A virada do cabelo: uma perspectiva dos últimos 35 anos dos fios crespos no Brasil
Ao longo de 35 anos de Marie Claire no Brasil, vimos o cabelo crespo ser tratado como algo a ser domado, entre químicas e padrões excludentes. Hoje, o natural se impõe como valor e floresce uma ideia mais consciente de liberdade
Lembro da primeira vez que fui a um salão de beleza fazer uma mudança capilar. Era 2001, eu tinha 8 anos e a ideia era “soltar os cachos”. Moda da época, aquilo facilitaria a vida da minha mãe, que cuidava dos meus cabelos crespos todos os dias para eu ir bem arrumada para a escola. A facilidade vinha com a promessa de fios mais cacheados e com um volume controlado.
“Controlar”, aliás, dominava rótulos, manchetes e conversas sobre como deveríamos cuidar dos fios crespos. Um movimento que redefiniu – ou limitou – a noção de belo. Antes disso, a década de 1990 já estava marcada pela ditadura do cabelo liso. O mercado de haircare voltado para consumidores negros – especialmente nos EUA – já era multibilionário, em grande parte graças a produtos que alteravam a textura natural do cabelo.
No livro História da Beleza Negra no Brasil: Discursos, Corpos e Práticas, a pesquisadora Amanda Braga mostra que, desde o pós-abolição, houve uma intensificação da promoção de estereótipos negativos associados ao cabelo crescausada pela superexposição ao produto. Em 2004, Taís Araujo aparecia na novela Da Cor do Pecado (TV Globo) com o cabelo “controlado”, alisado e com ondas – um sonho de muitas mulheres negras naquele período. A virada do século 21 marcou o início de uma mudança significativa na cultura afro.
O movimento do cabelo natural, que já havia surgido durante os atos pelos direitos civis e pelo Poder Negro nas décadas de 1960 e 1970, nos Estados Unidos, ressurgiu com um ímpeto sem precedentes. Os fios crespos passaram a ser reconhecidos como símbolo de resistência e identidade. Entre 2006 e 2010, surgia um movimento de rejeição aos alisantes químicos e a favor da valorização das texturas naturais.
A internet desempenhou papel fundamental na aceleração dessa mudança. Comunidades no Orkut, blogs de beleza e fóruns sobre cuidados capilares reuniam dezenas de milhares de membros discutindo temas como rotinas de hidratação, abandono do alisamento e técnicas para definir cachos. Essas comunidades foram fundamentais para criar uma rede de apoio entre mulheres em transição capilar, algo quase inexistente fora da internet, mas que impactou diretamente o mercado.
“Em 2009, observamos um momento importante no mercado brasileiro, quando os cremes de tratamento passaram a fazer parte da rotina de muitas mulheres, ampliando o olhar para o cuidado contínuo dos fios. A troca de experiências entre mulheres ampliou o debate sobre diversidade de texturas”, afirma Dione Wennie, gestora de educação profissional Embelleze e especialista capilar.
O YouTube passou a se tornar um espaço importante para compartilhar rotinas capilares a partir de 2010. Em vídeos, youtubers ensina vam como finalizar cachos, como fazer hidratação profunda e como lidar com a transição. Ouvimos pela primeira vez termos como big chop – corte para retirar a parte alisada dos fios – e curvatura do cabelo, que vai de 1 (liso) a 4C (crespo intenso). Entre as influenciadoras que se destacaram na época está Amanda Mendes.
“Um parente disse que eu era muito bonita, mas que o que me atrapalhava era meu cabelo. Imagine uma criança ouvindo isso. Cresci acreditando que precisava resolver essa ‘questão’. Quando fiz 14 anos, pedi de presente de aniversário para minha mãe uma progressiva. Queria me sentir bonita e aceita”, lembra. Mendes, hoje com 31 anos, alisou seus fios por sete. “Condicionei minha autoestima ao cabelo liso. Evitava ir à praia ou à piscina porque sabia que a água tiraria o efeito da chapinha. Mesmo fazendo relaxamento e progressiva, ainda precisava escovar e pranchar para alcançar o resultado que eu acreditava ser o ideal.”
Assim como ela, eu também internalizei esse ideal e deixei de aproveitar momentos de lazer por causa do cabelo. Ambas conhecemos o medo de ver a raiz crescendo. Ela se cansou antes de mim. “Encontrar mulheres falando sobre transição capilar abriu um novo horizonte para mim. Em 2015, decidi parar de alisar”, diz Mendes, que passou a compartilhar sua rotina na internet no perfil @todecrespa.
“Depois que postei meus primeiros vídeos, muitas mulheres compartilharam que também estavam passando pela transição ou pensando em começá-la. Um relato que me marcou profundamente veio de uma seguidora que já tinha passado pela transição, mas ainda não conseguia usar o cabelo solto. Ela dizia que sentia que o volume chamava muita atenção.
Ela me contou que acompanhar o meu dia a dia, indo trabalhar, treinando, vivendo com o cabelo crespo e volumoso, ajudou a mudar a forma como ela enxergava o próprio cabelo. Aquilo me impactou profundamente. Às vezes, ver outra pessoa vivendo com naturalidade aquilo que parecia impossível para você já transforma a forma como você se vê.” No mesmo ano em que Mendes decidiu parar de alisar os fios, Taís Araujo também passava pela transição capilar.
Após 13 anos de cabelos lisos, ela reaparecia na televisão na série “No campo emocional, o desafio maior foi lidar com os olhares. Quando eu alisava o cabelo, parte da motivação era justamente não chamar atenção. Assumir o cabelo crespo significava aceitar que ele seria mais observado. A transição acabou se tornando um processo profundo de reconexão comigo mesma”, conta Mendes.
Um aspecto central desse período era a escassez de produtos voltados para textura natural no Brasil. Muitas consumidoras relatavam dificuldade para encontrar cremes para definição de cachos, produtos livres de silicones não solúveis em água ou petrolatos e finalizadores específicos para curvaturas mais fechadas. Isso fazia com que muitas recorressem a receitas caseiras e técnicas adaptadas. Essa lacuna no mercado viria a impulsionar o crescimento de marcas especializadas na década seguinte.
“Passamos a observar também um avanço significativo em segmentos como tratamento, finalização e texturização, com fórmulas desenvolvidas para diferentes curvaturas, espessuras e necessidades dos fios. O consumo deixou de ser apenas corretivo e passou a ser preventivo e terapêutico”, explica Wennie. Mister Brau (TV Globo) com os fios volumosos, cacheados e naturais. Eu fiz minha transição capilar no ano seguinte, em 2016.
Assim como a atriz e a influenciadora, passei pelo drama de viver com duas texturas, pelo corte e pela descoberta das tranças. O período marcou não apenas a transição capilar como fenômeno coletivo, mas também sua institucionalização no mercado. Um case de sucesso foi a marca Salon Line, que surgiu em 1995 e rapidamente se tornou líder do segmento ao focar em tratamentos para cabelos cacheados, crespos e crespíssimos.
“Há 30 anos, a prateleira de cosméticos brasileira era monocromática: o foco era quase exclusivo no alisamento e na redução de volume. A textura natural era vista pelo mercado como algo a ser controlado, não celebrado”, diz o diretor de marketing Roberto Moreira. “Fomos pioneiros ao entender que o ‘não lugar’ da mulher negra no varejo era, na verdade, uma demanda reprimida gigantesca.”
Enquanto isso, a indústria global também reorganizava seu olhar. Para Débora Maciqueira, diretora de educação de produtos profissionais da L’Oréal, essa transformação é lida como parte de uma mudança mais ampla no comportamento das consumidoras, ligada a uma redefinição de valores: “Falamos cada vez mais de liberdade e expressão. O cabelo deixa de ser apenas estética e passa a ser identidade”. Essa mudança também altera profundamente a lógica do consumo.
“Hoje, a consumidora brasileira é extremamente engajada. Ela conhece o próprio fio, entende de composição e constrói uma rotina de cuidado muito mais completa”, diz. O dado de que brasileiras utilizam, em média, sete produtos na rotina capilar ajuda a dimensionar essa transformação: não se trata apenas de vaidade, mas de investir em um cuidado contínuo e especializado.
Essa consolidação traz uma camada mais complexa — e menos confortável – para o debate. A partir dos anos 2020, começou a ganhar força na mídia brasileira uma nova narrativa: a de mulheres negras que, após a transição, optaram por voltar ao alisamento. As motivações são diversas e vão desde praticidade até pressão estética e profissional. Mais do que um “passo para atrás”, o fenômeno tem sido interpretado como parte de um deslocamento: da aceitação do natural para uma ideia mais ampla de liberdade capilar, em que a escolha da mulher – de alisar, cachear, trançar ou alternar – passa a ter protagonismo.
Dentro dessa lógica, o próprio mercado se adapta. “Já não estamos na fase da descoberta, mas da consistência. A valorização do natural se tornou um valor estruturante”, diz Moreira. O futuro não está na oposição entre liso e crespo, mas na multiplicidade. Personalização e biotecnologia apontam para uma nova etapa, em que a discussão passa a ser também sobre saúde, tecnologia e individualidade. É nessa interseção que dou as mãos para a menina que fui.
A criança sentada no salão, ouvindo que seu cabelo precisava ser controlado. A adolescente que evitava entrar na piscina. A mulher do outro lado do espelho, durante a transição, quando duas texturas conviviam no mesmo fio e ela buscava reencontrar sua identidade. Hoje, olho para meu cabelo e entendo que ele já não precisa caber em nenhuma promessa – nem de controle, nem de definição perfeita. Ele muda, responde ao clima, ao tempo, ao meu humor. Às vezes mais volumoso, às vezes menos definido; ora preso, ora solto. Talvez a maior mudança nestas três décadas, para mim e tantas outras mulheres, não tenha sido aprender – a adequar, cuidar, a aceitar –, mas desaprender a medir a beleza por uma régua externa.
O percurso dos crespos e cacheados nos últimos 35 anos - por Celso Kamura









