Por uma ciência sem 'energia masculina'
Todo 11 de fevereiro, celebramos o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Em teoria, deveria ser um marco para impulsionar a equidade de gênero nas áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Na prática, é mais um momento embalado em slogans e hashtags bonitinhas, que raramente saem do papel. Uma forma educada de dizer: “Olha, estamos fazendo algo por elas. Elas merecem.” Como se isso fosse suficiente para reparar os danos históricos e estruturais que transformaram a ciência e a tecnologia em clubes exclusivos, onde mulheres são, no melhor dos casos, hóspedes temporárias.
Esse problema está longe de ser superado. Ele é real, atual e profundamente arraigado. Não se trata de uma questão de falta de interesse das mulheres pela ciência. Elas querem estar lá. O problema é que o sistema ainda impõe barreiras invisíveis e moldes inflexíveis, como um convite condicionado a abandonar sua própria essência para “se encaixar”.
A UNESCO estima que apenas um terço dos cientistas no mundo são mulheres. Isso não é apenas um dado estatístico: é um sintoma de um sistema que continua a falhar. E quando elas conseguem espaço, enfrentam o Efeito Matilda. Cunhado pela historiadora da ciência Margaret Rossiter, o termo homenageia Matilda Joslyn Gage, ativista do século XIX que denunciou o apagamento das conquistas femininas. Hoje, ainda vemos cientistas cujas ideias são atribuídas a colegas homens – um reflexo incômodo de uma prática antiga que insiste em permanecer.
Enquanto isso, no Vale do Silício, vemos o deboche escancarado. Mark Zuckerberg e Elon Musk parecem mais preocupados em reafirmar sua masculinidade – e seus bíceps – do que em promover qualquer avanço real. Zuckerberg agora fala sobre a necessidade de “energia masculina” no ambiente corporativo, como se a resposta para os problemas globais fosse uma dose extra de testosterona. Essa narrativa não é inovação. É regressão, um esforço para reviver uma liderança baseada na exclusão e no controle, um retorno disfarçado à mesma mentalidade que tem mantido mulheres (e tantas outras minorias) à margem.
Esse retrocesso também afeta os avanços que conquistamos a duras penas. Grandes corporações como Meta, Microsoft, Walmart e McDonald's têm abandonado suas iniciativas de diversidade e inclusão, sinalizando um movimento preocupante de retorno a modelos ultrapassados. Isso não é progresso – é a resistência daqueles que temem perder o poder.
Felizmente, há luz em iniciativas como a Força Meninas, fundada por Déborah De Mari, que prepara garotas para explorarem a ciência, a tecnologia e a matemática com confiança. Projetos assim não apenas abrem portas; eles mostram que essas meninas não precisam aceitar um “não” como resposta. Elas podem, sim, estar na ciência, e podem fazê-lo sendo quem são. É sobre criar um futuro que as acolha em sua totalidade, em vez de forçá-las a se moldar a estereótipos.
Mas a questão vai além de números. Não se trata apenas de aumentar a presença feminina por equilíbrio estatístico. É sobre o que perdemos como sociedade ao excluir perspectivas diversas. Cintos de segurança projetados apenas para corpos masculinos, medicamentos testados exclusivamente em homens e a negligência histórica de questões como menopausa e depressão pós-parto são exemplos gritantes do impacto da ausência de mulheres na ciência. A inovação que tanto celebramos depende de olhares diversos, que enxergam o que outros ignoram.
Precisamos mais do que boas intenções ou gestos simbólicos. O progresso exige ação concreta: mais programas de mentoria, financiamentos direcionados e representação real em cargos de liderança. Não podemos continuar tratando o avanço feminino como algo para o futuro. Ele precisa começar agora. O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência não deveria ser apenas um lembrete de tudo o que está errado. Ele deveria refletir as mudanças que conseguimos implementar. Que venha o dia em que essa comemoração não seja mais necessária. Até lá, que ela sirva como um grito por transformação – e não apenas como mais uma hashtag.