Beleza fermentada: entenda os benefícios dos cosméticos à base de bactérias
A popularização do uso de pré, pró e pós-bióticos na pele tem sido crescente nos últimos anos. E, agora, a história ganha um novo capítulo com o boom dos cosméticos coreanos fermentados. Explicamos como eles funcionam e quais são os benefícios
Por Gui Takahashi, redação Marie Claire — São Paulo (SP)
Muito antesde se tornarem tendência nos frascos de skincare, as bactérias já intrigavam cientistas. O primeiro registro desses micro-organismos data de 1673, mas só no século 19 Louis Pasteur e Robert Koch mostraram seu papel na disseminação de doenças. Desde então, carregamos a ideia de que elas são vilãs — quando, na verdade, podem ser grandes maiores aliadas. Hoje sabemos que as bactérias não só fazem bem como são fundamentais para funções vitais do corpo, inclusive a saúde (e a beleza) da pele.
“A microbiota humana é aquele grupo de micro-organismos que está habitando os nossos tecidos. A gente constrói ela ao longo dos anos, desde que nascemos”, explica Carla Taddei, professora associada do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e chefe do Laboratório de Microbioma Humano.
A pele é muito mais do que um invólucro: ela funciona como uma barreira sofisticada contra o mundo externo. “Essa proteção tem várias camadas e elementos. Um deles é a microbiota. Ela ajuda a nos proteger de agentes patógenos [causadores de doenças], como outras bactérias e fungos, mas também na manutenção do equilíbrio, evitando doenças, inflamações e irritações”, explica a dermatologista Paola Pomerantzeff.
Mas a defesa não é a única função. Depois da proteção, entra em cena o metabolismo. A microbiota é capaz de degradar substâncias produzidas pelo corpo, como gordura, oleosidade, suor, hormônios e restos celulares. “Isso tudo é metabolizado por essas bactérias que produzem então um metabólito que vai ter efeito de volta no organismo, como a regulação do pH da pele”, detalha a pesquisadora Carla Taddei, da USP.
E os efeitos não param por aí. O intestino, um órgão que parece distante da pele, pode exercer forte impacto sobre ela. A medicina já comprova que a saúde intestinal se reflete no maior órgão do corpo. “Questões intestinais influenciam o estado de inflamação do corpo. Nesse cenário, condições dermatológicas como eczema, dermatite atópica, psoríase e rosácea podem piorar com uma mi- crobiota intestinal ruim”, alerta a dermatologista Ligia Novais.
Diante disso, a indústria cosmética vem usando ativos pré, pró e pós-bióticos para fortalecer essas funções na pele através das bactérias benéficas. A diferença desses ativos é justamente como vão interagir com a microbiota.
Os prebióticos são compostos não metabolizados pelo nosso organismo, como fibras e alguns carboidratos, mas que estimulam o crescimento de bactérias benéficas. “Por estimular essas bactérias boas, atrapalham os micro-organismos ruins, melhorando a barreira cutânea”, fala Pomerantzeff.
Já os probióticos são micro-organismos vivos que, se usados de maneira correta, possibilitam a regulação da flora intestinal e da nossa pele. Dessa forma, podem ser usados tanto via oral como topicamente. “Como o intestino atua como um órgão imunológico e sinaliza para outros órgãos, como a pele, o uso de probióticos pode levar à expressão de citocinas (mediadores da inflamação) e balancear a resposta inflamatória na pele, atuando em doenças como eczema, acne e rosácea”, diz a dermatologista Sylvia Ypiranga. Além disso, os probióticos, de acordo com Pomerantzeff, podem aumentar a resistência da pele.
A professora Carla Taddei ressalta que esse conjunto de micro-organismos é diferente em cada pessoa, quase único. Assim, também não há um consenso sobre uma microbiota “ideal”, em termos de população bacteriana. “A microbiota equilibrada é aquela que vive em harmonia com o hospedeiro, numa situação de eubiose. Mas não dá pra dizer qual é a quantidade de bactérias porque eu posso ter uma e você pode ter outra”, explica.
Por fim, os pós-bióticos são metabólitos, subprodutos gerados pelas bactérias. “Eles podem diminuir inflamações de pele, regulando o sistema imunológico. Também possuem propriedades antioxidantes”, fala Paola Pomerantzeff.
Em linhas gerais, os prebióticos e os probióticos podem ser encontrados em cremes, loções, tônicos e séruns – e também em alimentos e suplementações, como leguminosas, cereais, leite fermentado e iogurte natural. Já os pós-bióticos podem estar presentes em produtos de skincare. Isso se conecta com um capítulo mais recente do mercado, onde o uso de ingredientes fermentados vem ganhando popularidade. E um dos fatores para isso é a atenção que temos dado aos cosméticos coreanos.
A médica dermatologista, Bomi Hong, de origem coreana, mas com formação e atuação no Brasil, explica esse fenômeno: “Os cosméticos que utilizam ingredientes fermentados têm tradição na Coreia, ligado a costumes alimentares e medicinais. O recente avanço científico e tecnológico permitiu que esse método fosse aperfeiçoado”.
“Na fermentação, micro-organismos quebram moléculas de alto peso molecular, aumentando a absorção da pele” Bomi Hong, dermatologista
Hong esclarece em detalhes o que acontece na fermentação e na pele. “Na fermentação, os ingredientes passam pela ação das enzimas dos micro-organismos que quebram as moléculas de alto peso molecu-lar em estruturas de menor peso, aumentando a taxa de absorção pela pele. Isso permite que os nutrientes sejam entregues em profundidade, maximizando os efeitos.” Entre os principais benefícios observados estão: ação antioxidante, melhora da hidratação e função de barreira, atividade anti-inflamatória, ação antimicrobiana e potencial clareador.
De maneira mais específica, Hong cita alguns ativos envolvendo bactérias, fermentação e seus benefícios à pele, como os Lactobacillus e Bifidobacterium para clareamento, hidratação e ação antioxidante; o ácido lático na esfoliação e reparação; o arroz fermentado para luminosidade e ação calmante na pele. Eles são encontrados nos produtos de cuidados básicos com a pele como tônicos, loções, cremes, protetores solares e principalmente séruns.









