Maria Bopp

Por Maria Bopp

Por
Maria Bopp
— de São Paulo (SP)

Num vídeo que circula nas redes, uma mulher norte-americana aparece de roupão com um copo de café na mão. Ela aparenta estar cansada, mas bem-humorada. A legenda diz: “Você pede para seu marido cuidar dos filhos por duas horas porque seu auto cuidado saiu pela janela”. “Repete o que você disse”, pede o marido, que está filmando. Sorrindo, ela começa a listar: “Preciso tomar banho, fazer minha sobrancelha, raspar minha perna, raspar meu bigode, marcar minha depilação na axila, cortar minhas unhas, clarear meu dente...”. O marido responde, brincando: “Quão peluda você é?” Ela se defende, rindo: “Estou sem tempo pra cuidar de mim!” Nos comentários, muita gente ri da situação. Várias mães se identificam, outras levantam um incômodo: “Por que ela precisa pedir duas horas ao marido se os filhos também são responsabilidade dele?” Talvez por não ter filhos, outra coisa me chamou a atenção. Nas preciosas horas que aquela mulher teria para si, seu “autocuidado” se resumia a cuidar da própria aparência. Encontrar as amigas? Tirar um cochilo? Passear ao ar livre? Não. Arrancar os pelos do corpo era prioridade.

Obviamente não a julgo, até porque essa lógica não é individual. Ao digitar “autocuidado” na busca do TikTok, os resultados são mulheres com máscara de hidratação no rosto e toalha na cabeça, quase como um uniforme. São vídeos e mais vídeos de meninas descrevendo seus “banhos premium”, com velas aromáticas e uma lista imensa de produtos. Tudo isso pode ser um ritual legítimo de descanso. Mas é difícil ignorar que está profunda- mente ligado a um resultado estético – e, quando é feito para as redes sociais, parece só mais uma performance. “Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação – e isso é um ato de guerra política.” Já vi gente deturpando essa famosa frase da filósofa negra Audre Lorde a fim de defender suas rotinas de beleza. O que talvez ignorem é que ela escreveu isso enquanto enfrentava um câncer. Quando falava em autopreservação, ela não estava defendendo uma prateleira cheia de cosméticos. Estava tentando não sucumbir à ansiedade diante da possibilidade real da morte.

No epílogo de A Burst of Light [“Um Sopro de Luz”, em tradução livre, ainda sem edição brasileira], ela diz que viver com câncer a obrigou a abandonar a fantasia da imortalidade e, no lugar, passou a cultivar um poder mais modesto e durável, enraizado no que de fato podia controlar. Ela descreve como se tornou essencial ressaltar tudo aquilo que alegra a vida. É provável que nosso cuidado obsessivo com a apa- rência também seja, no fundo, uma manifestação do medo de envelhecer e, em última instância, do medo da morte. Ao final do epílogo, Lorde aponta a saída que encontrou: “Eu trabalho, eu amo, eu descanso, eu vejo e aprendo. E eu relato. Estes são meus fundamentos”. Tá aí: o melhor tutorial de autocuidado que já vi. Trabalhar no que importa. Amar quem está por perto. Descansar sempre que possível. Prestar atenção no mundo. Aprender com ele. Contar o que viu. Pretendo seguir o passo a passo. Um pouco longo, mas ainda as- sim mais recompensador do que depilação no buço.

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