Lúcia Monteiro

Por Lúcia Monteiro

Crítica e pesquisadora de cinema

Por
Lúcia Monteiro
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)


Edna de Cássica: das filmagens de Iracema à estreia da nova cópia do filme — Foto: Divulgação
Edna de Cássica: das filmagens de Iracema à estreia da nova cópia do filme — Foto: Divulgação

O cinema do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, lotou na noite de estreia da cópia restaurada de Iracema, uma Transa Amazônica, em setembro. Dezenas de pessoas ficaram para fora. Rodado há 50 anos por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, o longa-metragem registrou imagens da construção da Rodovia Transamazônica, que liga a Paraíba ao Amazonas. Vivíamos a ditadura civil-militar que, em nome do progresso, defendia abertamente o desmatamento: “Chega de lendas, vamos faturar!”, dizia o slogan de um cartaz publicado naquela altura pelo Ministério do Interior em parceria com o Banco da Amazônia.

O filme estreou na televisão alemã em 1974 e, no Brasil, por causa da censura, só foi exibido em sala de cinema na década de 1980. Na primeira sequência, vemos uma pequena embarcação que transporta açaí e ribeirinhos de povoado em povoado, enquanto ouvimos os recados trocados pelo rádio entre pessoas de diferentes igarapés. A bordo, uma garota logo se destaca, com os cabelos bem pretos e um olhar muito vivo. É Iracema, interpretada por Edna de Cássia, então com 15 anos.

Para a estreia da cópia nova, Edna de Cássia viajou de Belém a São Paulo e acomodou-se na primeira fileira, perto de Bodanzky. Na poltrona ao meu lado estava Ismail Xavier, um dos maiores teóricos do cinema do Brasil, por quem tive a sorte de ser orientada durante o doutorado. Anos atrás, Ismail escreveu um texto importante sobre Iracema, no qual compara a trajetória da personagem-título à da própria Amazônia.

Edna de Cássica: das filmagens de Iracema à estreia da nova cópia do filme — Foto: Divulgação
Edna de Cássica: das filmagens de Iracema à estreia da nova cópia do filme — Foto: Divulgação

A menina ribeirinha chega a Belém, onde se prostitui. Depois, resolve “correr mundo” e viaja floresta adentro na boleia de um caminhão que transporta madeira, sendo submetida, ao longo da narrativa, a violências e explorações de toda sorte. A floresta, por sua vez, sofre com os desmatamentos, a expansão da pecuária, o fogo.

A restauração partiu da película original em que o filme foi rodado, de 16 milímetros, e originou uma cópia em 4K com uma qualidade muito superior a todas as cópias anteriores. Lembrei-me de uma aula de Ismail na USP sobre Iracema e fui invadida por uma enorme emoção, daquelas que o cinema sabe provocar na gente. Parecia que a passagem do tempo – as cinco décadas que nos separam de 1974, os 15 anos desde a aula na USP – havia encontrado uma maneira mágica de se fazer sentir, como se uma camada invisível de lembrança tivesse sido impressa na cópia nova. A força das imagens, a presença solene de Bodanzky e Edna de Cássia e a companhia de Ismail tornaram aquela noite mais que especial para mim.

No debate que se seguiu à exibição, Edna de Cássia viu-se rodeada por três cineastas peso-pesado: Kleber Mendonça Filho, de O Som ao Redor e Bacurau, o próprio Bodanzky e João Moreira Salles, de No Intenso Agora. Edna de Cássia contou que ela mesmo fabricou parte do figurino que usava no filme – como o short curtíssimo feito com uma bandeira da Coca-Cola. E disse que entrou e saiu das filmagens “lacrada como uma latinha de refrigerante”. Rimos. Em determinada sequência do longa, a menina de 15 anos mostra os seios para o motorista de caminhão que a conduz. Noutra, é violentada. Edna contracenava com Paulo César Pereio, que tinha mais de o dobro de sua idade e àquela altura já era um ator consagrado. “A Edna criou a Iracema, a partir da personalidade que ela tem. Tenho uma personalidade muito forte”, disse ela, assim mesmo, usando a terceira pessoa para referir-se a si mesma. “Nunca pensei em ser atriz, mas incorporei o personagem. Foi muito fácil de fazer, e muito gostoso.”

Fico pensando no que Edna viveu depois do filme. Será que se reconhece naquelas imagens? Como foi a reação de sua família? E que vida ela teve, depois dessa experiência tão marcante? São perguntas para uma próxima coluna – e algumas respostas estão em Era uma Vez Iracema, que o IMS exibe ainda este ano.

Edna de Cássica: das filmagens de Iracema à estreia da nova cópia do filme — Foto: Divulgação
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