Gabz: 'Precisava me sentir bem na minha própria pele e o cabelo é este lugar de afeto'
Da Zona Norte carioca ao horário nobre, entre o slam e o sertanejo, a atriz e cantora Gabz constrói uma trajetória marcada por consciência racial, disciplina e afeto – e faz da própria história uma forma de ampliar quem tem acesso ao centro da cena
"Tá feliz?" Eis a pergunta que Gabz ouve todos os dias da avó. A resposta é quase sempre um grande “sim” – não dito de forma automático, mas como uma confirmação cotidiana de felicidade. E de sucesso. Nascida em Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Gabrielly Nunes aprendeu cedo que atravessar a cidade era também atravessar mundos. Aos 6 anos, cruzava quilômetros até a Zona Sul para estudar teatro e balé. “Era o jeito de ter acesso a uma educação artística”, lembra.
Daí vieram a disciplina e também o senso de urgência. O sucesso não veio por acaso. Exemplo disso é a data em que falou conosco: sexta-feira de Carnaval, às 22 horas, seu único horário disponível. Desde as 7 horas, gravava Coração Acelerado, novela das 19 horas da TV Globo. Antes desse papel, viveu sua primeira protagonista, Viola, em Mania de Você, produção do horário nobre indicada ao Emmy em 2025. Prometeu descansar depois da maratona, mas, ao mesmo tempo, confessa que “não tem descanso”. “Quando trabalhamos com arte, damos tudo de nós. Fazer novela é viver 20% da nossa vida, o restante é criar ferramentas para viver outra vida. E eu gosto demais disso.”
Gabz começou na TV ainda na infância. Esteve em produções como Teca na TV, da TV Cultura, em 2007; Ciranda de Pedra, em 2008; e, no ano seguinte, interpretou a versão criança da personagem Helena, de Taís Araujo, em Viver a Vida, de Manoel Carlos. Poderia ter sido uma carreira linear sob os holofotes, mas ela precisou parar. Com a chegada da adolescência, veio o peso do deslocamento – físico e social. Físico pelos 25 quilômetros que a separavam do Tablado, onde estudou. Social pela sensação constante de não pertencimento. “Foram vários os motivos da pausa. Pelo racismo estrutural, pois tem aquela fase em que não existem mais papéis para crianças negras, e por causa do deslocamento, que bateu forte em mim e me fez dizer ‘não quero mais’”, conta.
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“Eu tinha 12 anos e me via alienígena dos lugares.” Ali firmava sua consciência racial e social – “e uma certa revolta também”. “Comecei a reparar nas crianças de Irajá, via que alguns seriam gênios no Tablado. E é difícil estar nesses lugares. Não só pelas diferenças de acesso, mas pelas diferenças estruturais impostas. A solidão é imensa.”
Ausente das telas, foi o hip-hop que a alimentou. “Foi assim que minha arte começou a fazer sentido, pois ali me enxerguei, enxerguei a minha história e quem eu era. Reconheci minhas dores e potências”, lembra. “Vim da TV e fui para a arte mais profunda da rua”, diz ela, que ganhou destaque no slam, batalha de poesia falada. Em movimento coletivo, já não se sentia sozinha. “O hip-hop me nutriu de força, propósito e autoestima. Principalmente para eu voltar a pisar nos ambientes que ainda não estão preparados para receber corpos como os nossos.”
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Aos 26 anos, Gabz integra uma geração de atores e atrizes negros que colhe os frutos de uma linha de frente aberta por nomes como Zezé Motta e Taís Araujo – artistas que enfrentaram embates mais solitários em um audiovisual ainda pouco disposto a enxergar a complexidade de personagens negras.
“Fui me fortalecendo para chegar aqui e saber que todo espaço em que eu pisar é meu por direito”, afirma. “Antes estava ocupada em querer alcançar uma coisa que sabemos que é quase impossível. Quase um milagre.” O hip-hop também fez de Gabz uma artista política. “A atuação para mim é muito importante, porque ela constrói imaginários, principalmente para pessoas negras, e é transformadora. E, quando soube da Viola, tive a oportunidade de ter Lázaro Ramos como mentor e cheguei sabendo dos desafios e da importância de ocupar este lugar”, conta.
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É também este ativismo que torna sua personagem mais recente tão simbólica. Eduarda batalha por uma carreira de sucesso no sertanejo. O gênero, especialmente em sua vertente mais comercial, ainda é um território majoritariamente masculino e atravessado por códigos conservadores. “Gosto de falar das diferentes subjetividades de mulheres negras e a primeira coisa em que pensamos é que não existem meninas como Eduarda. Mas existem.” Em Goiás, onde gravou a novela, buscou a história que não costuma ser contada. “O sertanejo vem da roça e Goiás é historicamente formado por quilombolas e por indígenas. Houve um apagamento de nomes e, no meu processo criativo, fui em busca dessa história.”
Se Eduarda reivindica um lugar em um território que historicamente apagou mulheres negras, Gabz faz o mesmo com o próprio corpo ao decidir buscar sua autoestima com afetividade. “Em casa, minha família sempre me encheu de elogios e meus pais me fizeram ter como referência pessoas parecidas comigo.” Foi na escola que descobriu o racismo. “Pensei: como assim não me acham linda? E ainda ouvia que era estranho eu ser negra e bonita.”
Na adolescência, alisou os cabelos, mas, depois, decidiu passar pela transição capilar – não apenas por estética, mas por identidade. “Com o cabelo liso não me via nem feia, nem bonita. Entendi que precisava me expressar para me sentir bem na minha própria pele. E o cabelo é este lugar de afeto.” Hoje, usa fios curtíssimos e naturais. Para Gabz, autoestima não é superfície. “Não está em lace, na maquiagem ou na montação.
Fazemos isso porque gostamos e queremos experimentar novas formas para nosso corpo, mas a autoestima está no que é subjetivo e em não sentir ódio de quem somos.” Sentir-se bonita, diz, é exercício. “Tenho um carinho enorme por mim e pelo meu processo de autoestima. Nunca fiz intervenções no meu rosto e corpo, não sei se um dia farei, mas me dou a mão todos os dias e me sinto bem.”
Esse amor se alimenta na vida ordinária: conversas com a família, churrascos com amigos, noites para descer até o chão, terapia e macumba. E também na escolha do que fica fora das redes. “A internet confunde a cabeça e eu precisei entender o que não seria público.” Em suas músicas – que já foram cantadas no palco do Rock in Rio 2019 – fala sobre seus afetos. Já o relacionamento com o também ator e cantor Jaffar Bambirra, assumido em novembro de 2024, decidiu manter mais reservado. “Nós temos carreiras que vêm de lugares muito diferentes e não queríamos que nosso relacionamento fosse maior que isso.”
Amor, aliás, está no centro de tudo o que faz. “Acredito que é o que nos salva, principalmente quem vem de lugares vulneráveis.” Foi por isso que decidiu falar abertamente sobre sua sexualidade. “Quis falar publicamente sobre ser bissexual porque é importante falar disso quando existe um discurso que é contra a dignidade humana.” No fim, a pergunta da avó continua sendo a medida. “Tá feliz?” Ela está. E é isso o que dá potência a cada um dos papéis que tão bem desempenha.









