Fabiane Secches
Por
Fabiane Secches
, colunista Marie Claire Brasil

Lançada pela Netflix agora no início de 2025, a minisssérie Adolescência, dirigida por Philip Barantini e criada por Stephan Graham (que interpreta, primorosamente, o pai do garoto), é dividida em quatro episódios. A produção surpreende por sua densidade narrativa e por seu rigor formal ao retratar com sensibilidade a fase que dá título a ela, um território de instabilidade, volatilidade, múltiplas transformações significativas e dificuldade de comunicação. Em um catálogo de baixa qualidade, Adolescência se destaca como uma grata surpresa, muito acima da média.

Em tempo de discursos saturados e pré-estabelecidos sobre esse período da vida, a minissérie se destaca ao criar um espaço de ação, mas sobretudo de observação, de escuta, que nos alenta (o menino está sendo tratado com respeito pela polícia quando é preso por suspeita de assassinato), enquanto também nos desconforta.

Adolescência se recusa a chocar através da espetacularização da violência gráfica e evita o moralismo quanto a suposta rebeldia juvenil. O que a minissérie propõe é algo mais radical: olhar o sujeito adolescente em sua complexidade e fragilidade, acolher sua linguagem truncada, sua vergonha e seu despreparo, sua fúria e sua perplexidade diante de um mundo que o atravessa sem piedade. Tudo isso potencializado pelos hormônios que explodem perto dos 14 anos.

ERRATA: Esta coluna foi republicada em 1/4 para inclusão de um trecho

Minissérie Adolescência — Foto: Divulgação/Netflix
Minissérie Adolescência — Foto: Divulgação/Netflix

Do ponto de vista psicanalítico, a adolescência é um dos momentos mais críticos da constituição subjetiva. Trata-se de uma fase em que o sujeito se vê diante da perda da infância, sem ainda ter se inserido no universo simbólico da vida adulta. A minissérie encena com precisão essa fratura. Os personagens vivem entre o colapso da infância e a ameaça da vida adulta. Destaque seja dado para o estreante Owen Cooper, sem o qual a produção não teria o mesmo impacto.

Há na adolescência uma oscilação constante entre regressão e antecipação, entre desejo de desaparecer e desejo de se afirmar. A linguagem que se tem à disposição é, muitas vezes, insuficiente para dar conta do que sentem — e é nesse vazio que surgem o silêncio, o colapso, a dor que não se sabe nomear e que não parece possível de ser compreendida. Mesmo os adolescentes mais alegres ou menos angustiados não escapam de viver momentos assim.

Nesse contexto, o conceito de “confusão de línguas”, proposto pelo psicanalista Sándor Ferenczi, ajuda a compreender as falhas de escuta entre adultos e adolescentes. Ferenczi mostra como o trauma pode ocorrer quando o que uma criança expressa em linguagem de ternura é interpretado pelo adulto como linguagem de paixão ou poder. Essa lacuna se repete na adolescência: os jovens gritam por ajuda com códigos que os adultos não decifram, como acontece com os emojis de Instagram na série que o policial a princípio interpreta de uma forma e precisa da ajuda do filho adolescente, com quem tem uma relação conturbada, para melhor compreender. Isso muda todo caminho da investigação.

Minissérie Adolescência — Foto: Divulgação/Netflix
Minissérie Adolescência — Foto: Divulgação/Netflix

Os pais retratados em Adolescência são afetivos e se esforçam para dar aos filhos uma vida minimamente confortável, mas se sentem impotentes diante do abismo geracional que os separa. Em uma das cenas mais fortes, o pai entra no quarto do filho depois do acontecimento traumático, tentando encontrar qualquer sinal, qualquer indício do que estava errado. Tudo está aparentemente no lugar: os lençois estampados, os brinquedos organizados, a luz suave do abajur. Mas há um quarto dentro do quarto: o celular, um portal que se abre para um mundo em que os adolescentes podem ser humilhados, expostos, ignorados. E onde enfrentam tudo isso muitas vezes de forma solitária.

As redes sociais se tornaram um quarto escuro em que adolescentes se perdem enquanto os pais, do lado de fora, acreditam que estão em segurança”
— Vera Iaconelli, psicanalista, na Folha de S. Paulo, coluna publicada em 24 de março de 2025.

A tragédia cotidiana e o mundo digital

Pois bem: mesmo em uma família amorosa de classe média, mesmo que se trate de um jovem menino delicado, um bom aluno, um bom filho, mesmo nessas circunstâncias pode haver um rompante que muda para sempre a vida de todos ao seu redor. A minissérie nos lembra que a tragédia não se dá apenas em contextos de negligência ou violência explícita, mas também no cotidiano humano. Ser uma pessoa é muito difícil. Ser um adolescente talvez seja ainda mais.

É nesse ambiente que surgem figuras como Andrew Tate, influenciador misógino citado em um episódio da minissérie, cuja presença paira como forte ameaça no universo de meninos em formação. Suas ideias, embaladas em discursos de poder e masculinidade patológica, se espalham com rapidez entre adolescentes vulneráveis, promovendo uma cultura de agressividade alimentada por uma extrema-direita que só faz produzir sofrimentos.

A minissérie mostra como esse tipo de figura pública, mesmo à distância, tanto influencia comportamentos quanto legitima violências entre colegas de diferentes gêneros — especialmente contra meninas, alvos reiterados em um mundo patriarcal no qual infelizmente vivemos. Mas não apenas elas. Como é o caso de meninos que não se enquadram nas cruéis expectativas sociais. A verdade é que o machismo produz vítimas entre homens e mulheres, ainda que de forma desequilibrada, causando sofrimento para ambos.

A exposição precoce e desregulada ao mundo digital, somada à dificuldade de nomear afetos, à ausência de escuta qualificada e à manipulação de adultos com uma agenda maléfica formam um terreno fértil para colapsos. Por isso, torna-se compreensível a proposta de restringir o uso de celulares em ambientes escolares — não como punição ou julgamento moral, mas como tentativa de proteger zonas de respiro, lugares onde os vínculos possam ser construídos fora da lógica da vigilância onipresente e do julgamento implacável. Aos 13, 14 anos não há recursos internos suficientes para interpretar, reagir ou se proteger da violência simbólica cotidiana. Daí a importância do acompanhamento parental, comunitário e escolar, de limites afetivos claros e, sempre que possível, de espaços de escuta, como a psicanálise.

Levar um adolescente para análise não é sinal de que há um problema aa ser resolvido — ao contrário, pode ser sinal de cuidado, de oferecer um espaço protegido onde se possa falar, ouvir e se sentir acolhido numa fase turbulenta e desafiadora.

A força de uma obra que não está interessada em julgar

A minissérie não demoniza a tecnologia, nem oferece lições e caminhos fáceis. A internet é algo que faz parte da vida contemporânea e pode ser uma ferramenta de descoberta, de expressão, de sociabilidade. O que Adolescência propõe é pensar sobre quais são os riscos quando os usamos como substituto de escuta, como um lugar de abandono. A minissérie devolve à arte sua função mais potente: dar linguagem ao que não costuma ser nomeado, e criar algum sentido no meio do caos.

Ao abordar temas como o despreparo psíquico dos mais jovens e a agressividade própria de um período em que tudo se transforma muito rápido com os hormônios em ebulição, a minissérie não se esquiva também de falar de questões contemporâneas como a misoginia digital e o colapso das instituições.

A produção não fecha a porta com uma lição de moral inequívoca — mas nos convida a olhar com atenção, responsabilidade e, acima de tudo, com humanidade para o que se desenrola, sem tratar os protagonistas de forma maniqueísta. É uma minisssérie que não apenas reflete sobre o nosso tempo, mas o interroga — e, com isso, quem sabe, tem potencial de nos fazer refletir e transformá-lo.

É impossível não sentir profunda tristeza e compaixão pela família que perdeu a filha adolescente. Mas também ficamos com um gosto amargo quando acompanhamos a história do menino que a matou, com seu rosto angelical e estrutura frágil, quase infantil. Não pude deixar de lamentar profundamente por ambos e sentir pesar pela forma com que as coisas se desenrolaram para dois adolescentes que tiveram suas vidas brutalmente interrompidas.

Essa coluna foi escrita com a contribuição de dr. Paulo Amaral, médico endocrinologista, com ampla experiência em atendimento de adolescentes.

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