We’e’na Tikuna fala sobre saberes indígenas e autocuidado: ‘cuidar do cabelo e da pele faz parte da minha cultura’
Neste 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, a influenciadora, estilista e ativista explica as tradições do povo Tikuna relacionadas à beleza
Neta de pajés e curandeiros, We‘e’na Tikuna é natural da Terra Indígena Tikuna Umariaçu (AM), hoje demarcada no Alto Solimões. Ao honrar o significado de seu nome — “a onça que nada para o outro lado do rio” —, tornou-se uma das pioneiras entre as influenciadoras indígenas no Brasil. “Nasci no ano do massacre do Capacete, em 1998. Aos 12 anos, eu, meus cinco irmãos e meus pais saímos da aldeia para morar em Manaus. Eu nem falava português”, conta.
“Ü’tuü é como chamamos o corpo. Significa sagrado. O banho e o autocuidado fazem parte do cotidiano. Desde a infância, aprendemos a cuidar do cabelo e da pele”, explica ao falar sobre a origem desses saberes. Ela diz que, na cultura do povo Tikuna, utiliza-se tudo o que vem da terra: “A terra fornece desde a alimentação até a tinta das pinturas e do tingimento do cabelo, feito a partir do fruto verde do jenipapo. É natural e também hidrata”.
As pinturas que menciona integram sua identidade e estão associadas à proteção e à transformação. “Tira as coisas negativas do nosso corpo. Se algo me afeta, eu me pinto e isso me protege”, diz. Os traços ficam na pele por cerca de 15 dias, período que, segundo ela, corresponde a um processo de cura. “A natureza oferece o que precisamos para a nossa beleza. O urucum, por exemplo, usamos como repelente, batom, blush e bronzeador.”
O Ritual da Moça Nova
No entendimento do povo, a menstruação é um período de maior sensibilidade, em que a mulher deve cuidar da mente, do corpo e manter-se em repouso. A partir dos 11 anos, as meninas Tikuna entram em fase de observação. Mães e anciãs da aldeia acompanham as transformações corporais para identificar os sinais de que a primeira menstruação está por vir.
O Ritual da Moça Nova é a passagem da menina para a vida adulta e acontece a partir do primeiro ciclo menstrual, com duração de cerca de 20 dias: “Ficamos em isolamento para compreender o corpo em transformação. Aprendemos a cuidar da pele, do cabelo e da menstruação. Depois, os fios de cabelo são arrancados um a um e guardados como amuletos de proteção. O que cresce no lugar é o que fica para a vida, símbolo do nascimento da mulher”.
Voz política
We’e’na cresceu entre duas culturas e conta que o preconceito e o racismo marcaram sua trajetória. “Encontrei na internet um meio de falar sobre a cultura indígena, mostrar minha identidade e vi que as pessoas se interessaram. Foi ali que também percebi a existência da discriminação. Só depois entendi que aquele lugar também era meu.” Ela diz que transformar o conhecimento em ferramenta de enfrentamento é o que move sua trajetória até aqui.
Hoje soma mais de 5 milhões de seguidores nas redes sociais. Para ela, esta é uma oportunidade de ampliar esse debate e menciona que cada vez mais marcas de beleza têm se mostrado alinhadas aos valores de inclusão, mas que ainda há um longo caminho pela frente: “Como influenciadora, sinto falta de mais sensibilidade. Quando uma marca não fala com o povo indígena, que é a matriz do povo brasileiro, contribui para o apagamento da nossa cultura.”









