a possibilidade de eternizar a juventude nos afeta?
Com a evolução da medicina cosmética, a passagem do tempo tem sido registrada de maneira diferente nos rostos de quem tem acesso aos procedimentos estéticos de ponta. E isso pode nos atingir como sociedade e como indivíduos de diversas maneiras
Por Gui Takahashi, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)
Recentemente, começaram a circular nas redes sociais fotos e vídeos da empresária norte-americana Kris Jenner, matriarca do clã Kardashian-Jenner. O motivo? Não foi nenhum escândalo familiar, mas sim sua nova aparência. Com uma combinação de procedimentos estéticos e cirurgias plásticas, Kris, de 69 anos, surgiu em frente às câmeras na França parecendo 30 anos mais jovem e com uma fisionomia que beirava o inverossímil: pele lisa, com boa textura, firmeza aparente, contornos definidos e simétricos - quase nenhum vestígio da passagem do tempo
Imediatamente médicos e profissionais de diversas especialidades, como dermatologistas e cirurgiões plásticos, esteticistas, começaram a comentar e dissecar quais as possíveis intervenções feitas pela mãe de Kim Kardashian. No entanto, para além do escrutínio dos procedimentos, é quase impossível não pensar no que uma aparência de várias décadas a menos pode significar socialmente para mulheres. Para além das fofocas de tabloide, a transformação da matriarca evidencia uma questão muito mais profunda: a impossibilidade de uma mulher envelhecer em paz.
Na contemporaneidade, o envelhecimento tornou-se um inimigo abstrato a ser combatido, e não mais um percurso a ser trilhado com sabedoria. No caso das mulheres, essa batalha é ainda mais violenta. "Já vivemos esse imperativo de que é proibido envelhecer", explica a psicóloga Joana Vilhena de Novaes, professora do programa de pós-graduação em psicanálise, saúde e sociedade da Universidade Veiga de Almeida. e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. “Estamos imersos em uma lógica neoliberal que exige não apenas produtividade contínua, mas também aparência compatível com essa performance”, diz. Envelhecer, portanto, significa não produzir mais no ritmo esperado da sociedade.
A juventude, então, converte-se em capital — um ativo estético, erótico e simbólico que, para as mulheres, ainda representa aceitação social, espaço, empregabilidade e poder de escolha de oportunidades a parceiros amorosos. Não é apenas vaidade, pode se tornar até sobrevivência. “A beleza, enquanto moeda de troca, ainda regula os acessos femininos a praticamente todos os espaços de sociabilidade. Desde o mercado de trabalho até os afetivos”, afirma Joana. “Não se trata apenas de capital sexual, mas de capital simbólico, de pertencimento. Uma mulher que não adere aos protocolos estéticos da juventude corre o risco da invisibilidade.”
Para a antropóloga e escritora Mirian Goldenberg, o entendimento é o mesmo. "Numa cultura como a brasileira, em que o corpo jovem, bonito, em forma, especialmente para as mulheres, é um capital, envelhecer é uma espécie de morte simbólica." Pesquisadora do tema há mais de 30 anos, Mirian conta que já entrevistou mais de 5 mil mulheres e existe um pânico feminino de envelhecer. "Na nossa cultura, juventude, sexualidade e sensualidade também são hipervalorizadas. Ao envelhecer, as mulheres sentem que deixaram de ser mulher, se tornaram invisíveis, transparentes", fala.
Esse fenômeno, claro, não é novo. Mas ele se intensifica à medida que a medicina estética, a cosmetologia e os recursos tecnológicos prometem — e entregam — resultados cada vez mais radicais. Hoje, uma mulher de 70 anos pode, com acesso aos procedimentos certos, aparentar ter 40. O que antes era exceção se torna expectativa. E ela, como sabemos, é impiedosa com quem não pode ou não quer segui-la.
“O corpo é sempre um corpo de classe”, lembra Joana sobre os poucos indivíduos que têm acesso aos protocolos de rejuvenescimento. “O ideal de beleza é apresentado como universal, mas é alcançável apenas para poucos. O tempo, o dinheiro, o acesso a clínicas de ponta — tudo isso é privilégio. No entanto, o discurso é perverso porque parte de uma falsa premissa de igualdade. Vende-se a ideia de que, se você não está dentro do padrão, é porque não se esforçou o suficiente.” Assim, o corpo feminino se transforma em mercadoria: deve ser cuidado, moldado, rejuvenescido e, acima de tudo, funcional. O envelhecimento se torna um erro a ser corrigido — um desvio da norma.
Mirian explica como esse comportamento de pessoas de classes sociais altas são replicados e afetam a sociedade de modo geral. "Tem um conceito que uso nas minhas pesquisas, que é o de imitação prestigiosa. Em toda e qualquer cultura, homens e mulheres imitam quem tem sucesso, prestígio, poder. Hoje, essas mulheres que estão fazendo todos esses procedimentos para ficarem mais jovens, têm muito impacto." A antropóloga ainda lembra que o Brasil, juntamente com os Estados Unidos, ocupa o topo do ranking de procedimentos estéticos no mundo. "O que isso está provocando? Eu diria que mais sofrimento e mais vergonha, porque por mais que a mulher faça tudo o que a indústria, o mercado e as influenciadoras dizem, ela vai envelhecer. Não tem saída", afirma.
O efeito disso é devastador. As consequências não se limitam às camadas da pele. Transtornos de imagem, compulsões por intervenções, dismorfias corporais, ansiedade, depressão. Joana é enfática ao nomear esse adoecimento como um “sintoma social”. “Quando as pessoas passam a lançar mão de práticas corporais perigosas sem a devida segurança ou motivadas por sofrimento psíquico intenso, estamos diante de um problema coletivo. O avanço das técnicas dermatológicas, por si só, não é um problema. O problema é quando se cria um caldo cultural de intolerância que associa velhice a fracasso, a desvalorização, à exclusão.”
A cultura do anti-aging, nesse sentido, opera como um dispositivo de controle subjetivo. O corpo da mulher é vigiado, avaliado e corrigido em tempo real. E hoje, com as redes sociais como plataforma de visibilidade e performance, essa vigilância tornou-se onipresente. “A internet é o espaço por excelência da normatização. Você encontra diariamente cirurgiões plásticos explicando os procedimentos em vídeos detalhados, influencers promovendo produtos milagrosos, e algoritmos que premiam rostos jovens e corpos magros. Mas também há resistência”, aponta Joana.
De fato, apesar do ambiente de controle, as redes também oferecem possibilidade de ser você mesma, de acordo com a professora e psicóloga. Mulheres maduras que optam por não esconder suas rugas, movimentos feministas que discutem o etarismo, influenciadoras que exibem seus corpos reais — tudo isso constrói narrativas insurgentes no meio digital e que extravasa para o real. “Sempre há rota de fuga. A rede, ao mesmo tempo em que é espaço de vigilância, também é espaço de afirmação. Onde há controle, também há resistência.”
E por que resistir? Porque a positividade em torno do envelhecimento — com seus eufemismos como “melhor idade” e “envelhecer com elegância” — muitas vezes esconde a negação de dimensões legítimas da vida, como a perda, o luto, a doença, o fim. “A velhice nos lembra da morte, e vivemos numa cultura que não quer lidar com isso. Que quer tornar doce, disfarçar, que silencia. Mas não se pode pensar a vida fora da sombra. A ausência de dor, falha ou feiura não é real”, reflete a psicóloga.
O caso Kris Jenner, nesse contexto, é emblemático. É o retrato de um ideal estético que ultrapassa o limite do verossímil. E, paradoxalmente, quanto mais esse ideal se torna possível, mais cruel ele se mostra para quem não pode atingi-lo. Ao transformar o rosto em território de juventude infinita, os procedimentos estéticos acionam um imaginário coletivo que pode transformar o tempo em ameaça — e o corpo feminino, em um campo de batalha silencioso.
A pergunta que fica é: até quando vamos tratar a passagem do tempo como um defeito? Talvez o maior gesto de coragem do nosso tempo seja escolher, de forma consciente, como vamos envelhecer, inclusive, permitindo que o corpo diga a verdade — com marcas, com memória, com história se essa for a decisão. "Sempre digo que nós precisamos tirar os óculos da velhofobia, do pânico de envelhecer e colocar os óculos da velhautonomia e fazer do nosso jeito. Ter coragem, ter autonomia pra decidir e escolher as formas que queremos envelhecer apesar das pressões, que são enormes" diz Mirian.
Aos 69 anos, Kris Jenner ainda aponta tendências. Mas talvez o verdadeiro avanço estético do século XXI seja a liberdade de deixar o tempo passar sem vergonha. De existir, de fato, conforme bem decidirmos, sem rugas ou com elas visíveis, mas sempre de cabeça erguida.









