Maria Homem
Por
Maria Homem

É possóvel começar a se desapaixonar? Dá para desligar uma chave interna e dizer “chega” assim que uma relação se torna tóxica? Muitas pessoas percebem que uma relação não faz bem, que há uma espécie de overdose afetiva – e, ainda assim, permanecem. A pergunta que retorna é sempre a mesma: por que não conseguimos sair da- quilo que nos machuca? A paixão carrega, desde sua origem, uma ambiguidade. Pathos é sofrimento, dor, algo que nos atravessa e nos afeta sem que tenhamos total controle.

Apaixonar-se pode ser, muitas vezes, caminhar numa corda bamba entre prazer e padecimento. E, não raro, seguimos patinando sobre esse fio, mesmo quando já sabemos que ele nos fere. Há um tipo de gozo implicado nesse permanecer. Um gozo que não é felicidade, mas repetição. Repeti- mos uma cena que dói, como se, dessa vez, ela pudesse finalmente se resolver. É lento e difícil sair daí porque, em algum ponto da nossa história, vivemos experiências nas quais não fomos sujeitos, mas objetos. Algo nos aconteceu sem que pudéssemos escolher. E a repetição aparece como uma tentativa inconsciente de elaborar o que ficou em aberto. Desapaixonar-se começa, paradoxal- mente, por olhar para aquilo que dói. Perguntar-se: o que estou buscando quando aceito mais uma cota de sofrimento? Que recurso interno uso para transformar violência em amor, rejeição em prova de afeto?

"Apaixonar-se pode ser caminhar numa corda bamba entre prazer e padecimento"

Em que momento amor e punição se confundiram? Muitas vezes, ficamos presos a relações marcadas pela ausência, pela indecisão, pelo vai e vem. Um outro que nunca está inteiro, que promete e retira, que oferece migalhas. E algo em nós insiste nesse lugar, como se amar alguém difícil fosse a única forma possível de provar valor, de merecer amor. O amor tranquilo, disponível, pode parecer sem graça; o amor que falta, esse sim ganha intensidade. É aí que a pergunta se desloca: não se trata apenas de técnica de sedução, de jogos de presença e ausência, de responder ou não mensagens.

Talvez a questão esteja menos no controle do desejo do outro e mais no contato com aquilo que vibra em nós. Com o modo como existi- mos, criamos, brincamos, nos expressamos no mundo. Desapaixonar-se não é apagar um sentimento, mas deslocar o olhar. Sair do circuito repetitivo do sofrimento e se aproximar do próprio campo in- consciente. Reconhecer com quem – e de que maneira podemos vibrar juntos sem nos destruir. Saber se é possível ser amigos, amantes, parceiros ou apenas seguir caminhos diferentes. Talvez, no fim, desapaixonar-se seja isso: deixar de insistir no que dói para se permitir desejar aquilo que, de fato, encontra ressonância com quem se é. Não como promessa de completude, mas como possibilidade de vida que pulsa sem violência.

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