'Marcas sem compromissos sérios de sustentabilidade e propósito não vão durar': Laura Parkinson, Diretora da Divisão de Grande Público da L’Oréal no Brasil
Por trás de uma boca pintada pode ter milhares de empregos e até uma autoestima em construção. Parkinson sabe disso e leva seu propósito de democratizar a beleza a sério
Laura Parkinson estava em casa, mas o batom vermelho em seus lábios era um ritual inegociável. Para ela, o gesto simples e poderoso funcionou como uma armadura de autoconfiança no início da pandemia, quando, depois da maternidade e recém-chegada à diretoria de marketing da L’Oréal Paris, precisava se fazer presente em reuniões virtuais. A história, que poderia ser apenas uma lembrança pessoal, revela a essência de sua liderança: a crença no poder da beleza como ferramenta de transformação e empoderamento.
Cinco anos se passaram desde o início da pandemia. Laura soma um total de 17 no Grupo L’Oréal, um deles vivido na França, e algumas promoções. Atualmente é Diretora-Geral de Marcas da Divisão de Grande Público da empresa, que engloba marcas gigantes como L’Oréal Paris, Garnier, Maybelline New York, Niely e Colorama.
Apesar do alto cargo, ela não se resume a planilhas e estratégias. Se define e se move por um propósito: trazer autoestima para a vida das pessoas:
“A beleza tem o poder de fazer você se enxergar de outra maneira. Então, o meu propósito profissional é transformar a vida das pessoas injetando autoestima nelas.”
Formada em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Laura deu seus primeiros passos no mundo corporativo no marketing da S.C. Johnson, indústria de produtos domésticos, onde ficou por mais de quatro anos. Em 2008, o destino a levou para a L’Oréal.
O ponto de virada que moldou seu estilo de liderança não foi uma grande campanha ou um lançamento global, mas sim a experiência de assumir a Niely, uma marca do Rio de Janeiro que foi adquirida pela L’Oréal em 2014. Essa imersão no universo da brasileira foi um divisor de águas. “Aprendi sobre novas consumidoras que representavam toda a diversidade do país e suas diferentes expectativas.”
Esse capítulo também veio com mais integrantes em seu time, o que fez com que ela precisasse adaptar sua liderança, abrir a escuta num trabalho de integração. “Minha visão era absorver tudo que esses novos profissionais traziam de rico e adaptar para a [cultura] L’Oreal”, diz a executiva à frente de uma equipe de cerca de 80 colaboradores, equilibrando visão estratégica e a busca por resultados com a habilidade humana.
Para Laura, o que move as pessoas é a paixão genuína pelo que fazem. Seu papel, como líder, é criar um ambiente que inspire, provoque questionamentos, dê espaço a novas ideias e, acima de tudo, prepare uma nova geração de líderes. “A coisa que mais quero é construir um time de profissionais brasileiros muito respeitado”, afirma.
A diretora acredita que as mulheres, em geral, são mais sensíveis e têm uma capacidade de escuta maior, que possibilita a melhor costura de ideias, mas, muitas vezes, têm receio de se expor. Assim, seu conselho para as jovens que almejam a liderança é ter coragem. “Você não precisa ser perfeita o tempo inteiro, não precisa ter a certeza absoluta de tudo para se posicionar e para dar sua opinião. São diferentes perspectivas que constroem uma boa ideia. Acho que conquistar essa autoconfiança é o que vai mover as mulheres.”
A busca por uma nova perspectiva profissional e novas vivências fez Laura passar uma temporada em Paris, o epicentro da beleza ocidental. Na capital francesa, mergulhou na cultura do detalhe e da estética, tão presentes na L’Oréal globalmente. Para ela, a experiência foi enriquecedora. “A nossa cultura é rica, temos muita diversidade. Mas quando você sai, vê que tem ainda mais diversidade no mundo, diferentes pontos de vista sobre as mesmas coisas”, reflete. Isso a tornou “ainda mais criteriosa com a busca do melhor para oferecer à consumidora brasileira”.
A experiência em Paris também teve um impacto profundo em sua vida pessoal. “Foi uma grande aventura familiar”, lembra Laura, que embarcou para a França com o marido e os dois filhos, Artur e Marcelo. Para ela, ver o filho mais velho, com 6 anos na época, aprender a falar francês fluentemente em apenas três meses foi motivo de grande orgulho.
Inovação
A atuação de Laura na L’Oréal Brasil retrata a rápida evolução do mercado de beleza. O foco não é mais apenas o produto pura e simplesmente, mas a conexão entre inovação, comunicação e as vozes dos consumidores.
Entusiasta da transformação digital, a executiva sinaliza que surgiu uma nova forma de conversar e interagir, desde a experiência na loja física até a maneira como a marca se comunica. “Hoje em dia, conseguimos mensurar a performance facilmente, o que torna tudo muito mais rápido. A marca não inicia uma conversa e mantém ela sozinha. Ela pode propor um tema, mas se não for relevante, não for engajador, não vai reverberar e gerar vendas”, explica. Assim, o sucesso, segundo Laura, depende de três elementos: ter um DNA bem definido e respeitado, ser “aficionado por inovação” e ter disposição para testar e aprender.
A agenda de sustentabilidade e inclusão é um pilar na atuação da executiva. O grupo L’Oréal tem metas globais que são aplicadas e vividas localmente, como a redução da emissão de CO2 e o uso de plástico reciclado em embalagens. Além disso, a empresa tem forte impacto social, com programas como o Fundo L’Oréal para Mulheres, que acolhe aquelas que estão em situações emergenciais, e as Escolas da Beleza, que já formaram milhares de alunas no mercado de beleza.
Em relação à inclusão e diversidade, Laura puxa responsabilidade para si e afirma como a empresa tem encarado esse tema: “Temos um papel crucial na formação e identificação de padrões de beleza e, ao entendermos isso, temos uma intencionalidade muito grande em fazer esse trabalho com desconstrução dos padrões de beleza antigos e eurocêntricos”. E isso começa dentro de casa: 45% dos colaboradores são pretos ou pardos e há uma meta de recrutamento de liderança negra que já foi atingida em 2025. Os times diversos garantem que diferentes perspectivas sejam consideradas em todas as campanhas.
Por estarmos em um dos países mais diversificados e desiguais do planeta, é um desafio e uma missão democratizar o melhor da beleza para todos os brasileiros. Isso passa por desenvolver produtos para todos os tipos de cabelo e tons de pele.
Olhar para o futuro
Para os próximos cinco anos, Laura prevê uma aceleração no interesse do consumidor por marcas com compromissos sérios de sustentabilidade. Segundo ela, esse movimento começou a passos lentos e ainda não se tornou um fator definidor de compra.
“As marcas que não tiverem compromissos sérios com sustentabilidade e um propósito para existir não vão conseguir durar muito tempo. Podem até lançar produtos e fazer grandes hypes, mas não vão se estabelecer.”
A inteligência artificial também é central em sua visão de futuro. Laura acredita que a IA vai revolucionar a personalização de produtos e experiências, assim como auxiliar na análise de dados agilizando a tomada de decisões empresariais. No entanto, a L’Oréal mantém diretrizes claras e um compromisso com a realidade, sem criar personagens ou comunicações artificiais, sobretudo na hora de retratar os resultados que seus produtos promovem. A trajetória de Laura Parkinson é a de uma líder que entende que a beleza é mais do que um produto. É uma jornada de entender pessoas, desejos e anseios.









