“Uma grande parte da análise é um trabalho de ter consciência”, diz Maria Homem
Psicanalista e escritora lança plataforma “Lupa da Alma” com aulas ao vivo e comunidade para trocas
Por Paula Sperb, em colaboração para a Marie Clair — de Porto Alegre (RS)
Em um mundo onde a mulher ainda carrega o peso invisível de sustentar afetos, lares, carreiras e expectativas alheias, a psicanalista Maria Homem propõe usar uma lente de aumento para o autoconhecimento. O “Lupa da Alma” é uma plataforma com aulas, pílulas de conhecimento em áudio, acervo de referências e até uma inteligência artificial que tira dúvidas 24h, o “Tutor MH”.
“Uma grande parte da análise é um trabalho de ter consciência”, explica a psicanalista à MARIE CLAIRE (leia a entrevista abaixo).
Inspirado no título do livro homônimo (Todavia, 2020), o curso propõe uma jornada diagnóstica profunda e a troca entre os integrantes da comunidade. “Quem sou eu e o que de fato eu quero para refazer esses elos, retecer a trama dos laços sociais? Por isso a comunidade é importante”, explica a psicanalista.
O mote grego, “conhece-te a ti mesmo”, retomado por Nietzsche como “tornar-se aquilo que se é”, ganha no curso um duplo movimento. “Um é se conhecer e dois é poder se tornar aquilo que a gente é e que deseja ser. Então, é um duplo processo que se retroalimenta”, diz Homem.
Manter ativa a ideia de “conhece-te a ti mesmo” é parte do objetivo da iniciativa. “Justamente esse é o desafio da Lupa da Alma e da nossa comunidade”, explica.
O curso tem três módulos, com aulas ao vivo e gravadas: “Processo Diagnóstico: usando a Lupa da Alma para investigação”, “Processo de descoberta das origens do passado e linhas do futuro” e “A resolução ou a cura: etapas da consciência”.
Há conteúdos gratuitos disponíveis no Instagram e YouTube. Mas o acesso integral depende de inscrição pelo site https://mariahomem.com/: R$ 1.497 á vista ou 12x R$ 154,82.
Abaixo, Maria Homem fala sobre questões femininas contemporâneas e o Lupa da Alma:
No templo de Delfos, a inscrição “Conhece-te a ti mesmo” é um convite à reflexão. Para a mulher contemporânea, que muitas vezes cuida de todo mundo menos de si, o que significa realmente aplicar esse antigo conselho hoje?
Justamente esse é o desafio da Lupa da Alma e da nossa comunidade. Juntas, com a rede que a gente tece, com o outro, com a lupa e com a autoconsciência, não deixar perder esse mote. Isso é muito antigo, isso é Píndaro, é dos gregos lá atrás. Está escrito no na parede do oráculo, né:” Conhece-te a ti mesmo.
Isso é retomado depois por Nietzsche, que escreve no subtítulo de um livro,”Ecce homo”, “para se tornar aquilo que se é”. Então, tem um duplo processo aí, que eu acho que vale a pena a gente dividir aqui.
Um é se conhecer e dois é poder se tornar aquilo que a gente é e que deseja ser. Então, é um duplo processo que se retroalimenta, que dialetiza. Você, com o tempo, vai cada vez mais captando o que você gosta e o que você não gosta mais. Ou que você se habituou em ser, mas que não era seu, é do outro. Uma grande parte da análise é um trabalho de ter consciência. “Espera aí, estou há décadas repetindo algo que nem sou eu. Isso é um pedaço que eu estava identificado com o meu pai, com a minha mãe, com a minha classe, com minha cor, minha pele, meu estilo, meu grupo, minha tribo”. Quem sou eu e o que de fato eu quero para refazer esses elos, retecer a trama dos laços sociais? Por isso a comunidade é importante.
Uma das propostas do curso é investigar amor, sexualidade, família, trabalho e dinheiro. Qual é o bloqueio mais comum que você vê nas mulheres de hoje nessas áreas?
Vamos colocar nossa “lupa da alma” sobre o feminino. Vou dar um passo atrás para a gente ver a estrutura. Historicamente, há milênios, a mulher foi colocada num lugar secundário, lateral, minorado, sem direitos. Ou seja, para resumir muito, com menos. O outro, a alteridade masculina, com mais. Então, todas as áreas da vida estão afetadas. Qual era a saída para a mulher, se ela era fálica, se ela está no lugar da castração ou se ela não é fálica, se o falo está no homem, está no masculino, o que que ela deseja? Qual é a única via muito estimulada, quase obrigada? Qual o único caminho de sobrevivência? O homem ou Deus.Ou você vai para o convento e você se retira do mundo. Você tem a via eremita ou, a mais comum, você arruma um homem para casar, te apoiar, te sustentar e ao qual você vai se subordinar, obedecer, reproduzir. E, uns séculos depois, formar a família que passou a ser valorada no século XVIII e XIX, sobretudo com o nascimento da valorização da infância e da “rainha do lar”. Então, o lugar de esposa e de mãe era onde você tinha uma pequena fresta para ter valor e reconhecimento. Mas era um tipo de amor submisso, era um tipo de amor idealizado, né? Esse amor com parceria, o erotismo, a conexão com o seu próprio corpo e a descoberta sexualidade propriamente estava muito recalcada. Tanto que o Freud atendeu as “histéricas” do século XIX, que era um grande sintoma cultural e sociocultural da elite do Império Austro-Húngaro sofrendo. As mulheres começaram a ler, a pensar, a se informar e a entender o tamanho do buraco do lugar em que elas estavam, em que elas tinham sido colocadas. Então, aí foi a rebeldia e a luta na virada para o século XX com várias conquistas, né? O trabalho, como campo legítimo, foi e ainda é muito recente. Algumas das nossas mães não trabalhavam fora. As avós, as bisavós não estudaram. Então, é muito recente essa legitimidade dos vários campos da vida: amor, trabalho, dinheiro, sexualidade, maternidade.
Pensando na etapa do curso que aborda os traumas, o que muda na vida de uma mulher quando ela consegue, de fato, atravessar o trauma em vez de apenas entendê-lo?
Essa é uma boa pergunta. A grande diferença entre compreensão, entendimento mais racional, psicológico, sociopolítico e um atravessamento subjetivo, analítico, psíquico. Em que você tem não só uma compreensão da ideia, mas você tem o afeto. O Freud falava dessas duas camadas. Ideia e afeto, representação e aquilo que te afetou. Quando você vive isso, você de fato se coloca em outro lugar. Se coloca em outro lugar de autovalor, autoconhecimento, confiança, saber colocar limite, saber o que você quer, saber dizer não e saber dizer sim, saber cortar aqui e se encaminhar para ali, buscar, construir, fazer rede, fazer trabalho. Trabalho no sentido lato do termo, uma força na direção de uma meta e poder se autorizar. A elaboração do traumático, ela leva a essa autorização de si e do seu outro lugar.
Na parte final, o foco é sair do lugar de vítima e se tornar agente da própria história. O que você diria para a leitora que hoje se sente “presa” entre carreira, filhos, relacionamentos e o desejo de viver com mais propósito?
Colocaria no cerne de tudo isso o termo desejo, que é coligado a esse outro termo: propósito. Colocaria ainda uma outra “perninha” nesse tripé, que é do reconhecimento do seu próprio lugar, não só como lugar de fala, mas como lugar de ser. É uma autorização, como chamei. É se autorizar plenamente na sua existência, no seu ser, no seu corpo, no seu desejo, no seu estilo, na sua história, na sua ancestralidade, nas suas conexões. A partir daí, você não está aprisionado e fazendo, cumprindo a demanda do mundo, a demanda do outro.
Você não está preso ao outro, que te demanda e que te obriga. Seja o marido, seja o filho, seja o chefe, seja seu superego. Você está caminhando naquilo que você acredita e naquilo que você deseja. Poder caminhar, querer fazer, querer construir.
Não é prisão, mas é trabalho, é conquista, é prazer. É um trabalho prazeroso porque ele te faz sentido, porque você está construindo algo, você acredita naquilo que você está construindo.









