Maria Homem
Por
Maria Homem
— de São Paulo (SP)

Na infância, a amizade acontece quase sem esforço. A gente senta ao lado na escola e, de repente, já está dividindo o lanche, os segredos, os medos. O encontro é diário, o tempo é abundante, o convívio é inevitável. Na vida adulta, tudo muda. As agendas são cheias, os espaços são fragmentados, o contato é mediado por telas. E aquilo que antes parecia espontâneo passa a exigir intenção. Por que é mais difícil fazer novas amigas depois dos 30, 40 anos? Porque a amizade precisa de frequência. Precisa de repetição, de cotidiano, de saber da vida da outra. Na vida adulta, tudo se torna mais blindado. Trabalhamos, voltamos para casa, é cômo- do se encapsular. Falta corpo, falta presença, falta o olho no olho que sustenta o vínculo. Sem esse chão do encontro, ficamos na conversa de elevador: trabalho, filhos, rotina.

Conversas funcionais, mas que não atravessam a pele. E a intimidade nasce, justamente, do atrito. Do embate. Da troca que inclui vulnerabilidade, pequenas discordâncias, reve- lações. É a fricção com o outro que aprofunda o laço. Há também outra camada, talvez mais profunda. Ao tentar nos aproximar de novas mulheres, algo da infância pode ser reativado. Lembranças de exclusão, de rivalidade, de quem foi escolhida e de quem ficou de fora. Perguntas silenciosas retornam: qual é o meu lugar no grupo? Quanto eu valho? Sou desejada, sou querida? Quando entramos nesse cálculo – essa engenharia da valia –, deixamos de estar presentes. Ficamos nos avaliando e avaliando a outra. Armadas. Alertas. E a amizade exige o contrário: desarmamento.

Historicamente, o feminino foi atravessado por narrativas de competição. Quem é a mais bonita? Quem será escolhida? Quem conquista reconhecimento? Esse mito da comparação ainda ressoa, mesmo que de for- ma sutil. Ele pode transformar potenciais parceiras em rivais imaginárias. Somos mulheres adultas vivendo no mesmo tempo, atravessadas por pressões seme- lhantes. Só isso já nos coloca numa condição de parceria. A amizade pode ser um espaço de troca real, onde não se disputa valor, mas se compartilha experiência. Criar amizade na vida adulta implica inventar dis- positivos de encontro e aceitar que haverá diferenças e até pequenos conflitos – porque é justamente aí que o vínculo se solidifica. Sem risco, não há profundidade. É preciso relaxar a vigilância interna e permitir-se simplesmente estar com a outra. Sair da comparação e entrar na troca. Ir além da conversa de elevador e sustentar a intimidade possível. A amizade na infância era circunstância. Na vida adulta, é escolha. E talvez seja exatamente por isso que, quando acontece, se torne tão valiosa.

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