Envelhecer no mundo que fetichiza a juventude
A imagem que se quer ver no espelho é lisa, firme, sem marcas, sem rugas, sem história
Vivemos um tempo que transforma a juventude em fetiche. A imagem que se quer ver no espelho é lisa, firme, sem marcas, sem rugas, sem história. Ao mesmo tempo, o real da vida segue seu curso inexorável: as células envelhecem, o corpo muda, o tempo passa. Eis o paradoxo em que estamos mergu- lhados: desejamos um ideal que aponta numa direção, enquanto a vida nos conduz exatamente para a oposta. Esse impasse não é exclusivo do envelhecimento. Queremos um corpo magro numa cultura que nos oferece, o tempo todo, produtos hiperpalatáveis, sabores artificialmente construídos para nos capturar.
O ideal exige controle absoluto; o mundo nos convida ao excesso. A estrutura é semelhante: a cultura fabri- ca imagens enfeitiçadas e nós tentamos caber nelas, mesmo quando negam nossa condição humana. Somos uma espécie que sabe. Homo sapiens. Pensamos, imaginamos, criamos ideais. E é justamente aí que mora a armadilha: o ideal quase sempre aponta para o inalcançável. No amor, por exemplo, fantasia- mos a alma gêmea, sem nos dar conta de que somos indivíduos – é impossível aglutinar perfeitamente no outro. Já no envelhecimento, idealizamos a permanência da juventude e esquecemos que a vida é ciclo.
Talvez o desafio seja outro: fazer o luto da fantasia de transcendência. O luto da imortalidade, da pele eterna, da ausência de marcas. O luto da ideia de que poderíamos escapar da pulsação do tempo. É um luto radical, porque atinge o narcisismo mais profundo: o desejo de permanecer intacto. Mas o luto não é apenas perda. Ele pode abrir uma nova forma de saber. Não o saber delirante que constrói ideais impossíveis, mas uma sabedoria que se aproxima do real. Descobrir a beleza da vida como ela se apresenta. A beleza das estações, das passagens, das transformações. As marcas na pele contam uma história. O rosto que se altera revela expressões vividas, risos repetidos, do- res atravessadas. O corpo é arquivo.
Quando recobrimos tudo, quando apagamos todos os sinais, corremos o risco de nos divorciar da própria trajetória. Como saber quem somos se apagamos os vestígios do que vivemos? A questão não é moralizar procedimentos ou escolhas individuais. É perguntar: conseguimos amar o real? Conseguimos nos reconciliar com aquilo que somos agora, neste tempo? Se coletivamente deslocássemos o olhar, talvez pudéssemos encontrar o belo em outro lugar – não na negação da idade, mas na sua presença. Envelhecer, neste mundo que fetichiza a juventude, é um ato de coragem simbólica. É aceitar que a vida tem ciclos e que cada um deles carrega uma potência própria. É habitar, com dignidade e curiosidade, cada estação da existência.