Maria Homem
Por
Maria Homem

O que é, afinal “coisa de menino”? Durante muito tempo, a resposta a essa pergunta foi escrita por um modelo de masculinidade que parecia inquestionável: força, controle, invulnerabilidade. Ser homem era, em grande parte, não ser mulher. Não chorar. Não hesitar. Não demonstrar afeto. Era dominar o espaço, o outro, a si mesmo.

Esse modelo foi passado de geração em geração como herança e sentença. Mas o que acontece com os homens quando não se permite que sejam frágeis? O que acontece com uma sociedade onde o masculino é sinônimo de silenciamento emocional?

Hoje, essas perguntas ganham nova luz. E é exatamente nela que se apoia Coisa de Menino?, meu novo livro – que dá continuidade ao diálogo iniciado com Contardo Calligaris em nosso livro anterior, Coisa de Menina?. Se antes falávamos do feminino como uma construção social, agora é hora de colocar o masculino também sob análise.

Desde o final do século 19, os movimentos feministas começaram a redesenhar o espaço das mulheres no mundo. Com isso, não apenas elas foram transformadas – os homens também precisaram (e ainda precisam) se refazer. A velha masculinidade não serve mais. E tampouco sustenta quem a carrega.

A proposta de Coisa de Menino? é simples, mas radical: reinventar o masculino. Em vez de opressão, parceria. Em vez de controle, cuidado. Em vez de silêncio, escuta. Não se trata de enfraquecer o homem, mas de libertá-lo das expectativas, dos papéis rígidos, da obrigação da perfeição. É hora de permitir que o homem seja inteiro: razão e emoção, coragem e vulnerabilidade, presença e afeto. É um convite a repensar o que de fato significa ser homem.

Coisa de Menino? não oferece respostas prontas, porque talvez o mais urgente, agora, seja mesmo fazer perguntas novas. Talvez ser homem, hoje, signifique desaprender. Rever. Refletir. Refazer. Com leveza, com verdade. Com vida. Porque, no fim das contas, coisa de menino também é sentir. É duvidar, cair, cuidar, criar. É não precisar mais fingir que não dói. E isso, talvez, seja o mais corajoso dos atos.

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