Peptídeos injetáveis: nova obsessão da estética ainda não foi comprovada pela ciência
Enquanto ingredientes com peptídeos já são comuns em séruns e cremes, versões injetáveis ganham espaço em vídeos virais com promessas de rejuvenescimento, apesar da ausência de estudos clínicos em humanos
Enquanto ingredientes com peptídeos já ocupam espaço consolidado em séruns e cremes voltados para firmeza, hidratação e rejuvenescimento da pele, uma nova frente desse mercado vem crescendo em ritmo acelerado — e preocupando dermatologistas. Nos últimos meses, vídeos no TikTok e Instagram passaram a promover aplicações injetáveis de peptídeos como promessa de regeneração celular, melhora da textura da pele e combate ao envelhecimento.
Em meio a vídeos de “antes e depois”, relatos de clínicas internacionais e conteúdos sobre protocolos supostamente inovadores, especialistas alertam que a popularização desses procedimentos está acontecendo antes da comprovação científica.
Parte desse movimento ganhou força com a viralização de tratamentos e procedimentos com PDRN (polidesoxirribonucleotídeos derivados de DNA de salmão) que se popularizou inicialmente em clínicas asiáticas e passou a circular com força nas redes sociais após celebridades comentarem o tratamento.
Paralelamente, substâncias como GHK-Cu, BPC-157 e TB-500 também passaram a aparecer em vídeos que prometem benefícios estéticos e regenerativos. Nos Estados Unidos, o avanço desse mercado informal já chamou a atenção de veículos como Time e Wall Street Journal, que publicaram reportagens sobre o crescimento dessas aplicações e os alertas de especialistas diante da falta de estudos clínicos robustos.
No Brasil, o interesse ainda parece estar mais concentrado na curiosidade do público do que em uma demanda consolidada dentro dos consultórios. “Tenho visto um questionamento e exposição grandes nas redes sociais e na mídia. No consultório, tenho visto questionamento, mas não exatamente uma demanda pelos procedimentos em si”, afirma Sylvia Ypiranga, dermatologista membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo (SBD-RESP).
Embora os peptídeos sejam utilizados há décadas na dermatologia cosmética tradicional, principalmente em fórmulas tópicas, a aplicação injetável ainda opera em uma área sem respaldo científico consistente. Segundo Sylvia, o principal problema é que ainda não existem estudos clínicos em humanos capazes de comprovar tanto a segurança quanto a eficácia desse uso. “Existem pesquisas laboratoriais in vitro e em modelos animais, mas não existem ensaios clínicos, sejam de segurança ou de eficácia, do uso injetável em humanos”, explica.
Os estudos preliminares existentes, segundo a médica, mas continuam restritos ao ambiente laboratorial. “Por enquanto, o que existem são estudos laboratoriais que demonstram potencial anti-inflamatório, antioxidante e proliferativo de reparo e regeneração tecidual, porém não temos estudos clínicos que tenham confirmado a segurança ou a eficácia em humanos.”
Esse vazio científico também torna os riscos difíceis de mensurar. Sem estudos clínicos de longo prazo, os efeitos adversos possíveis permanecem amplamente imprevisíveis. Entre os cenários que mais preocupam especialistas está justamente o potencial estímulo à proliferação celular. “Partindo do pressuposto de que são substâncias que podem sinalizar e induzir proliferação de células, sempre temos que cogitar a possibilidade de que essa sinalização ocorra também para células mutadas e possa levar à formação de neoplasias”, afirma a dermatologista.
A ausência de regulamentação agrava ainda mais esse cenário. Como esses produtos não possuem aprovação da Anvisa no Brasil nem do FDA nos Estados Unidos para fins estéticos, não há fiscalização padronizada sobre produção, armazenamento e formulação. Isso pode aumentar riscos de contaminação por micro-organismos, presença de impurezas, infecções, formação de granulomas e problemas relacionados à dosagem inadequada.
“Não havendo estudos clínicos, as doses também não são estabelecidas, havendo ainda possibilidade de subtratamento ou intoxicação”, afirma Sylvia. Quando questionada sobre as complicações mais difíceis de tratar, ela destaca especialmente infecções complexas e a possibilidade de surgimento de neoplasias.
O alerta, no entanto, não significa que os peptídeos sejam problemáticos de forma geral. Na dermatologia tradicional, versões tópicas seguem amplamente utilizadas e possuem histórico consolidado de segurança, aparecendo em produtos voltados para hidratação, estímulo de colágeno, melhora da textura da pele e uniformização do tom. A diferença está justamente no nível de evidência disponível e no processo regulatório que acompanha esses produtos.
O fenômeno expõe uma dinâmica cada vez mais comum na indústria da beleza: tendências que nascem nas redes sociais e ganham status de inovação antes mesmo de serem validadas pela ciência. Nos últimos anos, o mercado já assistiu a ciclos semelhantes com fios de PDO, ozonioterapia facial, glutatião injetável e outros procedimentos que viralizaram rapidamente impulsionados pela promessa de resultados mais rápidos e menos invasivos.
Para Sylvia, a recomendação é direta. “Se o produto não está regulamentado para uso injetável porque não há evidências clínicas robustas, o médico não deve usar no consultório.” Ela reforça que já existem tratamentos seguros e regulamentados para o manejo do envelhecimento cutâneo — e que, diante do ritmo acelerado das tendências virais, cautela continua sendo um dos ativos mais importantes da dermatologia.









