Maria Homem
Por
Maria Homem
, colunista Marie Claire Brasil — São Paulo (SP)


Hétero-ceticismo: um chamado para reinventar o amor — Foto: divulgação
Hétero-ceticismo: um chamado para reinventar o amor — Foto: divulgação

"Estou tirando férias dos homens." Quantas de nós já não ouvimos – ou até pronunciamos – essa frase? À primeira vista, pode parecer uma brincadeira, uma piada sobre estar “sóbria de boys” ou “livre de boy lixo”. Mas, no fundo, há algo mais profundo e urgente nessa declaração. Algo que nos leva a questionar: o que os homens estão oferecendo hoje?

Há um movimento crescente, quase um sussurro coletivo, que ecoa entre as mulheres: o hétero-ceticismo. Não se trata de pessimismo, mas de uma desilusão consciente. Uma desilusão que nasce da percepção de que, muitas vezes, o que nos é oferecido em termos de relações heterossexuais é pouco. Muito pouco.

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Por séculos, fomos ensinadas a buscar o príncipe encantado. Aquele homem forte, bem-sucedido, culto, apaixonado. Um ideal que, sabemos agora, era apenas uma fantasia. Ajustamos nossas expectativas, aceitamos as imperfeições, aprendemos a negociar entre o eu e o ideal de eu. Mas, hoje, o problema não é mais o ideal inalcançável – é o anti-ideal. O que nos chega não está no campo do real; está aquém dele.

Relações tóxicas, assediadoras, opressivas, precárias. Masculinidades que oscilam entre o desinteresse e o controle. Homens que, em vez de parceiros, se apresentam como projetos inacabados – quando não como verdadeiras decepções. E, diante disso, muitas de nós dizem: “Estou fora”.

Esse “fora” não é apenas uma rejeição individual; é um movimento social. As mulheres fizeram suas revoluções. Conquistaram espaços, construíram carreiras, descobriram a autonomia. Aprendemos que não precisamos da validação masculina para existir no mundo.

O hétero-ceticismo não é um capricho, mas um sinal de que algo precisa mudar. É um chamado para que os homens se reinventem. Por séculos, as mulheres se transformaram, romperam padrões, desafiaram normas. E agora? O que vocês, homens, propõem? Porque estamos nos retirando da cena – não por birra, mas por entender que merecemos mais.

Esse distanciamento não é um fim, mas um começo. Um convite para repensar as relações. Para construir algo que vá além do tradicional, do opressivo, do insuficiente. Algo que seja verdadeiramente erótico, vivo, feliz. Um amor que não nos diminua, mas que nos amplie. Um vínculo em que ambos sejam sujeitos plenos, com desejo, criatividade e potência.

Porque, no fim, não queremos apenas nos afastar. Queremos algo que valha a pena. Algo que nos faça sentir que o amor – aquele amor verdadeiro, profundo, transformador – ainda é possível.

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