Maria Homem
Por
Maria Homem
, colunista da Marie Claire

Já não é de hoje que o amor nos arrebata, mas também nos rasga. Talvez você já tenha se perguntado: como é possível que algo tão desejado, cantado, idealizado… doa? Como é que o amor, que deveria ser o lugar do encontro, tantas vezes se transforma em ruína, desencontro, mal-entendido?

Eva Illouz, socióloga e pensadora do nosso tempo, enfrentou essa pergunta. E a resposta, como sempre, é menos individual do que imaginamos. O sofrimento amoroso, nos diz ela, não é só seu, é também uma dor social. Uma ferida cultural. Uma consequência do modo como, hoje, aprendemos (ou desaprendemos) a amar.

No livro “Por que o Amor Dói”, Illouz propõe que o colapso dos antigos modelos de relacionamento, aqueles em que os papéis estavam rigidamente definidos, nos lançou num abismo de possibilidades. Se antes o amor era quase um contrato, uma norma, uma instituição sustentada por papéis fixos (ele o provedor, ela o afeto), agora ele se dá no campo aberto da escolha. Do desejo. Da liberdade.

E é nesse terreno, justamente, que mora o desamparo. Porque a liberdade, essa conquista tão cara, também nos lança num vazio. Hoje, tudo é possível. Amores livres, casamentos tradicionais, vínculos híbridos, encontros líquidos. Mas o que é possível… nem sempre é vivível. E o excesso de opções não elimina o medo. Ao contrário: escancara a falta de garantias.

Então, como amar sem chão? Illouz aponta para a revolução sexual como um divisor de águas. O corpo feminino se liberta mas, com ele, também se desfaz uma antiga “moeda de valor”: a promessa de ser escolhida, protegida, mantida. Se antes o sexo precedia o compromisso, hoje pode não significar mais do que um instante. Um toque que não se repete. Uma entrega que não retorna.

E muitas mulheres, ainda hoje, se perguntam: o que me volta daquilo que entrego? O tempo, o corpo, o cuidado — ofertados no amor — retornam como quê? Virginia Woolf já dizia: "as mulheres têm servido de espelhos, refletindo o homem com o dobro do seu tamanho." Talvez hoje nos recusemos a continuar polindo esse espelho. Mas ainda tateamos em busca de outro reflexo: aquele onde possamos também nos ver. Inteiras. Desejadas. Vivas.

A dor do amor, então, não é apenas a dor de um não correspondido. É a dor de um tempo que já não nos oferece moldes e tampouco garante vínculos. Queremos amar, sim. Mas não sabemos mais como. Queremos ser livres, mas tememos a solidão. Queremos um outro, mas não queremos nos perder de nós.

Então, a pergunta talvez não seja apenas “por que o amor dói?”, mas sim: como continuar amando sem nos rasurar? Sem voltar à prisão de antes, mas também sem desistir do laço, da aposta, do encontro? Que tal pensarmos e sentirmos juntas novas formas de amar? Mais livres. Mais conscientes. E, sobretudo, mais verdadeiras.

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